Maria Bethânia nasceu em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em meio a uma família especial, e deu início à carreira de cantora de forma retumbante, ao substituir Nara Leão no espetáculo “Opinião”, no Teatro Arena, no Rio, em 1965. Incensada desde o começo por sua voz e presença iluminadas, a artista já não tinha mais olhar de menina quando, em dezembro de 1972, recebeu a equipe do GLOBO em casa para falar do disco “Drama”, produzido pelo irmão Caetano Veloso. Numa conversa franca, Bethânia falou de como o amor dos pais moldou sua personalidade, disse que gostaria de ter filhos e descreveu a liberdade com que tomava suas decisões: “Só faço o que quero”.
- Abelha Rainha: Compositores contam como é “ser gravado” por Bethânia
- ‘Mundo insuportável’: A entrevista mais recente de Maria Bethânia ao GLOBO
Nesta quinta-feira, quando a filha de Dona Canô e Seu Zezinho completa 80 anos, o Blog do Acervo resgata os principais trechos daquela entrevista, além das fotos registradas no mesmo dia. Bethânia estava no fim de um ano definidor. Caetano voltou do exílio em janeiro de 1972, semanas antes de a cantora partir para sua primeira turnê na Europa. Meses depois, ela atuou no filme “Quando o Carnaval Chegar”, de Cacá Diegues. A artista também gravou “Drama”, com clássicos como “Anjo Exterminado'”, de Jards Macalé e Wally Salomão, e “Estácio Holly Estácio”, de Luiz Melodia. O ano terminou com a chegada de Moreno Veloso, primeiro filho de Caetano, que aparece com a tia na foto abaixo.
“Meu pai e minha mãe me ensinaram a respeitar as pessoas, as coisas, as situaçôes e a sociedade. É assim que vivo, sempre tendo na cuca o respeito pelos outros. Minha família é ‘a glória’. Meu pai e minha mâe se amam loucamente, desde o momento em que se casaram resolveram que iam curtir apenas esse amor, o casamento, os filhos, a família. Esse amor passava para mim e meus irmãos. Os velhos sempre tiveram uma abertura que assustava mesmo as outras famílias de Santo Amaro. Muita gente pensava que eles eram loucos, sei lá.
- Bethânia e Caetano: 1972 foi um ano definidor para os filhos de Dona Canô
“Somos uma família classe média, do interior da Bahia. Meu pai é funcionário dos Correios. Ele e minha mãe sempre se viraram para acompanhar tudo, o jeito de cada filho e para dar a maior liberdade para cada um. Tínhamos nossas escolhas e não recebíamos ordens, nem surras, nem castigos. Cada dia que passava, cada coisa que acontecia no mundo, meu pai percebia e mudava, se adaptava e nos ensinava a agir da mesma maneira.
“Por conta dessa ligação tão forte e tão bonita de nossos pais, nos mantivemos unidos e livres porque pudemos participar de seu amor. Somos amarrados uns aos outros e curtimos reunidos, Natal, Ano Novo, São João e todas as festas do ano. Caetano e eu somos os mais novos. Os mais velhos apenas cuidavam de nós. Nunca houve brigas ou interferências, apesar da diferença de idade da mais para mim ser de 16 anos.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/C/K/rIb7OcTfGajLIBXkpxUw/bethania3.png)
A vontade de ter um filho quando ‘a cuca estiver mais no lugar’
Foi tudo tão bacana que quando tiver um filho (e quero muito isso, não agora, daqui a uns dois anos, quando a cuca estiver mais no lugar) vou transmitir a ele o mesmo que aprendi com meus pais. Educarei meus filhos da maneira que fui educada. Sem grilos, com total liberdade de escolha e de ação e só fazendo o que ele gostar. Minha maneira de ser, assim tão livre, é consequência da educação que recebi. Hoje em dia é uma posição assumida, amadurecida. As pessoas querem ter filhos para fazer com eles tudo o que os pais não fizeram. Comigo acontece o contrario, tudo foi bem feito, não houve repressões. Vivo hoje do mesmo modo que fui criada.
‘Mulher pode assumir qualquer função que homem exerce’
Não leio jornais, nem revistas, nem ouço notícias de televisão. Não me interesso por nada que vai por aí de politica internacional, “women´s lib” e outros outros movimentos. Me preocupo muito com detalhes pequenos, mínimos que curto muito e adoro mergulhar de cabeça. Sinceramente, não sei o que o “women´s lib” pretende, não tenho opinião sobre isso.
