A partir de novembro, dois trechos de circulação de helicópteros no Rio serão cancelados. Um deles costuma ser usado para voos panorâmicos próximo ao Cristo Redentor. O outro, também muito utilizado para passeios turísticos, sai do Alto da Boa Vista e desce até o Maracanã. As mudanças foram anunciadas pela Força Aérea Brasileira (FAB) no domingo, após uma sequência de acidentes com vítimas, inclusive fatais, envolvendo o tipo de aeronave em questão.
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Rotas Especiais de Helicópteros serão canceladas
Editoria de Arte
Trechos cancelados
Essas delimitações aéreas são chamadas de Rotas Especiais de Helicópteros (REHs), que se baseiam em pontos de referência no solo para orientar o piloto e facilitar o tráfego aéreo. Na REH Cristo, o trecho a ser proibido passa por pontos como o Terminal Rodoviário da Usina, na Tijuca, próximo ao Alto da Boa Vista; Morro Sete Quedas, dentro do Parque Nacional da Tijuca; Jardim Botânico, no bairro homônimo; Jockey Clube; interseção da Estrada do Sumaré com a do Redentor; Lagoa Rodrigo de Freitas; e o Clube dos Caiçaras, na Lagoa.
Outra que perderá validade, a REH Boa Vista inclui Ilha da Gigoia, na Barra da Tijuca; Itanhangá Golf Club, no Itanhangá; Estrada das Furnas; Pedra Bonita, em São Conrado; Terminal Rodoviário da Usina; o início da Avenida Maracanã; Shopping Tijuca; Colégio Militar; Estádio do Maracanã; e Estação de São Cristóvão. As informações constam na Circular de Informação Aeronáutica da FAB.
Com a alteração, definida pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) da FAB, o número de Rotas Especiais de Helicópteros cai de 29 para 27 no estado do Rio.
— Acredito que o departamento cancelou essa rotas porque são regiões com grande circulação de helicópteros e poucas opções de pouso de emergência, sobretudo na REH Cristo. O entorno do Clube Caiçaras, por exemplo, só tem dois helipontos, em meio a uma região densamente povoada e sem área de escape — afirmou uma fonte da Aeronáutica consultada pelo GLOBO.
Afastamento do Cristo Redentor
O Decea também determinou o afastamento da REH Praia. Na prática, os helicópteros que usam esse corredor sobre o mar passarão a voar mais distantes da costa.
Com as mudanças, uma das opções que restam para voos com visualização do Cristo Redentor é pela rota da praia, mais afastada do monumento do que a REH Cristo, que fica a 4.600 metros de distância da escultura, explica o piloto e especialista em segurança de voo Maurizio Spinelli.
— As rotas especiais de helicóptero, na maior parte de seus trechos, não são rotas obrigatórias. São sugeridas. Existem espaços aéreos de várias classes. A maioria dessas rotas está no espaço aéreo que a gente chama de golf (porção não controlada, onde os voos não dependem de autorização do controle de tráfego aéreo). Dentro do espaço aéreo golf, eu posso me deslocar livremente, respeitando as regras de altitude, distância e condições meteorológicas, por exemplo. Na área do Cristo, acima de mil pés (cerca de trezentos metros), o espaço aéreo passa a ser Charlie. Se o piloto fizer uma coordenação com o controle de tráfego antes de entrar no perímetro da Lagoa, poderá, em tese, continuar a fazer o sobrevoo do Cristo, mantendo a distância mínima determinada, de 600 metros. Nesse caso ele não estará cometendo nenhuma infração aeronáutica — pondera Spinelli.
Corpos das vítimas do acidente de helicóptero sendo retirados pelos bombeiros na mata da Vista Chinesa
Ana Branco
Sequência de acidentes
As rotas canceladas incluem a região da Vista Chinesa, onde um helicóptero que fazia um voo panorâmico caiu no último dia 8 de agosto. O acidente matou o piloto e três turistas colombianas. Em 14 de junho deste ano, dois helicópteros já haviam colidido no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste, deixando seis mortos, entre eles o cantor americano Oliver Tree e o youtuber argentino Gaspar Prim.
Spinelli diz que vê com “maus olhos” as alterações. Para ele, as medidas anunciadas pela FAB não melhoram a segurança aérea nas rotas dos helicópteros.
— Essas mudanças foram propostas sob a justificativa de aumentar a segurança de voo. Mas, com menos duas rotas, passaremos a ter mais helicópteros dividindo menos espaço, aumentando, aí sim, o perigo. Não faz sentido, até porque a rota, em si, não é causadora do acidente. O que eles fizeram foi atender às associações de moradores que pedem a proibição de sobrevoos na Zona Sul — argumenta. — É bem verdade que houve um aumento expressivo no número de empresas que fazem esses voos panorâmicos, aumentando a probabilidade de acidentes. O que as autoridades deveriam ter feito antes é uma fiscalização mais apurada dessas companhias que surgiram recentemente.
Redução de ruído
O limite de voos turísticos e panorâmicos de helicópteros na cidade, com mais fiscalização e regulação, é uma demanda antiga de associações de moradores da Zona Sul, que se juntaram num movimento, chamado “Rio Livre de Helicópteros Sem Lei”, para cobrar as autoridades. Entre as exigências, estão o fim dos voos em áreas residenciais e a redução de ruído.
— Eu fico muito satisfeita que a Aeronáutica tenha tomado alguma medida, porque estamos nessa luta contra os voos panorâmicos desde 2011. Mas essas mudanças só atendem à parte das demandas, já que nosso objetivo é o fim de todos os sobrevoos em áreas residenciais e de proteção ambiental, com transferência dos voos para uma rota sobre o mar — comenta Vera Maurity, presidente da Associação de Moradores e Amigos do Jardim Botânico (AMAJB) e uma das líderes do movimento. — Muitas pessoas ficam doentes por conta do barulho, fora o risco de acidente. Somos milhares de moradores importunados para o deleite de alguns turistas.
Também integrante do movimento, Celineia Paradela, presidente da Associação dos Moradores da Urca, aprovou as medidas, mas acredita que devam ir além:
— Sofremos com um barulho ensurdecedor dentro de casa. Então, eu recebo essas mudanças com muito prazer. Só não entendo por que não colocaram o Morro da Urca (que integra a REH Turístico), onde a fauna é muito prejudicada com o ruído, dentro das proibições.
Mudanças nas rotas de helicópteros afastam voos panorâmicos do Cristo Redentor; entenda alterações definidas pela FAB
