No dia seguinte ao do assassinato de Marielle Franco, ocorrido em 14 de março de 2018, Matheus Macena foi para as ruas, como tantas pessoas, manifestar sua revolta e pedir justiça. Identificou o que chama de “espelho imediato” entre a morte da vereadora e a de Edson Luís de Lima Souto. O estudante tomou um tiro de um policial militar, no Centro do Rio, em 28 de março de 1968. O fato inflamou os protestos contra a ditadura militar.
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— Os assassinatos aconteceram em março, com 50 anos de diferença, as duas figuras políticas se tornaram mártires, e esse espelho evidente fundamentou a necessidade de contar a história do Edson, como se daqui a 50 anos ninguém lembrasse quem foi Marielle Franco. Essa imaginação é assustadora para mim — diz Matheus, acreditando que a figura de Marielle não se apagará por vivermos na “era da imagem, da digitalização”.
Matheus é o autor, ator e diretor de “Edson”, espetáculo solo que reestreou ontem no Rio, no Teatro Ipanema Rubens Corrêa, onde fica até 1º de novembro. A peça esteve em abril no Espaço Cultural Sérgio Porto e em maio em São Paulo. As temporadas foram curtas, mas suficientes para que ele recebesse duas indicações ao Prêmio Shell de melhor ator (RJ e SP) e uma para melhor dramaturgia (RJ). No Rio, ainda há indicações a melhor música (Pedro Nego) e melhor cenário (Bidi Bujnowski).
O artista, de 32 anos, já ganhou um Shell em 2024 por sua atuação em “Musical pré-fabricado”, de Michel Melamed. E “Caranguejo overdrive”, estreado em 2015, lhe valeu indicações ao Shell, ao APTR e ao Cesgranrio.
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Sua busca pela história de Edson começou na Biblioteca Nacional, pesquisando em jornais. Ele ainda localizou pessoas que comiam no restaurante popular Calabouço, onde o estudante foi morto.
— A perspectiva do Edson foi fragmentada, porque a máquina midiática da ditadura fazia desaparecer com histórias tão inspiradoras — diz. — Em determinado momento, precisei preencher lacunas, reconstruir essa história, que é factual, mas também fantasiosa. Na fantasia e no fato existe essa reconstrução de dignidade. Esse é o meu desejo: dignificar a história desse herói brasileiro.
Edson nasceu em Belém, em 1950, e chegara ao Rio meses antes de morrer. Cursava o que é hoje o ensino médio no Instituto Cooperativa de Ensino, ao lado do Calabouço (o nome oficial era Restaurante Central dos Estudantes), que ficava na esquina de Avenida General Justo com Rua Santa Luzia. Fazia bicos de faxina e dormia no restaurante, pois não tinha como pagar uma moradia.
Um protesto pela melhoria das condições do Calabouço foi interrompido pela Polícia Militar, e Edson levou um tiro no peito à queima-roupa. Outros estudantes ficaram feridos, entre eles Benedito Frazão, que morreu no dia seguinte. Edson se tornou um símbolo da luta estudantil e inspirou outros atos contra a ditadura.
questão de identidade
No espetáculo, Matheus se divide entre cinco personagens: Edson, o pai dele, a mãe, a irmã e Benedito Frazão. O ator não localizou parentes de Edson.
— As lacunas foram um empecilho, inicialmente, mas eu estava doido para falar do Brasil atual — ressalta ele. — A necessidade de falar de um estudante que morreu assassinado por um regime totalitário se faz por conta da retomada de pensamentos de extrema direita, com esses pedidos de volta da ditadura militar. É uma insanidade tão grande que contar a história desse jovem é o mínimo, é fundamental.
Realizar uma nova temporada neste período de eleições foi proposital.
— Acredito que, como artista, eu carregue uma responsabilidade. Como esse espetáculo é sobre a reconstrução de uma identidade, é no teatro que eu desejo estar, encontrar com o cidadão carioca, poder tocar o coração das pessoas. Nós (ele e a equipe) queremos estar na roda, porque tenho o que dizer, o Edson tem o que dizer — afirma.
Em 2019, Matheus atuava com Aquela Cia. de Teatro em “Caranguejo overdrive”, quando a temporada no Centro Cultural Banco do Brasil foi cancelada. O CCBB atendeu a uma determinação da Secretaria Especial de Comunicação do governo Jair Bolsonaro e alegou que o espetáculo tinha “posicionamentos político-partidários”.
— De certa forma, “Edson” é fruto dessa censura — pontua. — Fui levado a me tornar o artista politicamente engajado que eu sou. Se não tivesse acontecido, talvez minhas produções seguintes fossem decorativas, e esse não é o meu desejo. Meu desejo é falar sobre o âmago da população brasileira.
Matheus começou na dança e no teatro no fim da infância. Sempre manteve essas artes próximas. Em 2021, estreou “Encantado” como integrante da companhia de dança de Lia Rodrigues. Dois anos antes, participara, em Nova York, de uma performance dirigida pelo consagrado encenador Bob Wilson.
Nunca se desligou da Aquela Cia., onde está há 12 anos. Do grupo fazem parte Pedro Kosovski, Marco André Nunes e Carolina Virgüez.
— São as pessoas que me ensinaram tudo sobre a profissão. A Carol é a atriz que eu levo como modelo icônico, onde eu me espelho — exalta ele, formado em teatro pela Uni-Rio.
Tendo enveredado pela “tragédia brasileira”, como classifica, Matheus diz desejar muito fazer uma comédia. Mesmo em “Edson”, há dois momentos cômicos. E há números musicais, com “Explode coração” (Gonzaguinha), “Mora na filosofia” (Monsueto), “Modinha” (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e “Nobreza” (Djavan). Porém, só conseguiu encaixar segundos de “Menino”, canção sobre Edson composta por Milton Nascimento e Ronaldo Bastos.
Ele diz amar “Ainda estou aqui” e “O agente secreto”, filmes que recordam a violência da ditadura militar, mas destaca que o seu espetáculo tem outra proposta:
— Há heróis que são de famílias abastadas, que tiveram oportunidades na vida, ensino médio completo. A perspectiva do Edson é a de um menino pobre, migrante, vindo de uma família analfabeta. Quero abranger um leque maior de heróis brasileiros.
Matheus Macena reestreia peça sobre o estudante Edson Luís de Lima Souto, morto em 1968, que lhe valeu três indicações ao Prêmio Shell
