A poucos dias de sua entrada no mercado brasileiro, o Mounjaro já tem fila de espera em redes de farmácias. O “Ozempic dos ricos”, como costuma ser chamado, está previsto para chegar às prateleiras das drogarias do país até o próximo dia 15. De olho na demanda pela caneta emagrecedora, que até hoje era vendida no Brasil somente via importação, estabelecimentos apostam na pré-venda e na comunicação dirigida a potenciais interessados.
As redes de farmácias Drogarias Pacheco, a Drogaria São Paulo, a Droga Raia e a Drogasil (ambas RD Saúde), a Drogasmil e a Pague Menos disponibilizaram a pré-venda do fármaco online, uma semana antes dele começar a ser vendido nas lojas físicas.
As drogarias São Paulo e Pacheco também começaram a disparar mensagens para pessoas com cadastro alertando sobre a venda antecipada da caneta injetável. Através do link enviado, é possível acessar uma página e escolher dentre duas opções (2,5 mg e 5 mg) de dosagem do remédio.
Nesta segunda (5), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alertou para a divulgação de peças de propaganda na redes sociais com links para ofertas do medicamento no site oficial da autarquia. “A Anvisa não comercializa qualquer medicamento ou serve de intermediária para a sua venda”, alertou a agência, em nota.
A busca por outros medicamentos do gênero teve um pico de crescimento depois da mudança de regras para a venda de análogos de GLP-1, a classe de remédios à qual pertencem as canetas injetáveis Ozempic, Wegovy, Saxenda e Mounjaro e o comprimido Rybelsus. A partir de 23 de junho, passa a ser obrigatória a retenção de receitas por farmácias. A decisão de endurecer as normas, tomada pela Anvisa , também determina que as prescrições serão válidas somente por 90 dias a partir da data de emissão.
A nova instrução normativa foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) no último dia 24. Nela, consta que a prescrição médica deverá ser realizada em duas vias para que uma delas fique retida na farmácia no momento da compra, assim como é feito com os antibióticos. As drogarias, por sua vez, deverão registrar a compra e venda dos medicamentos no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC).
A mudança afetou a demanda pelos remédios. Segundo informações apuradas pelo GLOBO, na opção de televenda da Drogarias Pacheco, rede com 1.300 farmácias em todo o Brasil, a versão do Wegovy (“primo” do Ozempic criado especificamente para o emagrecimento) na dosagem de 1 mg esgotou na última semana.
Na farmácia Droga Raia, em Madureira, por exemplo, havia apenas uma unidade de Wegovy e Ozempic disponível. Em outras localidades, como nas Drogarias Riofarma do Flamengo, do Catete e da Lapa, Ultrafarma do Catete e na Drogasmil do Flamengo, todas as opções de dosagens do Wegovy estão esgotadas. Segundo vendedores das lojas mencionadas, a procura pelo remédio aumentou especialmente no último mês.
De acordo com a nota publicada logo após a decisão, a medida da Anvisa teve como objetivo principal proteger a saúde da população brasileira. A autarquia ressalta que foi observado um número elevado de eventos adversos relacionados ao uso desses medicamentos fora das indicações aprovadas.
Contudo, dados de farmaco-vigilância sinalizaram “muito mais eventos adversos relacionados ao uso fora das indicações aprovadas pela Anvisa no Brasil do que os dados globais”, segundo a autarquia. A análise feita pela agência reguladora mostrou que, entre 2019 e setembro de 2024, foram registradas 524 notificações de suspeitas de eventos adversos decorrentes da semaglutida, presente no Ozempic e no Wegovy.
Desse total, 169 (32,25%) corresponderam a “uso não descrito em bula (off-label)”, e 126 (24%) ao “uso de produto em indicação não aprovada” (43; 8,2%). Entre essas notificações decorrentes do mau uso do medicamento, 166 (98,8%) foram classificadas como graves.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recebeu um total de 52.590 notificações de suspeitas de eventos adversos decorrentes da semaglutida no mesmo período, das quais 10,29% corresponderam a “uso não descrito em bula (off-label)”, e 8% ao “uso de produto em indicação não aprovada”, percentuais consideravelmente inferiores aos do Brasil.
Como funcionam as novas drogas
O GLP-1 (glucagon-like peptide-1) é um hormônio produzido pelo intestino que sinaliza saciedade ao cérebro. Os medicamentos desta classe simulam a função exercida pela substância no corpo.
No Brasil, alguns análogos de GLP-1 à base de semaglutida receberam o aval para tratar a diabetes tipo 2, como o Ozempic, que se tornou popular após a repercussão do seu uso off-label (finalidade diferente daquela da bula) e o comprimido Rybelsus. O Mounjaro, que chega às prateleiras neste mês, tem outro princípio ativo, a tirzepatida, que além do GLP-1 também atua nos receptores de outro hormônio envolvido com a saciedade, o GIP.
Outros foram aprovados para o tratamento da obesidade, como o Wegovy (semaglutida) e o Saxenda (liraglutida).
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) apoia a decisão da autarquia e destaca o crescente uso inadequado dos fármacos análogos de GLP-1 no país.
A SBEM defende um maior acesso a medicamentos eficazes como esses, mas para pessoas que realmente deles necessitem e entende que, para isso, torna-se necessário também um melhor controle da comercialização dessas substâncias, evitando-se sobretudo a automedicação”, afirma, em nota.
Bruno Halpern, diretor do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), pondera que os análogos de GLP-1 se tornaram populares por conta da finalidade estética, o que os tornou “fórmulas de emagrecimento rápido”.
Assim, ele ressalta que, além da náusea, enjoo e até mesmo eventual diarreia, pessoas que fazem o uso inadequado, sem acompanhamento médico, estão se colocando em risco de desenvolver outras consequências mais raras e graves, como gastroparesia e doença biliar.
— Todo remédio tem efeito colateral. Por isso, se a pessoa não está fazendo uso daquele medicamento visando benefícios à própria saúde, porque precisa dele para tratar uma doença, por exemplo, qualquer risco eventual é inaceitável — explica Halpern.

