
A prefeitura promete renovação da frota de ônibus, maior integração com o BRT e grandes obras para facilitar a circulação. O governo do estado diz que o metrô vai chegar, mas em data longínqua. Enquanto isso, os moradores de Jacarepaguá se arranjam como podem para reduzir o tempo de viagem e as dificuldades de transitar entre suas residências e seus compromissos. Não por acaso, a mobilidade foi apontada por 73,15% dos participantes como o principal problema da região em enquete com nove alternativas realizada pelo GLOBO, seguida de confrontos entre facções criminosas, que ficou com 8% das preferências; e construções irregulares, com 6,86%.
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As queixas aparecem em diferentes pontos da Grande Jacarepaguá. Em uma região formada por dez bairros (Taquara, Tanque, Freguesia, Curicica, Anil, Gardênia Azul, Praça Seca, Pechincha, Cidade de Deus e Jacarepaguá), os problemas mudam de acordo com o caminho percorrido, mas congestionamentos, poucos corredores de ligação e dificuldades para acessar diferentes meios de transporte público aparecem com frequência nos relatos.
Moradora da Freguesia, a fotógrafa Catarina Gonçalves faz boa parte das atividades do dia a dia a pé. Quando precisa percorrer distâncias maiores, costuma usar motos por aplicativo e, em alguns casos, combina-as com o metrô, principalmente pela rapidez no deslocamento. O problema, para ela, é que a estratégia é ineficaz nos horários de pico no trânsito.
— Na hora do rush, o bairro praticamente para — reclama Catarina.
Ela cita congestionamentos frequentes nas estrada de Jacarepaguá e dos Três Rios e na Rua Araguaia. Para a moradora, a existência de uma alternativa sobre trilhos ajudaria a reduzir a dependência de carros e ônibus.
— Com certeza, se tivesse metrô aqui na Freguesia, esse engarrafamento diminuiria — afirma.
A necessidade de um transporte de alta capacidade também é defendida por Yuri Leal, presidente da Associação de Moradores e Amigos da Freguesia (Amaf). Segundo ele, não basta ampliar as opções para quem precisa sair de Jacarepaguá: é preciso facilitar também os deslocamentos entre os bairros da própria região.
Em setembro de 2023 a Amaf apresentou ao Governo do Estado o projeto da Linha Transversal, de metrô, que ligaria a Estação Jardim Oceânico a Belford Roxo, passando por bairros como Anil, Freguesia, Pechincha, Taquara, Tanque e Praça Seca e percorrendo a Zona Norte do Rio antes de chegar à Baixada Fluminense. A proposta foi encaminhada à Riotrilhos, que considerou o projeto viável. Desde março de 2024, para reforçar o pleito, a Amaf mantém um abaixo-assinado na plataforma Change.org.
Para Leal, a discussão sobre mobilidade precisa considerar a chegada de novos empreendimentos e o consequente aumento da população. Na sua avaliação, uma rede de alta capacidade ajudaria a reduzir a dependência do carro e a pressão sobre os principais corredores viários:
— Andando pelas ruas, você já percebe que o bairro não comporta a quantidade de pessoas que vieram para cá. Em 30 anos, a gente teve um boom imobiliário que mudou completamente a estrutura da Freguesia. Antes, era um lugar muito mais arborizado, com chácaras e casas grandes. Hoje, são vários condomínios e prédios. Você tem mais gente morando, mas praticamente a mesma estrutura de antes. Isso potencializa todos os problemas que já existiam.
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Em Curicica, o problema ganha outra dimensão. O presidente da Associação Fraternos Amigos do Parque Curicica (Afapac), Michel Marins, aponta que quem vive nas áreas internas do bairro enfrenta mais dificuldades para acessar os principais corredores de transporte. A Estrada dos Bandeirantes, onde há conexão com o BRT, atende parte dos moradores, mas nem sempre serve a quem vive nessas áreas.
Segundo Marins, uma das dificuldades é justamente ter de pegar um outro transporte para alcançar o BRT ou outros modais. Ele defende a ampliação de ligações diretas entre Curicica e os principais eixos viários.
— Não temos transporte dentro do próprio bairro. Os ônibus que circulam em Curicica acabam fazendo a ligação com o terminal do BRT, que é o que permite chegar ao metrô. Existe essa dificuldade de mobilidade principalmente pela falta de linhas diretas para o metrô. Às vezes os moradores precisam pegar duas ou três conduções para chegar ao seu destino — afirma.
