“Obrigado, presidente Donald J. Trump”. Foi assim que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) reagiu, no mês passado, à tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. O posicionamento do parlamentar continua pautando os bolsonaristas, que culpam o presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Apesar do componente político ser particular às sanções determinadas ao Brasil, a reação de expoentes da direita mundial ao tarifaço foi diferente, sendo capaz de unir nomes como o presidente da França, Emmanuel Macron, e sua principal rival, Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa, na defesa dos interesses nacionais.
Ao redor do mundo, países governados por aliados de Trump — e, mesmo assim, alvo de tarifas — reagiram de forma crítica e pragmática em busca de defender seus respectivos interesses. Dos moderados aos mais radicais, a direita empreendeu discursos nacionalistas, focados na tentativa de buscar negociações justas.
Na semana passada, o presidente americano anunciou a elevação das tarifas também para 50% aos produtos da Índia. Mesmo alinhado ideologicamente com Trump, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, afirmou que seu país “jamais abrirá mão do bem-estar de seus agricultores, do setor de laticínios e dos pescadores”.
O premiê também disse estar ciente de que pagará “um preço alto” pela postura combativa. Ele foi acusado por Trump de se recusar a facilitar o acesso a produtos americanos. Na quinta-feira, Modi afirmou ter conversado por telefone com Lula, e ambos estão “comprometidos em aprofundar” uma “parceria forte e centrada nas pessoas entre as nações do Sul Global”.
No final de julho, a União Europeia e os Estados Unidos chegaram a um acordo comercial após meses de negociações. A tratativa fixou uma tarifa de 15% sobre a maioria das importações europeias, incluindo automóveis. Segundo Le Pen, o acordo concluído por Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, é “um fiasco político, econômico e moral”. Antes, ela defendeu o protecionismo francês nas negociações e chegou a definir as tarifas como “uma abordagem brutal” por parte de Trump.
Ainda em abril, quando os EUA anunciaram a ação contra o bloco, a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, classificou as tarifas como “uma escolha equivocada”. Líder de um governo de coalizão, a premiê chamou Trump de “corajoso, franco e determinado”, mas afirmou que ambos defendem seus lados: “eu disse a ele, como a qualquer outro parceiro, que a Itália sempre busca os interesses comuns, mas que deixa claro que a prioridade é o interesse nacional”, disse Meloni.
Alice Weidel, líder do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD), definiu a medida americana como “um veneno para o livre comércio”. Próxima de Trump, no entanto, a legenda adotou um tom mais cauteloso: por um lado, houve discursos compreensíveis com as “negociações forçadas”; por outro, houve preocupação com os impactos econômicos na indústria.
O chanceler Friedrich Merz, líder da União Democrata Cristã, definiu as tarifas como uma “ameaça direta à economia exportadora alemã” e chegou a buscar reuniões comerciais diretas com os Estados Unidos, principal parceiro comercial do país. Do mesmo partido de Ursula von der Leyen, Merz declarou “não estar satisfeito” com os resultados do acordo europeu, mas afirmou ser “impossível conseguir mais”.
Na esteira da AfD, o partido de extrema-direita Vox, da Espanha, instruiu que seus membros não criticassem Trump, embora o presidente da legenda, Santiago Abascal, tenha sido contra as tarifas, conforme o jornal “El País”. Ainda em abril, o secretário-geral do grupo no Congresso classificou as taxas como “uma péssima notícia”. “Qualquer medida, nacional ou internacional, que prejudique a indústria e os trabalhadores espanhóis será contestada pelo Vox”, disse José María Figaredo.
Abascal, que compareceu à posse de Trump, conta com forte apoio entre os agricultores, um dos segmentos mais atingidos pelas tarifas. Seguindo a tendência pragmática, ele culpou o presidente de esquerda Pedro Sánchez pelas tratativas econômicas, e poupou o presidente americano de críticas públicas.
Um dos principais apoiadores de Trump e expoente da extrema-direita mundial, o presidente da Hungria, Viktor Orbán, foi o único a elogiar a “habilidade de negociação do presidente americano”. Apesar disso, não poupou críticas pelo desequilíbrio no tratado com os EUA, e afirmou que o atual arranjo “não é um acordo”. Orbán também disse que as tarifas do bloco são “piores que as do Reino Unido”, e chamou a presidente da Comissão Europeia de “peso-pena”, enquanto Trump é “peso-pesado”.
Mesmo a Argentina, governada por Javier Milei, aliado incondicional de Trump, precisou negociar por meses as suas tarifas — e conseguiu ficar com as menores taxas, de 10%. Apesar dos elogios recíprocos, a abordagem durante as rodadas de negociações também foi pragmática, e Milei ainda busca tratados mais vantajosos, como um acordo de livre comércio.
Para Daniela Costanzo, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), mesmo líderes como Orbán e Meloni, apesar da cautela, defenderam seu bloco contra as tarifas. A especialista acredita que a postura pode fazer com esses mandatários passem por esse período sem grandes fissuras, diferente do Brasil.
— Esses líderes foram nacionalistas nessa questão. Nós (brasileiros) só vimos posições entreguistas aqui por enquanto — critica.
Para Vinicius Rodrigues Vieira, professor de Relações Internacionais na FGV e Faap, o Brasil “vive uma situação única no mundo”, uma vez que a postura dos políticos brasileiros não condiz com o comportamento da direita internacional em questões culturais e ideológicas.
— A direita brasileira cai numa contradição. Ao mesmo tempo em que no aspecto cultural é nacionalista, ela contesta o que é a noção dominante de nacionalidade — destaca o professor, em alusão aos agradecimentos aos EUA. — Esse nacionalismo bolsonarista, como a gente está vendo agora, quer se abrir a outra nação, vista como uma “nação-mãe”.
Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Luiz Felipe Osório concorda com as posturas pragmáticas, que tentam “captar quais podem ser as vantagens e desvantagens do tarifaço”. Ele também defende que o episódio “expõe a fratura dentro da direita brasileira”, dividida entre os que apoiam o tarifaço e a candidatura de Bolsonaro para 2026 e os que buscam discursos mais moderados para compor uma eventual terceira via.
Osório, contudo, ressalta que a postura dos principais expoentes da direita mundial também se deve ao fato de serem menos dependentes economicamente.
— A diferença entre países centrais, como França e Alemanha, e países periféricos, como o Brasil, está na margem de manobra que os governos têm no plano internacional, o que alterna os graus de soberania ou autonomia — pondera. — Cabe ao Brasil prezar pelos seus setores competitivos e buscar alternativas e formas de barganha.