Sob os afrescos da Capela Sistina, cardeais vindos de diferentes partes do mundo definirão em breve quem será o novo líder da Igreja Católica, em um rito que, há séculos, pertence apenas aos homens. Na própria Casa Santa Marta, onde eles se isolam do mundo durante o conclave, são as Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo as responsáveis por cuidar do funcionamento do local, mas, ao contrário deles, elas não têm qualquer poder de influência na decisão. Fora de cena como essas irmãs — e apesar das reformas promovidas pelo Papa Francisco, que lhes permitiram ascender a importantes degraus na hierarquia católica —, mulheres ainda assistirão à decisão pela fresta de uma pesada porta que resiste a se abrir por completo para elas, sobretudo na questão da ordenação clerical, um tabu que improvavelmente será quebrado tão cedo.
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As mudanças ao longo dos 12 anos de pontificado de Francisco em busca de uma maior inclusão das mulheres na estrutura da Igreja foram notáveis: elas passaram a poder liderar dicastérios (órgãos equivalentes a ministérios no Vaticano), a ter direito a voto nas assembleias do Sínodo dos Bispos (antes restritas apenas a membros ordenados, ou seja, homens), e várias foram nomeadas para ocupar cargos administrativos de importância dentro da Igreja.
Foram reformas expressivas quando se comparam os números de antes e depois de Francisco. Em 2013, quando Jorge Mario Bergoglio se tornou Papa, o Vaticano contava com apenas 846 mulheres em seu quadro de funcionários, o equivalente a cerca de 19,2% do total, segundo um levantamento do Vatican News realizado em 2023. Hoje, elas somam cerca de 1.165, representando 23,4% dos trabalhadores da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano. Na Cúria Romana — a estrutura administrativa central da Igreja Católica —, a presença feminina é ainda mais expressiva, alcançando 26,1%.
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Mas apesar do avanço, há ainda uma grande lacuna nos degraus mais altos: embora algumas tenham alcançado importantes postos de gestão — como as irmãs Simona Brambilla, primeira a liderar um dicastério, nomeada em janeiro, e Raffaella Petrini, presidente do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano, nomeada em fevereiro —, elas ainda ocupam menos de 5% das posições de liderança.
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Esse abismo de diferença na ocupação de espaços vai de encontro com a ideia de sinodalidade — conceito central do pontificado de Francisco, que propõe uma Igreja mais participativa e menos hierárquica —, argumenta a professora do Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Maria Clara Bingemer.
— As mulheres esperavam que Francisco fosse mais além, mas eu acho também que uma pessoa só não pode lutar todas as batalhas — diz ao GLOBO a teóloga. — Mas se querem levar avante a questão da sinodalidade, esse é um ponto que vão ter que olhar com bastante carinho. Uma sinodalidade que não acontece entre homens e mulheres, como vai acontecer a nível maior? Não vai.
Os esforços para “desmasculinizar” a Igreja, nas palavras do próprio Francisco, são vistos no geral como moderados, mas geraram controvérsia por parecerem progressistas demais para uns e cautelosos demais para outros.
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“É verdade que Francisco nomeou algumas [mulheres] para cargos gerenciais. Mas era sempre uma mulher, quase sempre uma freira, numa instituição composta apenas por homens, que também eram padres, que por status tinham mais peso do que ela. Além disso, eram mulheres religiosas escolhidas pelas hierarquias eclesiásticas e, portanto, obedientes”, escreveu a historiadora italiana e ex-editora do suplemento feminino do L’Osservatore Romano, Lucetta Scaraffia, em um artigo no El País após a morte do Pontífice.
Ela destaca ainda que, no caso da irmã Brambilla, por exemplo, apesar da nomeação histórica, veio acompanhada de um acréscimo inédito: ela exercerá a função com o apoio de um pro-prefeito, o cardeal espanhol Ángel Fernández, embora essa divisão ainda não esteja clara.
