A Polícia Federal (PF) investiga a compra de um imóvel de R$ 3,28 milhões pelo ex-secretário estadual de Polícia Civil Marcus Amim, preso nesta quinta-feira durante a oitava fase da Operação Unha e Carne. Segundo os investigadores, quase metade do valor da propriedade, localizada em Camboinhas, bairro da Região Oceânica de Niterói, foi paga por uma empresa do setor de combustíveis ligada à organização criminosa investigada. A operação financeira também envolveu pagamento em dinheiro vivo e transferências bancárias realizadas por terceiros, que levantaram suspeitas de lavagem de dinheiro.
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Os detalhes constam da representação encaminhada pela PF ao Supremo Tribunal Federal (STF), que embasou a decisão do ministro Alexandre de Moraes de decretar a prisão preventiva de Amim, do ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella e de outros quatro policiais civis. A investigação apura a existência de uma estrutura empresarial e política que teria sido utilizada para movimentar recursos de origem ilícita e garantir proteção a uma rede de postos de combustíveis.
De acordo com o documento, o imóvel, situado na Rua Doutor Damasceno Ferreira, foi colocado à venda em dezembro de 2023. A negociação, intermediada por corretores e por Raphael Matos Bergara, resultou na assinatura de um contrato em 24 de dezembro de 2024, pelo valor de R$ 3.280.000. A transação foi efetivada em 4 de abril de 2025.
A PF passou a examinar a compra após colher o depoimento de Ana Paula Figueredo, cuja família era proprietária do imóvel. Ela descreveu uma sequência de pagamentos que, na avaliação dos investigadores, apresenta indícios de ocultação da origem dos recursos e da identidade de seus verdadeiros responsáveis.
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O primeiro pagamento mencionado ocorreu em 24 de dezembro de 2024, quando foram entregues R$ 160 mil em espécie por Raphael Matos Bergara, que havia participado da negociação.
Em 8 de abril de 2025, quatro dias após a efetivação da venda, a conta de Aledi Figueredo e Figueredo recebeu uma transferência de R$ 1,62 milhão. O valor, porém, não foi enviado por Marcus Amim, comprador do imóvel, mas pelo Posto Pendotiba, empresa registrada em nome de Luisi Correa Pinho e Luana Oliveira.
As duas são mulheres dos policiais civis José Carlos Alves de Souza Júnior e Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo, apontados pela PF como integrantes do núcleo econômico da organização criminosa. Segundo a investigação, os policiais exerceriam o controle efetivo de parte da rede de postos de combustíveis formalmente registrada em nome de terceiros.
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Para a PF, o fato de uma empresa vinculada a esse grupo ter arcado com quase metade do preço de um imóvel particular adquirido por Amim constitui indício de possível dissimulação da origem do dinheiro e da identidade de quem efetivamente realizou o pagamento.
Transferência de R$ 1,5 milhão e devolução de valores
A investigação identificou outras movimentações relacionadas à compra. Em 7 de maio de 2025, o Posto Pendotiba realizou uma nova transferência de R$ 1,5 milhão à conta de Aledi Figueredo e Figueredo, apresentada como pagamento “a título de garantia”.
Segundo a representação, o depoimento não esclareceu a contrapartida ou a finalidade negocial dessa movimentação.
Pouco mais de duas semanas depois, em 23 de maio, houve outra operação: uma transferência bancária de R$ 1.511.654,98, pelo Banco Itaú, à mesma conta. O valor foi integralmente devolvido naquele dia ao Posto Pendotiba, por orientação do próprio Marcus Amim, conforme descrito pela PF.
Os investigadores consideram a sequência suspeita pela participação de terceiros e pela circulação de quantias elevadas entre contas bancárias vinculadas à negociação. As operações não devem, contudo, ser somadas como pagamentos definitivos pelo imóvel, já que a própria representação registra a devolução de parte dos recursos.
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Ao analisar o conjunto das transações, a Polícia Federal concluiu que R$ 1,62 milhão do preço do imóvel, o equivalente a quase metade do valor total da compra, foi efetivamente adiantado pelo Posto Pendotiba, e não diretamente por Amim.
Outro elemento citado na representação são mensagens extraídas de aparelhos eletrônicos que indicam que o ex-secretário encaminhou a Pablo Russo documentos relacionados a obras realizadas no imóvel. Para os investigadores, a troca de informações constitui indício de que o policial também poderia ter participado do pagamento dos serviços.
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A compra da propriedade é uma das movimentações financeiras examinadas pela PF para apurar a relação entre Amim e os operadores da rede de combustíveis. Outra frente envolve a Mamim Consultoria, empresa da qual o ex-secretário e sua mulher são sócios.
De acordo com a investigação, a Mamim recebeu R$ 1.821.000 da Adm Oil Prestadora de Serviços para Postos de Gasolina entre abril de 2024 e maio de 2026, por meio de repasses mensais de aproximadamente R$ 70 mil.
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A Polícia Federal suspeita que contratos de aluguel ou consultoria possam ter sido utilizados para disfarçar pagamentos por proteção e influência institucional. A investigação também aponta Amim como sócio oculto da Gasmix Alcântara Posto de Gasolina, ao lado dos policiais civis Christiano e Giovanni Gaspar Fernandes, sem que a participação estivesse formalmente registrada.
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Ex-presidente do Detran-RJ, Amim comandou a Secretaria estadual de Polícia Civil entre 2023 e setembro de 2024. Segundo os investigadores, o delegado teria atuado como operador institucional da organização criminosa, utilizando a influência decorrente dos cargos públicos que ocupou para favorecer interesses do grupo.
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As suspeitas ganharam força após a análise de documentos, registros bancários e aparelhos eletrônicos apreendidos durante a sexta fase da Operação Unha e Carne, deflagrada em julho. Em setembro, a PF encaminhou ao STF uma representação pedindo a prisão preventiva dos investigados. A Procuradoria-Geral da República (PGR) manifestou-se favoravelmente às medidas, posteriormente acolhidas em parte por Alexandre de Moraes.
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O advogado Thiago Minagé, que representa Marcus Amim, afirmou que aguarda acesso à decisão para prestar os devidos esclarecimentos.
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PF investiga compra de imóvel de R$ 3,28 milhões por Marcus Amim; posto de gasolina pagou quase metade
