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Mundo registra período mais letal para jornalistas em uma década, alerta Unesco

Por · novembro 2, 2026
Mundo registra período mais letal para jornalistas em uma década, alerta Unesco


A impunidade nos assassinatos de jornalistas aumentou pela primeira vez desde 2012, segundo relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) nesta segunda-feira, Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas. Ao todo, 86% dos casos permanecem sem solução, o equivalente a seis em cada sete assassinatos, revertendo uma tendência de queda registrada ao longo dos últimos 14 anos.
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A taxa global de impunidade subiu um ponto percentual em relação ao levantamento anterior, quando estava em 85%. O índice, que considera os homicídios cujas investigações não foram concluídas ou permanecem em andamento, havia recuado progressivamente desde 2012, quando atingia 95%. O aumento ocorre em meio ao crescimento das mortes de profissionais da imprensa, sobretudo em regiões afetadas por guerras.
O relatório, publicado a cada dois anos, contabilizou 189 jornalistas, profissionais da imprensa e criadores de conteúdo envolvidos em atividades jornalísticas mortos em 2024 e 2025, incluindo 14 mulheres. O número representa um aumento de 20% em relação ao biênio anterior e faz do período o mais letal para jornalistas na última década. Desde 2006, quando a Unesco iniciou o registro, 1.641 profissionais foram assassinados em todo o mundo, uma média de uma morte a cada quatro dias.
Do total de vítimas registradas no último biênio, 127, ou 67%, foram mortas em zonas de conflito, incluindo os Territórios Palestinos, o Iêmen e a Ucrânia. A proporção evidencia uma mudança na distribuição geográfica dos riscos enfrentados pelos profissionais. Em 2025, o Estado da Palestina voltou a registrar o maior número de casos, com pelo menos 32 assassinatos, segundo o levantamento.
— É uma mudança importante no panorama mundial dos riscos para os jornalistas — disse Mariya Gabriel, vice-diretora-geral de Comunicação e Informação da Unesco.
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Ela destacou, ainda, a dificuldade de responsabilizar os autores dos crimes cometidos durante conflitos armados. As investigações e os processos judiciais relacionados aos assassinatos de jornalistas em zonas de guerra, disse, continuam particularmente insuficientes. Embora a agência da ONU não tenha atribuições judiciais, a vice-diretora-geral ressaltou que a organização exerce pressão para que os responsáveis sejam levados à Justiça.
— Os jornalistas estão pagando cada vez mais com a própria vida por realizar a cobertura nas linhas de frente das guerras e, com demasiada frequência, os responsáveis por suas mortes não são responsabilizados — disse o diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany.
Ataques contra jornalistas
Entre as ameaças identificadas pela Unesco está o uso crescente de drones em ataques que provocam a morte de jornalistas. Segundo o relatório, 50 profissionais foram mortos dessa maneira em 2024 e 2025, o equivalente a 40% das mortes registradas em zonas de conflito e a aproximadamente 26% do total de assassinatos contabilizados no período.
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A organização também documentou sete episódios em que vários jornalistas foram alvos de um mesmo ataque, incluindo bombardeios contra locais de trabalho da imprensa e centros temporários de cobertura jornalística. Pelo menos 15 profissionais teriam sido mortos enquanto usavam coletes de identificação da imprensa ou estavam em veículos sinalizados. O relatório também destaca assassinatos de jornalistas dentro de suas próprias casas.
As novas tecnologias militares, segundo a Unesco, estão transformando os riscos enfrentados por correspondentes de guerra. A organização aponta que o aumento das mortes em regiões de conflito contrasta com os avanços registrados em países que não enfrentam confrontos armados, onde tanto o número de assassinatos quanto a taxa de impunidade apresentaram redução.
Impunidade diminui
Apesar da deterioração do cenário global, a taxa de impunidade nos países sem conflitos armados manteve uma trajetória de queda, passando de 94% em 2012 para 77% em 2026, uma redução média de um ponto percentual por ano. O número de jornalistas mortos nessas regiões também diminuiu, chegando a 85 no biênio de 2024 e 2025, o menor patamar registrado em 18 anos.
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Para a Unesco, os resultados demonstram que é possível avançar no combate à impunidade quando os governos investem em investigações, processos judiciais e medidas de proteção aos profissionais da imprensa. A organização ressalta, porém, que os avanços observados fora das zonas de guerra não foram suficientes para impedir o aumento da taxa global de crimes sem solução.
O relatório também chama a atenção para os riscos específicos enfrentados por mulheres jornalistas. Das 14 profissionais assassinadas em 2024 e 2025, 93% morreram durante a cobertura de conflitos. Embora representem uma parcela relativamente pequena do total de vítimas fatais, as mulheres continuam expostas a níveis desproporcionais de violência, abusos e assédio, tanto no ambiente digital quanto fora dele.
Um estudo realizado em 2025 pela ONU Mulheres e pelo Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, na sigla em inglês) revelou que 75% das mulheres jornalistas haviam sofrido algum tipo de abuso ou assédio. A proporção das que relataram violência física ou outras agressões fora do ambiente digital como consequência de ataques virtuais mais que dobrou desde a pesquisa anterior da Unesco, realizada em 2020, passando de 20% para mais de 40% em 2025.
Os números apresentados pela Unesco diferem, em alguns casos, dos levantamentos divulgados por organizações como a Comissão para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) e a Repórteres Sem Fronteiras (RSF). A agência das Nações Unidas atribui essas divergências às dificuldades de determinar as circunstâncias de determinadas mortes, especialmente em regiões onde os conflitos permanecem em constante evolução.

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