O modo como a economia brasileira financia os seus negócios passa por uma transformação. Historicamente dependente dos empréstimos bancários tradicionais para girar a roda dos negócios, o setor produtivo nacional encontrou no mercado de capitais uma fonte importante de recursos para financiar projetos de longo prazo. Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) revelam a dimensão desse avanço: em agosto de 2026, o estoque de recursos captados por essa via alcançou R$ 8,9 trilhões, cifra que equivale a aproximadamente 67,1% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) estimado para o ano.
A mudança fica evidente na forma como as companhias montam o seu caixa. Em dezembro de 2025, 33,6% do dinheiro captado por empresas não financeiras vinha diretamente de emissões no mercado de capitais. Esse volume se equipara ao dos financiamentos bancários tradicionais, responsáveis por 33,3% do total no mesmo período. A paridade entre as duas modalidades mostra que a captação por títulos imobiliários, agrícolas e de dívida deixou de ser uma alternativa exclusiva para gigantes corporativas e passou a fazer parte do dia a dia de empresas de diversos portes.
A expansão desse ecossistema apoia-se em uma variedade de instrumentos desenhados para conectar diferentes perfis de investidores a prazos e necessidades reais de projetos. Um dos principais motores desse movimento são as debêntures incentivadas, criadas para canalizar recursos para obras de infraestrutura ao oferecer isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas. Entre 2018 e 2025, esses papéis levantaram R$ 497,1 bilhões, segundo o estudo “Agenda para o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro”, da Anbima. Desse total acumulado, 86% foi aplicado diretamente no financiamento de obras essenciais de transporte, logística e energia.
Diversificação e alcance no setor produtivo
A pulverização das emissões também se reflete na quantidade de negócios beneficiados em todo o país. Somente em 2025, mais de 3,5 mil empresas conseguiram captar recursos por meio de instrumentos do mercado de capitais. O modelo contempla desde grandes grupos empresariais até pequenas e médias companhias, além de iniciativas voltadas para inovação e tecnologia, que encontram no crédito privado estruturas sob medida para a sua realidade operacional.
Segundo Zeca Doherty, CEO da Anbima, mais do que ampliar as alternativas de financiamento, o mercado de capitais contribui para conectar investidores às necessidades de empresas e projetos, criando novas possibilidades para sustentar o crescimento da economia.
— Para dar continuidade a esse movimento é fundamental que se crie um ambiente de negócios compatível com os desafios atuais e futuros — afirma o executivo.
A trajetória recente confirma o amadurecimento acelerado do setor. O estoque total do mercado de capitais deu um salto de R$ 3,8 trilhões em 2018 (quando equivalia a 54% do PIB daquele ano) para R$ 8,7 trilhões em dezembro de 2025, alcançando o patamar de R$ 8,9 trilhões em agosto de 2026. Quando se considera o levantamento ampliado do setor, que abrange um conjunto mais extenso de carteiras e instrumentos, o volume total financiado atinge a marca expressiva de R$ 12,8 trilhões no mesmo mês.
O forte ritmo de crescimento foi impulsionado pelo apetite por títulos de dívida corporativa e fundos estruturados. As debêntures, por exemplo, viraram o principal meio de captação privada de longo prazo no país: o estoque passou de R$ 346 bilhões em 2018 para R$ 1,5 trilhão em agosto de 2026 — um salto de mais de quatro vezes em relação ao início do período. No mesmo caminho, os instrumentos de securitização, como os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CR As) e os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), ganharam tração ao transformar parcelas e boletos em ativos negociáveis no mercado, injetando recursos diretamente na produção rural, na construção civil e na expansão das empresas.
Impacto no agronegócio e ambiente institucional
No agronegócio, um dos motores da economia nacional que exige recursos vultosos e contínuos para custear a safra e renovar maquinários, o papel do mercado de capitais tornou-se vital. O estoque total de títulos ligados ao setor agropecuário atingiu R$ 1,37 trilhão em dezembro de 2025.
Embora o crédito concedido pelos bancos tradicionais ainda responda por parte significativa dos recursos no campo, o mercado de capitais vem conquistando um território importante. O estoque combinado de CRAs e de Fundos de Investimento em Cadeias Agroindustriais (Fiagros) passou a representar 33% de todo o crédito rural recente, ante os 19% registrados anteriormente. Essa diversificação traz oxigênio para o produtor rural ao reduzir a dependência exclusiva de financiamentos oficiais e subvenções governamentais, como o Plano Safra.
Para a Anbima, a capacidade de manter esse ritmo de crescimento e atrair mais investimentos de longo prazo depende diretamente de um ambiente de negócios estável e previsível. A entidade defende o fortalecimento da segurança jurídica, a estabilidade das regras do jogo e o equilíbrio da economia como premissas indispensáveis para garantir a confiança de investidores individuais e institucionais.
Essas diretrizes também fazem parte da “Agenda para o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro”, documento elaborado pela Anbima que reúne posicionamentos institucionais sobre o setor. O estudo traz análises do ambiente econômico para apoiar soluções que facilitem o financiamento da produção nacional, destacando a relevância de preservar a estabilidade, reduzir riscos regulatórios, desburocratizar processos e combater os entraves do Custo Brasil.
Mercado de capitais avança como motor do crescimento econômico
