Um dia antes de o Papa Leão XIV partir para a França, em setembro, em sua quarta grande viagem internacional desde o início do pontificado, a tripulação da aeronave que utilizaria, conhecida informalmente como “Pastor Um”, reuniu-se para aprender as regras inegociáveis do voo.
Encontros ‘refletem o desejo do Pontífice’: Papa se reunirá com vítimas de abusos da Igreja na América do Sul
Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp
Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países
— Nada de selfies com o Papa — diz Gennaro Anastasio, chefe de comissários de bordo, enquanto lista o que era permitido e proibido.
Se o Santo Padre oferecer a mão, aperte-a, mas não a beije. Não faça pedidos pessoais ao Pontífice, como solicitar orações para familiares. Verifique várias vezes ao longo do trajeto o banheiro na parte dianteira da aeronave, usado pelo Papa, e mantenha-o impecável. Evite falar diretamente com ele; dirija-se aos seus secretários pessoais.
E cuidado com os tratamentos formais. Os homens de batina preta com faixa vermelha e solidéu devem ser chamados de “Eminência”, tratamento reservado aos cardeais, o mais alto posto do clero abaixo do Papa. Já os homens com solidéu e faixa roxos são bispos e devem ser saudados como “Excelência”.
— Não cometam erros — brinca Anastasio, de 67 anos, acrescentando: — Mas, se você chamar um bispo de “Eminência”, ele vai dizer: “Não sou uma eminência”. Aí você pode responder: “Ainda vai ser!”
Gennaro Anastasio liderou equipes em mais de 80 voos papais, mas muitos membros dessas equipes serviram ao Papa apenas uma vez
Nadia Shira Cohen / The New York Times
Acima de tudo, diz ele, a tripulação deve atender a qualquer pedido dos passageiros do Vaticano.
— Não existe a necessidade de dizer “desculpe, não é possível”, “isso não é permitido” ou “não pode ser feito”. Aqui, faz-se. Sempre — afirma Anastasio.
Ao contrário do governo dos Estados Unidos, o Vaticano não possui aeronaves dedicadas nem um equivalente ao Air Force One. Em vez disso, o Papa sempre voa em companhias aéreas comerciais, geralmente na classe executiva de voos fretados operados por empresas regulares.
Há mais de seis décadas, a ITA Airways e sua antecessora, a Alitalia, são as companhias preferidas para o primeiro trecho das viagens internacionais dos Pontífices e, ocasionalmente, para outros deslocamentos. Anastasio já liderou tripulações em mais de 80 desses voos, embora muitos integrantes participem apenas uma vez. Agora, ele se prepara para a XIV próxima viagem do Papa à América Latina, uma jornada de 12 dias por três países com início nesta sexta-feira.
A aeronave da ITA que transporta o Papa Leão XIV decola rumo a Montevidéu para uma visita de 12 dias do Pontífice ao Uruguai, à Argentina e ao Peru
Filippo MONTEFORTE / AFP
No mês passado, o Papa Leão XIV passou por uma cirurgia para tratar um câncer de pulmão, mas seus médicos o liberaram para voltar a viajar.
Para a ITA Airways, ser a transportadora preferida do Papa é motivo de prestígio. As viagens internacionais estão entre os eventos mais visíveis de qualquer pontificado, permitindo que o líder da Igreja Católica encontre fiéis em seus países e demonstre o alcance global da instituição.
Joerg Eberhart, presidente-executivo da companhia, afirma que o papel não é garantido. A empresa disputa regularmente as licitações promovidas pelo Vaticano para os principais voos papais e, segundo ele, a operação dá prejuízo.
Essas não são viagens comuns. Para começar, quase sempre decolam rigorosamente no horário, algo que não aconteceu em mais da metade dos voos da ITA no ano passado. O código da aeronave papal, AZ4000, é instantaneamente reconhecido por torres de controle em todo o mundo, que liberam rotas prioritárias para garantir partidas e chegadas nos horários previstos.
Ao anunciar cirurgia: Leão XIV amplia transparência sobre saúde dos Papas e contrasta com histórico de sigilo do Vaticano
Isso significa que o avião pode deixar o portão e seguir diretamente para a pista assim que o Papa embarca e se acomoda em seu assento habitual, na primeira fila do lado esquerdo da cabine.
O Papa Leão XIV é visto na janela após embarcar em seu avião com destino a Montevidéu, para uma visita de 12 dias ao Uruguai, Argentina e Peru, no aeroporto de Fiumicino, em Roma, no dia 6 de novembro de 2026.
ilippo MONTEFORTE / AFP
As restrições normais para bagagem de mão costumam ser flexibilizadas. Durante o deslocamento até a pista, a tripulação dispensa anúncios e vídeos de segurança para que os jornalistas que acompanham o Vaticano possam trabalhar sem ruído de fundo. Todos os assentos, inclusive os da classe econômica onde viajam os repórteres, recebem um pequeno pano de encosto bordado com o brasão papal, um item bastante disputado como lembrança.
