Antes de estrear em São Paulo “Rita Lee —Uma autobiografia musical”, em abril do ano passado, a atriz Mel Lisboa pediu à mãe, a astróloga Cláudia Lisboa, que fizesse um mapa astral da peça. “Minha filha, não podia estar mais lindo”, foi a resposta. A previsão se confirmou. Depois de mais de um ano de temporada com todas as 180 sessões lotadas e a conquista do Prêmio Shell de melhor atriz, a peça chega nesta quinta-feira ao Teatro Casa Grande, no Leblon, praticamente esgotada. Tanto que já estão abertas as vendas (via Eventim) para a primeira das sessões extras: dia 5 de julho. Pelo menos mais cinco datas serão anunciadas em breve.
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— É um divisor de águas na minha carreira, um trabalho do qual tenho muito, muito orgulho. Me sinto privilegiada — resume Mel.
Baseado na autobiografia da cantora (1947-2023) lançada em 2016, o musical dirigido por Débora Dubois e Marcio Macena passeia por momentos importantes da trajetória de Rita. A infância, as bandas da adolescência, a relação com a família, a participação nos Mutantes, a prisão na ditadura, o amor por Roberto de Carvalho (interpretado por Bruno Fraga), a vinda dos filhos, a velhice. Tudo embalado por 38 sucessos de diferentes épocas, como “Saúde”, “Desculpe o auê”, “Mania de você”, “Doce vampiro”, “Reza” e “Ovelha negra”, tocados ao vivo por cinco músicos.
Na difícil missão de resumir as 269 páginas do livro em duas horas de espetáculo está Guilherme Samora, que assina o roteiro e a pesquisa da produção. O jornalista era muito próximo de Rita e participou do livro, fazendo comentários que foram publicados em alguns trechos, com o desenho de um fantasminha.
— Parti de duas espinhas dorsais: a Rita desacato — que representa a liberdade, o desacato à autoridade masculina e à ditadura — e a história de amor com Roberto — conta Guilherme.
Apesar de não ter visto o resultado, esses pilares do roteiro chegaram a ser compartilhados com Rita, que gostou e deu até sugestões, como para que Mel trocasse de perucas no palco, além de pedir que “a causa mais importante para ela”, a dos animais, não ficasse de fora.
— A primeira coisa que falei para ela foi: “Sua mensagem sobre a adoção de bichos estará na peça”. Ela sorriu e falou: ‘Sim, você me conhece’— lembra Guilherme.
O desejo de sua história ocupar os palcos partiu da própria cantora. A ideia foi germinada quando ela viu, há mais de dez anos, a peça “Rita Lee mora ao lado”, estrelada também por Mel e inspirada no livro ficcional de Henrique Bartsch. A montagem — sobre uma vizinha que espionava Rita Lee e queria ser como ela — estreou em São Paulo em 2014 e rodou o Brasil até agosto de 2016. Levada por Guilherme para assistir, Rita disse, ao final: “Eu acho que a Rita do palco (de onde estava distante desde 2012) saiu de mim e foi parar na Mel”.
Além de Mel no papel principal, os dois espetáculos têm muitos denominadores comuns, como outros sete atores que repetem seus papéis — entre eles Fabiano Augusto como Ney Matogrosso, Debora Reis como Hebe Camargo, Flavia Strongolli como Elis Regina e Yael Pecarovich como Gal Costa —, os diretores e o produtor, Edinho Rodrigues.
Marcio pensou em Mel Lisboa para o papel quando estava nos primeiros passos do projeto, ainda em 2009. Ao procurá-la, a atriz se surpreendeu.
— A Mel nunca quis fazer musical, nunca cantou, nunca tocou violão. Foi um parto convencê-la, porque ela achava que ela não sabia fazer aquilo. Nas entrevistas, falava: “A culpa é dele se tudo for ruim, eu não queria fazer”— recorda Marcio.
A atriz lembra que tentou fugir porque “era assustador, um trabalho muito arriscado e de uma responsabilidade enorme”. Mais de uma década depois interpretando a cantora — nos dois espetáculos, em shows tributos e em uma participação na série em homenagem a Elis Regina na TV Globo —, o desafio do canto persiste, bem como o medo a cada vez que as cortinas se abrem.
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— O canto não é um talento meu, é um talento lutado. Não me sinto confortável cantando. Não gosto da minha voz, acho que canto mal. Mas a minha atriz vem antes, minha atriz é muito melhor do que a minha cantora, é truqueira e finge que canta, então pronto — brinca Mel. — No final, acabou sendo a melhor escolha que fiz na vida.
O que também segue constante são as pesquisas e estudos da atriz sobre Rita.
— À medida que o tempo foi passando e mais gente foi assistindo, relatando a experiência, fui me sentindo mais à vontade, mais segura. Eu sigo tentando melhorar para que as pessoas também possam ter uma experiência cada vez melhor— reflete ela.
O resultado dessa evolução foi sentido pelo parceiro de vida e de arte de Rita, Roberto de Carvalho, que esteve nos últimos dias da temporada em São Paulo e declarou para a atriz: “Eu assisti à peça na estreia. Do primeiro dia para hoje, foi uma metamorfose mais que ambulante, impressionante, maravilhosa. A pedra foi burilada, trabalhada para se transformar em um diamante mais belo”.
A temporada do musical ainda estará a toda quando Mel Lisboa estrear, em 9 de julho, no Teatro Prio, “Madame Blavatsky — Amores ocultos”, monólogo sobre a escritora russa Helena Blavatsky (1831-1891), que consolidou a ideia de teosofia em fins do século XIX. E Rita também tem a ver com essa história.
— Nos anos 1990, a Rita estudava a Blavatsky. Em 2019 e durante a pandemia, começamos a estudar juntos. Eu li o livro, mandava para ela com minhas anotações e ela mandava de volta. No meio disso, a Mel começou a fazer a peça sobre a autora, sem saber dessa relação com a Rita — explica Guilherme.
Com dramaturgia de Claudia Barral e direção também de Marcio Macena, a montagem teve a primeira apresentação on-line durante a pandemia.
— Curiosamente, nenhuma das duas foram personagens escolhidas por mim. A Rita foi um uma proposta do Macena, e a Blavatsky, da Cláudia Barral. Tem muitas conexões, e eu fico no meio das duas que, de certa maneira, me buscaram— observa Mel, que se prepara para atravessar a Avenida no carnaval de 2026 mais uma vez na pele da cantora, que será homenageada pela Mocidade Independente de Padre Miguel no enredo “Rita Lee, a Padroeira da Liberdade”.