- Chico, Caetano e Gil: A história de uma foto de 1968 que viralizou
Mas tenho opinião sobre a independência da mulher. Acho que o ser humano não pode depender de ninguém. Nem homem, nem mulher. Não posso imaginar uma pessoa dentro de casa sem fazer nada, dá até nervoso. Ao mesmo tempo, é imprescindível para a mulher ser cuidada. Eu pelo menos, curto muito essa. Preciso de proteção. Mas uma coisa não exclui a outra. Tenho isso, não posso ter aquilo, essa não! O importante é a liberdade, ter seus próprios amigos, se dar bem com todo mundo.
Acho que mulher tem que ser fresquíssima. Se algum dia tivesse que comandar uma guerra, eu ia tão maquiada para essa guerra, ia ser uma loucura. A mulher pode assumir qualquer função que o homem exerce, mas nunca se esquecer que é mulher. Se perder suas características próprias para imitar os homens, não estará sendo independente, e, sim, uma cópia fiel de tudo aquilo de que quer se libertar.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/i/n/H5PkGGS3AFIaokk9GuKQ/bethania4.png)
‘Não vou arrasar minha vida para preservar bens materiais’
Da maneira como fui educada, tinha certeza que jamais faria na minha vida algo que não gostasse. As pessoas dizem que faço o que quero porque sou a Bethânia. Isso não é verdade. O importante é se impor. Não sou diferente das outras pessoas e não vou me arrebentar fazendo o que não gosto.
Faço só o que quero porque nunca sonhei em ser milionária, com palácios, iates, carros. Sempre sonhei em nunca me faltar nada e nunca me faltou. Minha família nunca foi rica, pelo contrário, era pobre. Mesmo assim sempre tive maquilagem, brincadeirinhas, anéis. Meus irmãos trabalhando para ganhar dinheiro, todos se ajudando.
Nunca sonhei com milhões. Não vou arrasar minha vida para preservar bens materiais. Essa casa que tenho, por exemplo, eu amo, acho maravilhosa. Se para pagá-la precisasse me violentar, me vender, não pensaria duas vezes. Podem me tirar a casa, tenho na Bahia meu pai, a minha mãe que me adoram, com uma casa maravilhosa, que estão dispostos em receber a qualquer momento e em qualquer necessidade. Além disso, tenho meus irmãos. Sou uma eleita do Senhor, o que posso fazer? A verdade que precisa ter uma barra sustentando lá atrás. Quem não tem fica desequilibrado.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/6/Y/k9aRYHT4GhstXs8mvHuA/bethania5.png)
“Escolho repertório de acordo com a minha vida”
Escolho meu repertório de acordo com o que estou passando na minha vida. Reflito minha emoção, meus sentimentos, essas coisas. Aqui no Brasil dos compositores novos que estão surgindo, gosto de Luiz Melodia. O resto é mesmo o pessoal da pesada, Gil, Caetano, Roberto Carlos, Chico Buarque, Caimmy, Antônio Marcos. Nunca saio por aí procurando músicas. Quando aparece uma legal, eu penso, “essa aí pode ser que eu grave no ano que vem”. Essas coisas vão aparecendo. Fico mais sossegada. Se estiver atenta, as coisas pintam sem precisar correr atrás.
Acredito no poder do pensamento, temos tanta prova disso na vida. A casa que estou morando sempre foi o sonho de minha vida. No dia que resolvi comprar uma casa, o corretor me disse que ela estava à venda. Vim para cá para fugir da confusão da cidade. Quero paz e sossego e a tranquilidade que há por aqui é causa e consequência de minha tranquilidade interior. Miriam Batucada diz brincando que minha disposição de receber visitas está no número de cadeiras que tenho na beira da piscina: duas.
‘Acredito em Deus e espero para ver o que vai dar’
Em relação à juventude, curto muito o pessoal que anda na rua, enfeitado, colorido. O resto não sei. Só admiro mesmo o fogo que os jovens têm e a certeza de saberem de tudo. Com eles está a verdade. Ainda sou jovem, mas já amadureci muito. Tenho 26 anos, mas minha cuca tem muito mais. Desde 17 anos que tomo conta de minha vida e assumo todas as responsabilidades. Procuro andar com gente que pense como eu e que não tenha parado no tempo. O que não se pode dizer é que os mais velhos estão para trás. Tem muita gente que evoluiu, esses são os meus amigos.
Acredito em Deus. Como sou muito nervosa, preciso de um apoio. Apesar de não ler jornal e não ouvir notícias, estou sabendo de tudo e tenho medo das confusões do mundo. Elas me inquietam e me fazem sentir insegura, Então, eu acredito em Deus e espero para ver o que vai dar. Não sou ligada a nenhuma religião, oficialmente. É um apelo interior, espontâneo, e tenho consciência disso.