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Há ainda outra questão lembrada pela ativista Maria José Rosado, doutora em Ciências Sociais e presidente da ONG Católicas pelo Direito de Decidir, a respeito das mudanças: a maioria não levou a alterações no Código de Direito Canônico — que rege toda a Igreja —, sendo apenas pastorais, e, portanto, podem ser modificadas novamente pelo futuro Papa.
A exceção é a carta apostólica “Spiritus Domini”, publicada por Francisco em 2021, que permitiu formalmente que mulheres sejam instituídas nos ministérios do leitorado e acolitado, papéis antes reservados apenas a homens. Com a mudança, elas passaram a poder fazer a leitura da Bíblia durante a missa, a distribuir a comunhão aos fieis, entre outras funções de apoio.
— As reformas que ele propôs e as mulheres que ele colocou em determinados lugares institucionais não deixam de demonstrar uma vontade de dar a elas mais voz e algum poder na estrutura hierárquica. Mas, como no mundo secular, se você não transforma em legislação os direitos que se conquistam, eles podem mudar conforme a onda governamental, política e ideológica que esteja em curso. Isso também se aplica à Igreja — explica ao GLOBO a socióloga.
Uma das questões mais controversas é a ordenação de mulheres, que até hoje continuam proibidas de acessar o sacerdócio, segundo o Código de Direito Canônico.
Mesmo reconhecendo a importância do papel da mulher na Igreja, Francisco sempre reafirmou a posição tradicional de que as ordens sagradas são reservadas aos homens. Apesar disso, criou duas comissões, em 2016 e 2020, para estudar o diaconato feminino, com a missão de analisar os registros sobre diaconisas na Igreja primitiva, entre os séculos I e V — mulheres que auxiliavam no batismo de outras mulheres, cuidavam dos pobres e dos doentes, entre outras tarefas pastorais. No entanto, os trabalhos não avançaram.
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— Hoje somos recebidas com muito mais entusiasmo do que fomos sob Bento XVI. Temos apoio, mas infelizmente, principalmente silencioso, de alguns padres, bispos e cardeais que sabem que somos membros leais e fiéis da comunidade da igreja. Graças a Francisco, agora pode haver um desacordo respeitoso e uma discussão por causa do trabalho que foi feito sobre a sinodalidade — disse ao GLOBO a porta-voz da associação Ordenação de Mulheres Católicas (CWO, na sigla em inglês), Pat Brown, do Reino Unido. — E a ordenação de mulheres está no topo da lista de mudanças que as pessoas querem ver.
Segundo uma pesquisa do Pew Research Center de setembro de 2024, o apoio à ordenação de mulheres de fato cresceu na última década em seis países latino-americanos, com o Brasil sendo o primeiro da lista (83%), seguido por Argentina (71%), Chile (69%), Peru (65%), Colômbia (56%) e México (47%). Nos Estados Unidos, uma amostra do mesmo ano, também do Pew, indicou que cerca de 64% dos católicos americanos são favoráveis à ideia.
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Ainda assim, é uma barreira considerada quase intransponível. Na doutrina católica, mulheres não podem ser ordenadas porque, segundo a tradição, Jesus escolheu apenas homens como apóstolos — e a Igreja entende que não tem autoridade para mudar isso. Tal posição foi reafirmada oficialmente pelo Papa João Paulo II em 1994, na carta “Ordinatio Sacerdotalis”, declarando que a ordenação sacerdotal está reservada “exclusivamente aos homens”.
— É uma questão de poder hierárquico patriarcal, absolutamente masculino — diz Rosado. — Mudar isso é mudar toda a estrutura do poder simbólico, religioso, econômico, político. É mudar a Igreja Católica por completo.
Para Bingemer, porém, a questão vai além da dificuldade de torná-la real, uma vez que ainda há muitos outros obstáculos mais possíveis de serem vencidos pela frente.
— Acho que não é uma coisa que mereça o investimento de todas as nossas melhores energias. A mulher tem muitas coisas para fazer antes disso. Ela tem que ocupar cada vez mais espaços dentro da Igreja. Já tem muitas mulheres teólogas, mulheres que se ocupam das comunidades do Brasil, lá para cima, onde falta clero. Mas há espaço pra muito mais.