Engarrafamento na estrada Geremário Dantas próximo ao largo da Taguara
Domingos Peixoto
Perguntada sobre a integração dos bairros da região com BRT e metrô, a prefeitura cita que houve um reforço na frota da região com ônibus novos em linhas estratégicas que atendem Jacarepaguá, como a 565 (Tanque-Gávea), a 550 (Cidade de Deus-Gávea ), a 803 (Jabour- Taquara) e a 801 (Bangu-Taquara). Acrescenta que a terceira etapa de concessão do Sistema Rio, prevista para 2027, vai ampliar a frota operacional nas zonas Sudeste e Oeste até a renovação completa, com a inserção gradativa de veículos zero quilômetro, com ar-condicionado, GPS, telemetria e tecnologia avançada.
A reclamação sobre a falta de integração entre modais aparece em uma região que, segundo o arquiteto Filipe Marino, doutor em urbanismo e integrante do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Uerj, cresceu mais rápido do que sua estrutura de transporte. Segundo ele, dados do Censo de 2022 mostram que a população da Grande Jacarepaguá aumentou 20% na última década:
— A grande questão é a falta do transporte de grande capacidade. A região é muito dinâmica, mas relativamente isolada, porque você fica restrito a poucos corredores de conexão.
Marino destaca que a Grande Jacarepaguá tem, hoje, uma série de novas centralidades, mas conta principalmente com corredores rodoviários para fazer as ligações com outras áreas da cidade:
— O sistema de transporte não acompanhou esse crescimento. A região precisa ser integrada aos sistemas metroviário e de trens.
Ainda de acordo com a prefeitura, uma outra melhoria nesse aspecto foi o lançamento, em julho, da linha 54 (Centro Olímpico-Anil), conectando o Terminal Centro Olímpico, na Barra Olímpica, ao Terminal Taquara, na Estrada dos Bandeirantes. A linha passa por pontos como Riocentro, Projac, Curicica, Taquara, Pechincha, Freguesia e ParkJacarepaguá. Apesar de considerar o BRT importante para a mobilidade local, Marino ressalta que este não substitui o transporte sobre trilhos:
— O BRT é um equipamento de média capacidade. Com excelência operacional, você consegue ter uma operação muito boa em fluxos intermediários, mas ele não substitui a eficiência do metrô e do trem.
A engenheira civil Marina Baltar, doutora em Engenharia de Transportes e professora adjunta do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, também considera que o principal desafio está na integração da rede.
— Não adianta pensar em um modo de transporte sozinho. É preciso pensar na rede como um todo, em como as pessoas chegam até o sistema de alta capacidade e como continuam a viagem depois — afirma.
Para ela, o BRT foi um ganho para Jacarepaguá, mas precisa estar articulado a linhas alimentadoras e terminais eficientes.
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O metrô aparece entre as alternativas de longo prazo para Jacarepaguá. A Secretaria de Estado de Transporte e Mobilidade Urbana (Setram) informa que a expansão para a região está prevista no Plano Diretor Metroviário (PDM), elaborado em 2017 e com diretrizes para a expansão do sistema até 2045. Atualmente, o PDM não tem previsão de data para o sistema alcançar Jacarepaguá. O governo estadual, porém, ressalta que “na atualização do plano, poderá haver reavaliação das prioridades, diante das transformações urbanas e das novas demandas de mobilidade”.
No momento, entre os projetos prioritários do estado está em estudo a ligação metroviária entre a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes, com o Terminal Alvorada como ponto de integração. A obra, segundo a Setram, “é uma intervenção estratégica que facilita a mobilidade de toda essa região, inclusive de Jacarepaguá, ao ampliar a conexão entre a Zona Sul e a Barra da Tijuca”.
Filipe Marino, da Uerj, observa que uma nova linha de metrô ou BRT é necessariamente de longo prazo, e não resolve a questão de transporte na região de uma forma imediata:
BRT lotado, na Taquara: para chegar à estação, muitos passageiros precisam pegar outro ônibus
Domingos Peixoto
— Uma linha de metrô não fica pronta em menos de dez anos. Tem licenciamento, projeto, financiamento, desapropriações e uma série de etapas. São projetos complexos, que precisam de planejamento de médio e longo prazos.
Plano de Mobilidade
Enquanto o metrô ainda é um sonho distante, a prefeitura aposta no Plano de Mobilidade da Zona Sudoeste, com intervenções na Barra da Tijuca, na Barra Olímpica, no Recreio dos Bandeirantes e em Jacarepaguá. O pacote reúne seis obras e prevê investimento total de cerca de R$ 200 milhões até 2028.
