A estreia carioca ao vivo de “Cabeça dinossauro”, dos Titãs, em 1987, ficou marcada pelo quebra-quebra antológico das poltronas do Teatro Carlos Gomes, tamanha a euforia da plateia, para quem já não bastava só cantar junto. Com esse trabalho provocador, lançado em 1986, que incitava os bichos a saírem dos lixos, aquele grupo de jovens roqueiros que vivia a redemocratização do Brasil alcançou um outro patamar — tanto conceitual quanto comercial. Com uma pegada punk diferente da que estavam acostumados (ou melhor, da que haviam acostumado o público), conquistaram um disco de ouro e passaram a arrastar multidões por onde passavam.
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Neste sábado, 40 anos depois, Tony Bellotto (voz e guitarra), Sérgio Britto (voz e teclados) e Branco Mello (voz e baixo) — trio remanescente do outrora octeto — celebram, no Qualistage, a atemporalidade de seu terceiro álbum de estúdio — que será tocado na íntegra, acrescido de músicas que conversem, de alguma forma, com ele, como “Armas para lutar” e “Nem sempre se pode ser Deus”. Eles estarão acompanhados por Beto Lee (voz e guitarra), Mário Fabre (bateria) e Alexandre de Orio (guitarra).
— Não nos sentimos relembrando um momento passado porque estamos tocando um disco que é muito atual e visceral — destaca Bellotto. — Quando foi lançado, no fim da ditadura, tinha uma celebração e ansiedade por aquela liberdade. Agora, vivemos o contrário: uma democracia que acreditávamos plenamente estabelecida, sofrendo algumas ameaças. Nesse sentido, ele fica ainda mais atual, né?
Britto e Mello concordam, e o repertório não deixa ninguém mentir. Fazem parte dele “Polícia”, motivada pela prisão de Bellotto e Arnaldo Antunes, e “Igreja”, pela censura de “Je vous salue, Marie”, de Jean-Luc Godard, pelo governo Sarney, para citar só duas.
— Os temas de que o disco trata não morreram e não vão morrer porque fazem parte do inferno e do céu da humanidade: violência policial, totalitarismo do Estado, ganância desenfreada — comenta Britto.
Mello destaca outro ponto: o acerto na forma de traduzir esses temas em música — as canções seguem funcionando ao vivo com os mesmos arranjos originais.
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Hoje um trio, os Titãs trazem consigo muito daquela big band de 40 anos atrás — à época, formada ainda por Arnaldo Antunes, Nando Reis, Paulo Miklos, Charles Gavin e Marcelo Fromer, morto em 2001, aos 39 anos, em um acidente de trânsito.
— Criamos juntos essa linguagem visceral, então [o disco] é um mérito de todos. Eu canto “O quê”. Tem música mais a cara do Arnaldo nesse disco? — destaca Bellotto. — No começo fiquei com receio, mas sempre preservamos o que é importante sabendo que temos que ler de outra maneira, senão fica uma caricatura malfeita, e nunca fomos por esse lado.
O show “Titãs — Cabeça dinossauro 40 anos”, que estreou em São Paulo no fim de março e já passou por Belo Horizonte, reúne diferentes gerações na plateia. Para Britto, é gratificante ver a obra seguir relevante, “a ponto de algumas pessoas tatuarem aquilo no corpo”:
— É muito recompensador, e só comprova a força da música, que não tem idade.
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O tempo passa para público e artistas, claro, mas algumas coisas permanecem. Do palco, Belotto vê Britto cantando “AAUU” com a mesma atitude de 40 anos atrás, porque, segundo ele, “não tem outro jeito de cantar essa música”.
— Quando começamos, a “atitude rock’n’roll” era muito associada a uma rebeldia da juventude. Hoje, o panorama é outro: o rock perdeu relevância e esse aspecto questionador talvez esteja mais no rap — pontua. — Mas nossa atitude está intacta. E, de certa forma, até mais acentuada, por ser mais rara no mercado.
Mello, que enfrentou tumores na região da garganta, ressalta o prazer de manter vivo o espírito da banda com sua “voz nova”.
— Depois de quatro cirurgias, minha voz virou outra, e tenho muito prazer em cantar assim. Ela me traz elementos de rock e de sujeira interessantes. As músicas pesadas soam muito bem.
Britto sintetiza a passagem do tempo ao afirmar que, na música, “não existe prazo de validade”:
— Não tem isso de “vou me aposentar, parei, cansei”. É provável que eu faça [música] até o fim da vida.
Os companheiros de banda concordam com ele — e os fãs agradecem.
- “Cabeça dinossauro”
- “AA UU”
- “Igreja”
- “Polícia”
- “Estado violência”
- “A face do destruidor”
- “Porrada”
- “Tô cansado”
- “Bichos escrotos”
- “Família”
- “Homem primata”
- “Dívidas”
- “O quê”
- “Será que é isso o que eu necessito?”
- “Anjo exterminador”
- “Armas para lutar”
- “Canção da vingança”
- “Vou duvidar”
- “Eu não sei fazer música”
- “Diversão”
- “Nem sempre se pode ser Deus”
- “Eu não aguento”
- “Lugar nenhum”
- “Desordem”
- “Flores”
- Onde: Qualistage. Via Parque, Barra
- Quando: Sábado (9), às 21h
- Quanto: De R$ 171,50 (pista frente) a R$ 255,50 (camarote A), com 1kg de alimento
- Classificação: 16 anos

