Cedida em comodato em 1993 ao Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, que ainda tentava recuperar-se do incêndio de 1978 e de crises financeiras nos anos 1980, a Coleção Gilberto Chateaubriand ofereceu à instituição carioca não só a possibilidade de exibir obras de nomes icônicos do modernismo brasileiro, como Tarsila do Amaral, Vicente do Rego Monteiro, Djanira, Anita Malfatti, Pancetti e Portinari, quanto de acompanhar outros importantes movimentos do século XX, a exemplo de parte da produção neoconcreta e da Nova Figuração.
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A partir do olhar afetivo de um dos maiores colecionadores brasileiros — morto em 2022, aos 97 anos — e a pretexto de seu centenário, completado em 24 de maio deste ano, a exposição “Gilberto Chateaubriand: uma coleção sensorial”, inaugurada no sábado (9), reúne 350 obras das cerca de 6,4 mil que integram o acervo do MAM-Rio (junto a outros dois conjuntos, o da própria instituição e o de Joaquim Paiva, voltado à fotografia). A seleção, feita pelo diretor artístico Pablo Lafuente e a curadora-chefe Raquel Barreto, traz um recorte do que de mais importante surgiu na arte brasileira no século XX e início do XXI, com nomes como Lygia Clark, Cildo Meireles, Maria Martins, Carlos Vergara, Anna Bella Geiger, Adriana Varejão, Glauco Rodrigues, Luiz Zerbini e Beatriz Milhazes, além dos modernistas já citados.
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A seleção foi dividida em cinco núcleos temáticos, como a seção “Retratos”, uma das representações que Chateaubriand mais gostava, e “Fronteiras”, destacando seu interesse pela produção fora do eixo Rio-São Paulo, e aquisições feitas em viagens pelo Brasil. Em dezembro, uma segunda parte da coleção será mostrada, e as duas coletivas ficaram em cartaz simultaneamente até janeiro.
— É um acervo que sempre entra nas exposições do museu, mas dessa vez dentro de uma proposta de mapear e fazer uma genealogia dessa coleção, que possibilita contar uma história da arte brasileira a partir de um olhar individual — aponta Raquel Barreto. — Trazemos muitas das apostas dele que hoje são nomes consolidados, artistas que ele conhecia nas suas viagens. São várias obras adquiridas no Centro-Oeste, por exemplo, num momento em que quase ninguém olhava para a produção de lá. Também temos a chance de destacar obras pouco mostradas ou mesmo nunca vistas pelo público.
A relação do colecionador, filho de Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados e fundador do Museu de Arte de São Paulo (Masp), com o MAM do Rio se deu antes mesmo de parte de seu acervo (que hoje chega a 8,3 mil obras, no total) seguir para a instituição. Em 1981, 411 obras do conjunto, que então totalizava aproximadamente 2 mil itens, foi apresentado pela primeira vez no museu, na exposição “Do moderno ao contemporâneo”, com curadoria de Fernando Cocchiarale e Wilson Coutinho. Após o comodato, em 2008, alguns dos trabalhos foram organizados na lateral do Salão Monumental do museu para um retrato feito pelo fotógrafo Vicente de Mello para a revista da Fundação Cartier, disposição reproduzida pelos curadores no mesmo local, cobrindo quase todo o comprimento da parede.
— A parede é o que o público vê logo que chega à mostra, e dá uma sensação imediata do volume e da diversidade das coleção. São artistas, períodos e linguagens diferentes, que dialogam entre si — explica Lafuente. — O Gilberto tinha um gosto muito eclético, uma curiosidade gigante, e era muito próximo dos artistas. É uma lógica diferente de como se pensa uma coleção hoje, muitas vezes mediada por questões de mercado. Essas mais de 40 obras do paredão são apenas um fragmento do acervo, mas permite ter uma impressão geral do conjunto, e da visão dele em relação à arte.
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Neta do colecionador e diretora executiva do Instituto Cultural Gilberto Chateaubriand, inaugurado em Porto Ferreira (SP) após sua morte, Flávia Chateaubriand acompanhava emocionada a montagem, lembrando de momentos como Glauco Rodrigues pintando um de seus retratos mais conhecidos, de 1984, que também estará na coletiva.
— Não era exagero quando meu avô dizia que o museu era a sua segunda casa, me lembro de passar muito tempo aqui, quando criança. Também acompanhei a foto do Vicente de Mello, e ver a mesma parede montada aqui hoje chega a arrepiar — comenta Flávia, que também integra o Conselho do MAM. — A exposição é mais um passo no diálogo entre o MAM e o Instituto. O intuito do meu avô sempre foi que essas obras circulassem, por isso fazia questão de emprestar para exposições sempre que possível. Nunca foi seu pensamento ter uma coleção para ser vista só por ele e pela família. Poder fazer um trabalho educativo também em Porto Ferreira, onde o acesso à arte é menor, é parte desta proposta.
Após a coleção passar ao museu, em 1993, as exposições “Novas aquisições”, na qual Chateaubriand apresentava o que havia incorporado recentemente, tornaram-se um importante meio de apresentação de novos artistas, traçando um panorama do circuito, nos anos 1990 e 2000.
— Uma das maiores características do Gilberto como colecionador foi olhar para os artistas. Ele começou com os modernos, mas nunca deixou de olhar para o contemporâneo, para os nomes que estavam despontando. Ele via esse potencial de crescimento, e cumpria esse outro papel importante de um colecionador, o de fomentar, de incentivar a produção — ressalta Yole Mendonça, diretora executiva do MAM. — É algo que o museu, que guarda parte de seu acervo, também quer apostar para o futuro, na formação de artistas e do público, no desenvolvimento de novas formas de expressão.