O início de uma nova etapa foi anunciado pelo prefeito Eduardo Cavaliere no fim de agosto. Na Avenida Ayrton Senna, uma das principais ligações entre Jacarepaguá e a Barra, a ponte sobre o Canal do Arroio Fundo será ampliada de quatro para seis faixas no sentido Linha Amarela. Também serão reconfiguradas as agulhas entre o CasaShopping e o Via Parque Shopping, permitindo a continuidade da terceira faixa. As duas intervenções somam R$ 46,9 milhões e têm prazo de conclusão estimado em dois anos.
Outra obra é a rotatória no encontro da Avenida Ayrton Senna com a Avenida Lucio Costa, com investimento de R$ 5,7 milhões. O pacote inclui ainda um novo acesso entre as avenidas Sobral Pinto e Alda Garrido, na Barra; um mergulhão na Avenida Alfredo Baltazar da Silveira, próximo ao Barra Bali, no Recreio; e mudanças na circulação no entorno da estação Asa Branca do BRT, na Avenida Salvador Allende.
As obras viárias são vistas com expectativa por moradores que enfrentam diariamente os gargalos. Para o advogado Fabio Vasconcelos, morador da Taquara, o problema está também na concentração dos deslocamentos em poucas vias.
— Aqui você tem poucas opções de entrada e saída. Tudo acaba convergindo para os mesmos lugares. Faltam viadutos, túneis e mergulhões para desafogar esses pontos — opina.
Vasconcelos cita trechos das estradas do Pau-Ferro e do Tindiba, onde faixas de rolamento estreitas prejudicam a circulação:
— Há lugares em que dois carros passam com dificuldade lado a lado.
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Marina Baltar, da Coppe, frisa que obras para ampliar a capacidade das vias aliviam pontos específicos, mas não substituem investimentos no transporte coletivo.
— O mergulhão pode resolver um gargalo. O problema é que quando você resolve aquele ponto, joga o congestionamento para o próximo. É preciso olhar a rede inteira — explica.
A especialista também faz uma ressalva sobre o alargamento de pistas.
— Você aumenta a capacidade da via, mas também pode aumentar a demanda. Depois de um período, aquele espaço que parecia suficiente volta a ficar congestionado — observa.
Para Filipe Marino, a melhor estratégia é ampliar o transporte público de alta capacidade, inclusive com novos eixos transversais. O professor defende a criação de novas ligações entre as estações de BRT e o interior dos bairros para distribuir os deslocamentos e reduzir a dependência de corredores já saturados:
— A ideia central é fomentar o transporte público. Não tem outro caminho.
Outro ponto, diz ele, é a necessidade de pensar o crescimento urbano junto com a expansão do transporte — e não depois que a população aumenta. Ele defende o Desenvolvimento Orientado ao Transporte, modelo que relaciona o planejamento de moradias, comércio e serviços no entorno das estações com o planejamento da mobilidade:
— Todo mundo quer morar perto de uma estação de BRT porque a vida fica mais fácil. Se isso vira uma política pública, você estrutura essas regiões no entorno das estações e consegue levar mais pessoas para o transporte público.
Transporte aquaviário
Para Fábio Quintino, presidente da Câmara Comunitária da Freguesia de Jacarepaguá, a solução para a mobilidade da região deve considerar, também, o transporte aquaviário. Ele frisa que a Grande Jacarepaguá está integrada a um importante sistema lagunar, potencial pouco aproveitado:
— O Rio tem vocação para o transporte aquaviário, mas a gente não vê isso evoluindo de maneira decisiva para os nossos moradores.
Barca na Lagoa da Tijuca: prefeitura pretende lançar sistema formal, com cinco terminais, seis estações e oito linhas
Guito Moreto/7-6-2022
No ano passado, a prefeitura fez uma licitação para formalizar uma rede de transporte aquaviário na região. O sistema deverá estar implantado até 2028 e contar com pelo menos cinco terminais, seis estações e oito linhas, para atender cerca de 85 mil passageiros por dia.
A expansão da malha cicloviária é outro projeto do município. A Secretaria de Transportes lembra que lançou, em 2023, o Plano de Expansão Cicloviária — CicloRio, para orientar o planejamento da rede da cidade pelos dez anos seguintes. Atualmente, há conexão entre Freguesia e Barra, partindo do Bosque da Freguesia e passando por Estrada do Gabinal e Gardênia Azul até chegar à Avenida Ayrton Senna. O plano prevê ampliar essa rede com novos trechos pelas estradas de Jacarepaguá, do Itanhangá, dos Bandeirantes, do Pau-Ferro, do Tindiba, dos Três Rios e do Guerenguê, além de criar conexões pelas avenidas Geremário Dantas, Nelson Cardoso e Salvador Allende.
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Metrô, mais ônibus, barcas, túneis: moradores de Jacarepaguá, especialistas e autoridades avaliam como melhorar a mobilidade na região
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