O GLOBO já comemorou seus 100 anos, mas segue naquela alegre ressaca de aniversário bom, quando ainda tem confete preso no sapato e assunto rendendo na mesa do bar. Foi nesse after party que me meti numa pesquisa perigosíssima: descobrir desde quando estas páginas — muito antes de mim, de Marcella, de Juarez Becoza e até Nelson Rodrigues — falam botequim. Ou de boteco. Ou de bar. Ou de pé-sujo.
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E a resposta apareceu rápido. Muito rápido. A palavra “botequim” já estava lá na primeiríssima edição do jornal, em 29 de julho de 1925. Não numa crônica elegante sobre boemia, nem num texto saudoso sobre garçons de paletó branco e chope bem tirado. O primeiro botequim do GLOBO apareceu numa matéria policial. Mais Rio impossível. No meio de um relato sobre assaltos pela cidade, o jornal registrava: “Foi escolhido para theatro de operações dos malfeitores, o botequim n. 244 A, de propriedade da firma Teixeira & Filho…”.
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O botequim surgia, portanto, impessoal, apenas um número, como cenário de confusão, correria, arrombamento e intervenção policial. Diz muito sobre o que era um botequim há um século. Ainda não era o espaço romantizado da crônica carioca, nem patrimônio afetivo de intelectual de bermuda e jornalista pós-fechamento. Era antes de tudo um pedaço da rua: pequeno comércio popular onde cidade, conversa, comércio e confusão se misturavam naturalmente. O Rio talvez ainda não chamasse aquilo de boemia. Mas já vivia dentro dela.
Sua variação, porém, demoraria 43 anos para aparecer. O “butiquim” só surge nas páginas do GLOBO em 1972, já bem menos como endereço físico e muito mais como conceito cultural. Ele aparece numa nota de bastidores teatrais anunciando que “Arlindo Rodrigues aceitou fazer os cenários de Butiquim, o musical de Guarnieri e Toquinho”. E olha como o Rio muda sem avisar: o botequim que estreou no jornal como cenário de assalto agora virava musical, MPB, dramaturgia e símbolo afetivo da cidade. O balcão tinha deixado de ser apenas parte da rua para virar personagem dela.
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Já o “bar” apareceu logo na primeira semana de vida do jornal, numa reportagem de agosto de 1925 em que o próprio GLOBO saía pelas ruas de Copacabana instalando placas para ajudar moradores e motoristas a se localizarem pela então ainda jovem Avenida Atlântica. Uma delas ficava “ao fundo do bar do Lido”. O bar surgia como paisagem, ponto de referência de uma cidade que começava a se encantar pela modernidade praiana da Zona Sul.
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Mas se o “bar” estreou nas páginas do jornal em meio às calçadas elegantes e ainda meio vazias de Copacabana, o “boteco” surgiu três anos depois, no alto do Morro do Querosene, no Rio Comprido. Não numa descrição formal do jornal, mas na fala de um garoto tentando explicar o poder de Waldemar Branco, bandido que mandava no morro mais do que muito figurão do asfalto, segundo o texto. “Não havia ‘boteco’ que não lhe fiasse”, dizia o menino, em depoimento ao repórter.
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E talvez não exista frase melhor para apresentar o nascimento do boteco carioca. Porque ali o boteco já não era apenas um estabelecimento. Era parte da engrenagem social do morro. Lugar de fiado, conversa, circulação, medo e sobrevivência. O mais curioso é que o jornal coloca a palavra entre aspas, quase reconhecendo que aquele termo ainda vinha da boca da rua, da oralidade popular, e não do português arrumadinho das redações. Como se tivesse sido inventado não por um urbanista ou cronista, mas por alguém encostado num balcão quente às quatro da tarde.
O “pé-sujo”, como nome desta coluna, não poderia faltar à pesquisa. Mas só apareceu há exatos 50 anos, em 1976, numa grande reportagem sobre a transformação da Cinelândia, seus bares históricos, garçons lendários, artistas e cinemas tentando sobreviver às reformas urbanas do centro. No meio disso, o texto dizia que o Bar Tangará, famoso pelas batidas e pela “moringuinha do Norte”, rivalizava “com o pé sujo da Rua São José”.
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E olha como isso é revelador: o jornal não explica o que era um pé-sujo. Não precisava. Qualquer carioca já entendia naqueles tempos exatamente do que se tratava.
Há justiça poética nisso tudo. O botequim estreou no jornal fugindo da polícia. O bar apareceu ajudando cariocas perdidos a se localizar por Copacabana. O boteco subiu o morro e virou linguagem da rua. O butiquim desceu para os palcos, ganhou música e iluminação de teatro. E o pé-sujo terminou consagrado como categoria afetiva da cidade — reconhecível no primeiro cotovelo apoiado no balcão correto.
No fim das contas, esta coluna talvez exista justamente para isso: lembrar que o Rio muda, ao longo dos anos, o nome e o significado das coisas. Mas o que sempre fica é a vontade de pedir uma cerveja e deixar a vida passar um pouquinho mais devagar. Por 100 anos. E por muito mais.

