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Está cada vez mais difícil encontrar uma série que não aborde — mesmo que de forma lateral — algum tema do debate contemporâneo. “Monstro — A história de Lizzie Borden” não foge a essa regra. Ela mergulha no universo feminino e discute histeria, raiva, comportamentos reprimidos, submissão e insurgência, entre outros assuntos. É a quarta trama da antologia que teve “Dahmer: um canibal americano”, “Irmãos Menendez” e “A história de Ed Gein”. Como as produções anteriores, essa narra crimes reais com altas doses de imaginação. Os oito episódios estão na Netflix. Vale conferir.
Se fosse para resumir em duas palavras o ponto central de interesse desse enredo, eu diria: a maldade humana. A assinatura de Ryan Murphy, criador da produção, é inconfundível. Ele retrata o mal com aquela sua mão forte na estetização. Há uma correlação constante entre o horror e a perfeição. Vemos assassinatos a machadadas em que a câmera busca o melhor ângulo, ou melhor, o ângulo mais “belo”. A protagonista passeia por um encantador jardim de cerejeiras enquanto experimenta os piores sentimentos. A pureza da natureza na primavera contrasta com uma chuva lírica de plumas de pássaros assassinados. O resultado galvaniza o espectador.
Sarak Paulson/Aileen Wuornos
Netflix
Personagem-título, Lizzie Borden (Ella Beatty) nasceu em Massachusetts no século XIX e foi acusada de assassinar o pai e a madrasta. Sua fama sobreviveu no imaginário americano e ela se tornou um mito pop (preste atenção à cantiga folclórica que ouvimos no primeiro capítulo). Na ficção, a moça vive um cotidiano de humilhações em casa. Seu pai, Andrew (Charlie Hunnam), é um próspero carpinteiro e fabricante de caixões, casado com Abby (Rebecca Hall), uma mulher frustrada e cruel. Lizzie cresce solitária até que Maggie (Vicky Krieps) passa a trabalhar na casa, cuidando dos afazeres domésticos e preparando as refeições. As duas se tornam grandes amigas. Maggie é viajada, hábil nas relações e interessada em juntar dinheiro para conquistar alguma liberdade no futuro. Apresenta a Lizzie um livro com a história de outra figura importante na trama: a condessa Elizabeth Báthory. A nobre húngara também existiu (viveu entre os séculos XVI e XVII) e se tornou célebre por razões funestas. Foi acusada de matar centenas de moças. Lizzie fica fascinada com a aptidão assassina dela.
No quarto episódio, “Monstro” dá um salto na cronologia e surge Aileen Wuornos (Sarah Paulson, em performance e caracterização espetaculares). Ela foi uma serial killer moderna (morreu em 2002). Fascinada por Lizzie, Aileen aparece “contracenando” com ela.
Ella Beatty e Charlie Hunnam (Lizzie e o pai)
Netflix
O roteiro embaralha essas figuras femininas separadas por períodos históricos, mas capazes de reagir com a mesma brutalidade à violência. A viagem no tempo e no espaço tem um recado: o “sexo frágil” é uma ilusão hoje, como era ontem.
PS: As resenhas das séries anteriores estão aqui, aqui e aqui
'Monstro: A história de Lizzie Borden', na Netflix, tem espetáculo visual e grandes interpretações
