O fisiculturista e influenciador fitness Gabriel Ganley, de 22 anos, foi encontrado morto em seu apartamento no último sábado (23), caso que é investigado pela Polícia Civil de São Paulo. Ele teve morte súbita causada por cardiomiopatia hipertrófica, segundo o atestado de óbito. O influenciador já havia relatado nas redes sociais fazer uso de hormônio para fins estéticos, além de outros anabolizantes. Investigadores ainda aguardam laudos adicionais para entender o que provocou a condição cardíaca que provocou a morte de Ganley.
Cardiomiopatia hipertrófica: entenda a condição que levou a morte do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, aos 22 anos
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O corpo foi encontrado no apartamento em que o rapaz vivia, na Mooca, Zona Leste de São Paulo. Um amigo foi ao endereço após parentes e outros conhecidos não conseguirem contato com Gabriel. Em nota, a Polícia Civil de São Paulo informou que o caso é investigado por meio de inquérito policial.
Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP), a Polícia Civil busca avançar nas investigações para entender todas as circunstâncias da morte de Ganley. Ou seja, detalhes adicionais sobre a morte do jovem atleta ainda devem surgir nos próximos dias a partir de laudos periciais complementares.
Durante a perícia técnica no imóvel foram encontrados e apreendidos medicamentos, possivelmente anabolizantes. Esses medicamentos já foram encaminhados para análise técnica, que deverá ajudar a compor o quadro geral sobre as circunstâncias da morte. Não há informação oficial indicando relação entre os itens encontrados e a causa da morte.
Quem era Gabriel Ganley
Gabriel foi descoberto por um amigo no apartamento em que o jovem morava, na Mooca, Zona Leste de São Paulo, após dias sem que familiares e amigos conseguissem contato com ele. O corpo do fisiculturista e influenciador foi cremado nesta segunda-feira (25), segundo informações da família. A cerimônia foi fechada, com a presença apenas de parentes próximos.
Ganley era um dos nomes em ascensão no universo fitness brasileiro e acumulava mais de 1 milhão de seguidores nas redes sociais, onde compartilhava a rotina de treinos, dieta, bastidores da preparação física e participações em eventos ligados ao fisiculturismo. Conhecido entre fãs pelo apelido de “Bbzinho”, ele havia conquistado espaço entre o público jovem que acompanha o esporte nas plataformas digitais.
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Insulina
Gabriel já tinha falado publicamente sobre o uso de insulina para aumentar o ganho muscular. Muitos a usam também para melhorar a reposição de glicogênio após treinos intensos.
A lógica por trás disso é que a insulina é um hormônio altamente anabólico: ela ajuda a transportar glicose, aminoácidos e outros nutrientes para dentro das células musculares, favorecendo armazenamento de energia e síntese proteica.
No fisiculturismo, ela costuma ser associada ao uso de carboidratos rápidos e, às vezes, a esteroides anabolizantes ou hormônio do crescimento, numa tentativa de potencializar crescimento muscular e recuperação. Porém, esse uso é considerado extremamente arriscado fora de indicação médica.
O uso inadequado de insulina pode acarretar uma série de sintomas, como tremores, suor frio, confusão mental, perda de consciência, convulsões, coma e morte.
Compulsão alimentar
Um ano antes da morte, Ganley relatou nas redes sociais episódios extremos de mudança de peso e compulsão alimentar. O influenciador afirmou ter ganhado cerca de 20 quilos em apenas dois dias após enfrentar uma crise de compulsão. Segundo ele, o episódio ocorreu logo depois de uma fase de dieta extremamente restritiva para preparação em competições de fisiculturismo. Na gravação, Ganley relatou os efeitos físicos e emocionais do processo de restrição alimentar severa, comum em períodos pré-competição dentro do esporte.
Ele relatou que durante o episódio comeu em uma famosa rede americana em um sábado, e que passou o restante do dia e o domingo também se alimentando. Na gravação, relatou comer nove caixas de barra de proteína, que contabilizou em média 50 unidades, três caixas de cookies, dois pacotes de biscoito de arroz com xarope, além de duas caixas de pasta de amendoim.
Em junho de 2025, o atleta também contou aos seguidores que seu peso variava entre 84 kg e 86 kg durante uma fase de “jejum sem filtro”, expressão usada por ele para descrever protocolos intensos de controle alimentar.
Óbito em casa
O amigo de Gabriel foi até o apartamento do fisiculturista na Mooca até ser procurado por familiares preocupados por não terem notícias do jovem. Ele ainda tentou contato com Gabriel, mas não conseguiu por meio de ligações e mensagens, assim, foi até o endereço.
Funcionários do condomínio informaram que Gabriel estava no imóvel, que se encontrava com as luzes acesas. Sem resposta, o amigo arrombou a porta e encontrou o fisiculturista caído na cozinha, já morto. De acordo com o boletim de ocorrência, não havia sinal de violência no apartamento. O caso foi registrado como morte suspeita, classificada como morte súbita.