Em Roma, os aviões partem de um terminal reservado a voos fretados de autoridades no aeroporto de Fiumicino. Agentes da polícia militar italiana e da Guarda Suíça, responsável pela segurança do Vaticano, circulam pelos corredores. Bispos e cardeais são levados diretamente à pista e embarcam pouco antes do Papa, que chega de carro oficial preto ou de helicóptero e sobe a escada da aeronave sob flashes de câmeras.
Em ocasiões raras, porém, nem mesmo o voo papal consegue decolar no horário.
Initial plugin text
Quando o antecessor de Leão XIV, o Papa Francisco, partiu para Cuba em 2015, outro avião ficou parado na pista por problemas mecânicos, lembra Anastasio. Francisco sugeriu ao piloto simplesmente passar por cima da aeronave. Anastasio precisou explicar que isso não era possível. O voo saiu com 63 minutos de atraso, mas o piloto recuperou o tempo durante o trajeto e o pontífice chegou pontualmente ao primeiro compromisso em Havana.
Quando o Papa Leão XIV desembarcou em Camarões, em abril, Anastasio percebeu que o tapete vermelho com detalhes dourados colocado pelas autoridades locais na escada do avião estava torto em alguns pontos. Ele correu para endireitá-lo e evitar que o pontífice tropeçasse.
Cardápio
Talvez o detalhe mais importante de qualquer voo seja acertar o cardápio.
Em uma viagem recente à França, Anastasio precisou descobrir como encaixar o serviço de café da manhã em meio ao tradicional encontro individual do Papa com jornalistas num voo de menos de duas horas.
Leia mais: Papa Leão XIV não precisará de outros tratamentos após cirurgia de câncer, afirmam médicos
Ele calculou que a equipe teria no máximo 30 minutos para servir toda a cabine, da frente ao fundo. Portanto, seria necessário oferecer uma refeição que pudesse ser consumida em dez minutos ou menos.
Após consultar os chefs da ITA, o Vaticano aprovou uma bandeja com sanduíche de ovo mexido e bacon, fatias de presunto cru, queijos pecorino e primo sale, frutas, petits fours, um pão trançado e um croissant.
Para muitos jornalistas, trata-se de uma rara oportunidade de experimentar a classe executiva, com refeições servidas em pratos de porcelana, guardanapos de tecido, bebidas em copos de vidro, talheres metálicos e cardápios impressos em papel-cartão.
Anastasio gosta de incluir toques locais nos menus. Por isso, serviu croissants nos voos para a França e chocolates turcos comprados em Istambul nos voos de retorno.
Um exemplo de refeição servida em um voo papal
Nadia Shira Cohen / The New York Times
Durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI, segundo ele, os papas e suas comitivas recebiam refeições premium, enquanto jornalistas e funcionários leigos do Vaticano comiam o mesmo menu da classe econômica.
Tudo mudou quando Francisco embarcou em um desses voos, observou o serviço diferenciado para o clero e perguntou o que era servido aos jornalistas. Quando Anastasio mostrou as bandejas da classe econômica, ouviu a resposta:
— Eu não sou um rei.
A partir de então, os jornalistas passaram a receber as mesmas refeições servidas aos religiosos.
Um de capuz, outro de solidéu: como foi o encontro de Bob Dylan com Leão XIV
Ainda assim, Anastasio fazia questão de oferecer alguns agrados especiais a Francisco. Depois de descobrir que o Papa apreciava os biscoitos de limão da marca argentina Havanna, passou a levá-los em todos os voos. O Pontífice também costumava pedir refeições personalizadas, incluindo arroz com queijo Parmigiano Reggiano e limões de Amalfi preparados pelo próprio comissário a bordo.
Bento XVI, por sua vez, pediu certa vez uma mortadela artesanal de Campotosto, no centro da Itália, recorda Giovanni Bernardi, chef do principal fornecedor de refeições da ITA. Anastasio brinca que o prato quase provocou “um incidente diplomático”, já que o voo seguia para um país muçulmano, cujo nome ele preferiu não revelar.
Giovanni Bernardi, um chef que prepara as refeições servidas nos voos papais, organiza uma bandeja de comida no Aeroporto de Fiumicino, em Roma
Nadia Shira Cohen / The New York Times
E quanto a Leão XIV?
Segundo Anastasio, o novo Papa ainda não fez nenhum pedido especial.
— Ele é realmente simples — disse.
Nada de selfies, horário rigoroso e o mesmo cardápio para todos os passageiros: como é voar com o Papa Leão XIV
