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Mais de 500 peças sacras de igrejas do Rio estão desaparecidas, segundo Iphan 

Um dos principais ourives e prateiros do Brasil nas primeiras décadas do século XIX, José de Oliveira Coutinho gravou nas centenas de peças que produziu para igrejas e clientes particulares as iniciais de seu nome: JOC. Esse foi um dos detalhes que ajudaram a Polícia Judiciária de Lisboa a localizar, meses atrás, quatro tocheiros monumentais […]

Mais de 500 peças sacras de igrejas do Rio estão desaparecidas, segundo Iphan 


Um dos principais ourives e prateiros do Brasil nas primeiras décadas do século XIX, José de Oliveira Coutinho gravou nas centenas de peças que produziu para igrejas e clientes particulares as iniciais de seu nome: JOC. Esse foi um dos detalhes que ajudaram a Polícia Judiciária de Lisboa a localizar, meses atrás, quatro tocheiros monumentais e uma cruz de prata furtados há décadas do altar-mor da Igreja Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, no centro do Rio. Na seara da arte sacra, esses são alguns dos muitos itens surrupiados de templos religiosos em território fluminense.
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Patrimônio. A Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores (à esquerda) recupera obras em prata (as duas à esquerda, acima) que enfeitavam o templo no passado
Reprodução
Segundo dados do Banco de Bens Culturais Procurados do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o Brasil tem 1.749 bens perdidos — peças sacras são a maior parte deles. O Rio de Janeiro é o estado do país que ocupa o segundo lugar da lista, com 537 itens. Entre as peças listadas que desapareceram das igrejas estão esculturas de anjos e crucifixos de madeira envernizada, ambos do século XIX, arandelas do século XVIII, castiçais dourados e tocheiros.
Fundada em 1755 e fechada há sete anos, a Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo marca presença com pelo menos 35 objetos sacros na lista de bens procurados. Provedor da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores — também na região do Rio Antigo, sagrada em 1750 —, Claudio André de Castro hoje comemora a recuperação de parte do acervo da igreja encontrada em Portugal.
A cruz de prata (ao centro) é uma das peças recuperadas em Portugal
Divulgação
— São peças majestosas, de inestimável valor artístico e histórico. É a primeira vez que aparecem obras que pertenciam à igreja no exterior. Ainda temos dezenas de peças desaparecidas — conta Castro.
A pista de que as obras estariam em Portugal partiu de uma denúncia anônima feita ao Fala.BR, órgão da Controladoria-Geral da União (CGU). A partir daí, a Polícia Federal (PF) informou a Interpol sobre a suspeita, que comunicou às autoridades portuguesas.
— As peças se encontravam em uma loja que era um misto de antiquário e casa de leilões da capital portuguesa. A Polícia Judiciária de Lisboa apreendeu-as e concluiu que não havia dolo do vendedor, pois ele desconhecia a origem delas — explica o delegado Marcos Nizio, da Superintendência da PF de Brasília.
O provedor Claudio Castro disse não ser possível precisar quando as peças foram furtadas do altar, mas calcula que isso tenha ocorrido entre 1947 e meados dos anos 1980. Ele aponta certo descuido, no passado, com a guarda das peças, que não podem ser comercializadas porque integram o patrimônio da Igreja Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, uma instituição tombada desde 1938.
— A partir de meados dos anos 1980, o Iphan passou a fiscalizar de forma mais rigorosa os acervos tombados e a fazer inventários anuais em patrimônios históricos, incluindo nossa igreja. Além disso, por segurança, atualmente as peças mais valiosas ficam guardadas na Casa Forte (espécie de cofre) e são retiradas apenas para as cerimônias litúrgicas — afirma Castro.
Quadrilhas especializadas
Thiago Gomide, historiador e colunista do GLOBO, observa que furtos em igrejas não costumam acontecer por acaso.
— É importante lembrar que as igrejas, infelizmente e historicamente, não eram lugares seguros. Portanto, ficavam mais frágeis diante da atuação de bandidos, de ladrões especializados. Há compradores que estão de olho, e esses ladrões trabalham para essa turma, que costuma ser extremamente poderosa — explica ele. — O Rio de Janeiro foi capital por séculos: da colônia, do Império, da República. Grandes ordens religiosas, franciscana, carmelita, jesuíta, beneditina, tinham as suas casas aqui, e as irmandades eram poderosíssimas. Aí, é claro, essas obras acabavam ficando concentradas na capital. E, é importante lembrar, isso em um país que tinha uma religião oficial, a católica.
Para Marcus Monteiro, historiador, ex-presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) e atual secretário de Cultura de Nova Iguaçu, por muitos anos a falta de um inventário de bens facilitou o sumiço de peças de arte sacra. Ele conta que atualmente existem mais de dois mil itens inventariados. Esse processo de contabilização começou a ser feito em 2004 e ajuda a evitar desvios.
A fachada da igrela Lapa dos Mercadores
Marina Calderon
— Estão acontecendo menos roubos, principalmente menos furtos e menos vendas ilegais. O Iphan, na década passada, em uma parceria com a Fundação Vitae, desenvolveu o inventário de bens móveis, especialmente de arte sacra. Inventariou muita coisa. No período em que presidi o Inepac, durante dez anos, nós fizemos um inventário bastante completo do interior, do centro da cidade do Rio, de Irajá e Inhaúma, da Região dos Lagos inteira, da Região Sul Fluminense e da Baixada Fluminense. Quando você publica essas peças no livro, dizendo as instituições às quais elas pertencem, é a melhor maneira de proteger o acervo. Você não preserva aquilo que não conhece — diz Monteiro.
O Iphan diz que os dados disponibilizados no Banco de Bens Culturais Procurados são atualizados por pesquisas em inventários do instituto e pelo cruzamento de informações, devendo os números ser entendidos como parciais. Sobre a Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, o instituto explica que o imóvel possui diversos bens arrolados que foram furtados, em contexto relacionado a obras realizadas na década de 1990.

Mais de 500 peças sacras de igrejas do Rio estão desaparecidas, segundo Iphan 

Autor

BRCOM