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O que diz a polícia
A Polícia Militar foi acionada pelo amigo de Gabriel pelo telefone 190.
Procurada, a Polícia Civil de São Paulo respondeu, por meio de nota, que o caso “é investigado por meio de inquérito policial instaurado no 57º Distrito Policial (Parque da Mooca). A autoridade policial realiza diligências e aguarda o resultado de laudos do IML visando o esclarecimento dos fatos”.
O que é cardiomiopatia hipertrófica
A cardiomiopatia hipertrófica faz uma parte do músculo do coração crescer além do normal (hipertrofia), geralmente no ventrículo esquerdo. Essa parede mais grossa deixa o coração mais rígido, dificulta a saída do sangue e pode bagunçar os impulsos elétricos que controlam os batimentos. Esse espessamento pode levar a arritmias graves, insuficiência cardíaca e morte súbita.
Se o ritmo não for revertido rapidamente, o coração deixa de bombear sangue para o cérebro e outros órgãos, levando à parada cardiorrespiratória e à morte. Essa condição pode ser agravada pelo uso de anabolizantes.
Sintomas da cardiomiopatia hipertrófica
Os sintomas mais comuns incluem falta de ar, dor no peito, palpitações, tontura e desmaios. Porém, em muitos casos, o primeiro sinal pode ser a morte súbita.
Especialistas afirmam que a doença pode ter origem genética — considerada uma das principais causas de morte súbita em pessoas com menos de 35 anos no Brasil e no mundo — ou ser adquirida ao longo da vida, inclusive com participação do uso de esteroides anabolizantes.
Anabolizantes
Os anabolizantes são hormônios derivados da testosterona e promovem um ganho de massa muscular mais rápido. Uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) proíbe a indicação destas substâncias com finalidade estética ou de ganho de performance desde 2023. A decisão se deu a partir da análise de diversas pesquisas anteriores que mostraram os altos riscos associados ao uso.
Há efeitos psíquicos — um trabalho publicado em 2019 na revista científica Drug and Alcohol Dependence mostrou um risco nove vezes maior de condenação por um crime —, cardiovasculares, de inflamação do fígado, infertilidade, perda da libido, atrofia dos testículos, masculinização de mulheres, com crescimento de pelos e engrossamento da voz, entre muitos outros.
Diuréticos
Outro perigo é consequência do uso indiscriminado de diuréticos, remédios utilizados para o tratamento da hipertensão arterial e da insuficiência cardíaca. Eles atuam nos rins, intensificando o fluxo urinário e favorecendo a eliminação do sódio, substância que eleva a pressão, e da água de um modo geral. Dessa forma, reduzem a quantidade de fluido que circula pelas veias e artérias, o que também faz com que a pressão diminua, segundo informações da Mayo Clinic, nos Estados Unidos.
Graças a esse mecanismo, que elimina a retenção de líquidos, um dos efeitos secundários conhecidos dos diuréticos é a redução do inchaço no corpo, o “secar”. Por isso, os medicamentos são por vezes utilizados de maneira inadequada com a finalidade estética — o que é contraindicado por autoridades médicos pelos riscos desse uso.
Quando não tomados com indicação médica e seguindo as recomendações de um profissional, há riscos que vão desde a desidratação até os cardíacos mais graves. Isso porque, afirma a Mayo Clinic, com a intensificação do fluxo urinário, o corpo pode perder mais água e sódio do que deveria, além de uma outra substância importante, o potássio.
“Os diuréticos podem causar níveis muito baixos de potássio, chamados de hipocalemia. A hipocalemia pode causar problemas de batimento cardíaco com risco de vida”, cita a organização de saúde americana.
Morte súbita
A morte súbita cardíaca é uma das ocorrências mais comuns entre homens fisiculturistas, segundo uma pesquisa publicada no ano passado no European Heart Journal.
“Tenho observado um número crescente de relatos de mortes prematuras entre pessoas envolvidas com fisiculturismo e fitness. Esses eventos trágicos, que frequentemente afetam atletas jovens e aparentemente saudáveis, evidenciam uma lacuna em nossa compreensão dos riscos à saúde a longo prazo associados ao fisiculturismo competitivo. Até o momento, nenhum estudo avaliou a incidência de morte e morte súbita nessa modalidade esportiva”, afirmou Marco Vecchiato, da Universidade de Pádua, na Itália, e autor do estudo.
A pesquisa reuniu 20.286 fisiculturistas masculinos a partir dos registros oficiais de competições e de um banco de dados online não oficial. Todos os homens haviam participado de pelo menos um evento da Federação Internacional de Fitness e Fisiculturismo entre 2005 e 2020.

