Organizações humanitárias e agências internacionais voltaram a alertar para o agravamento da crise humanitária na Faixa de Gaza, onde episódios de violência em centros de distribuição de alimentos, novas restrições impostas por Israel a organizações não governamentais (ONGs) e obstáculos à entrega de ajuda têm comprometido o atendimento às necessidades básicas da população civil, que enfrenta um cenário de fome generalizada após quase dois anos de guerra.
- ‘Ocupação total’ de Gaza: Em meio a divergências internas, Israel diz que Exército terá de cumprir ordens sobre a guerra
- Crise interna: Israel vê disparada nos suicídios de soldados, com ao menos 47 casos desde o início do conflito
Em relatório divulgado nesta quinta-feira, a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) pediu o fechamento imediato da Fundação Humanitária de Gaza (GHF, na sigla original), uma controversa entidade apoiada pelos Estados Unidos e por Israel. Segundo a ONG, os centros de distribuição operados pela fundação se transformaram em locais de “extermínio orquestrado e desumanização”.
A partir de dados coletados entre 7 de junho e 24 de julho em duas clínicas mantidas pela MSF no sul da Faixa de Gaza, próximas a centros da GHF, a entidade relatou o atendimento de 1.380 pessoas vítimas, incluindo 28 mortos, durante as distribuições. Ao menos 71 menores foram tratados por ferimentos causados por armas de fogo, incluindo um menino de 12 anos baleado no abdômen e uma menina de 8 anos atingida no peito.
“Crianças baleadas no peito enquanto tentavam pegar comida. Pessoas esmagadas ou sufocadas em meio a tumultos. Multidões inteiras atacadas a tiros nos pontos de distribuição”, relatou a diretora-geral da MSF, Raquel Ayora. “Em quase 54 anos de atuação, raramente vimos níveis tão altos de violência sistemática contra civis desarmados.”
- Relatório: Mais de 80% dos feridos em Gaza foram atingidos por armas explosivas, diz Médicos Sem Fronteiras
A MSF defende o desmonte imediato do esquema de distribuição da GHF, a retomada da coordenação da ajuda por parte das Nações Unidas e o fim do apoio financeiro e político à fundação por governos e doadores privados.
Ao mesmo tempo, agências da ONU e ONGs internacionais alertam para o risco de descredenciamento em massa de entidades humanitárias que atuam nos territórios palestinos. Em comunicado publicado nesta quinta-feira, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha) afirma que a exigência, feita por Israel desde março, de que ONGs compartilhem dados pessoais sensíveis de seus funcionários palestinos pode levar à retirada de pessoal internacional e à suspensão de operações.
- Entrevista: ‘Em Gaza, acontece um dos processos de desumanização mais rápidos da História’, dizem pesquisadores israelenses
Organizações que ainda não se adequaram ao novo sistema já estão impedidas de enviar medicamentos, alimentos e itens de higiene para Gaza, mesmo diante de relatos diários de mortes por inanição e da iminência de uma situação de fome generalizada.
“Essa política afeta principalmente mulheres, crianças, idosos e pessoas com deficiência, ampliando o risco de abuso e exploração”, afirma o comunicado. “Impedir a participação das ONGs na resposta humanitária viola as obrigações de Israel perante o Direito Internacional Humanitário.”
Embora a União Europeia tenha reconhecido avanços pontuais — como o aumento no número de caminhões autorizados a entrar no território, a reabertura de rotas e a entrega de combustível —, uma avaliação recente da diplomacia europeia aponta que ainda há entraves graves à operação das agências humanitárias.
“Fatores obstrutivos significativos continuam a minar as operações de ajuda em Gaza, especialmente a falta de um ambiente seguro para que a distribuição ocorra em larga escala”, afirmou um representante do bloco à agência Reuters, também nesta quinta-feira.