A presença inédita de uma mulher, de um astronauta negro e de um não americano marca a tripulação da Artemis II, missão da Nasa que pretende levar quatro pessoas a um sobrevoo da Lua mais de meio século após o programa Apollo. A decolagem está prevista a partir de 1º de abril, na Flórida, com duração aproximada de dez dias.
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A missão não prevê pouso no satélite, mas repetirá um feito semelhante ao da Apollo 8, em 1968, ao contornar a Lua e retornar à Terra. Além do comandante, o americano Reid Wiseman, a tripulação será formada por Victor Glover, um homem negro; Christina Koch, uma mulher; e o canadense Jeremy Hansen, primeiro não-americano em uma missão da agência.
Designado como piloto, Victor Glover foi selecionado pela Nasa em 2013 e já esteve na Estação Espacial Internacional na missão SpaceX Crew-1, integrando a Expedição 64. Aviador naval e piloto de testes, acumulou 3.500 horas de voo, experiência em mais de 40 aeronaves e mais de 400 pousos em porta-aviões, além de 24 missões de combate.
Com formação em Engenharia Geral e mestrados em áreas como Engenharia de Testes de Voo, Engenharia de Sistemas e Ciências Operacionais Militares, Glover será, na Artemis II, o primeiro negro a viajar tão longe no espaço.
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Única mulher da tripulação, Christina Koch também foi selecionada em 2013 e atuará como especialista de missão. Engenheira de voo nas Expedições 59, 60 e 61 da Estação Espacial Internacional, ela detém o recorde de permanência contínua mais longa no espaço por uma mulher, com 328 dias.
Formada em Engenharia Elétrica e Física, participou das primeiras caminhadas espaciais exclusivamente femininas e ganhou projeção ao registrar uma “selfie espacial” com a Terra ao fundo, em 2019. Em missões futuras, pode se tornar a primeira mulher a pisar na Lua.
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Representante da Agência Espacial Canadense, Jeremy Hansen será o primeiro canadense a viajar até a região lunar. Ex-piloto de caça e instrutor, ele integra a equipe que realizará o sobrevoo, incluindo a passagem pelo lado oculto da Lua.
Além de Victor, Christina e Jeremy, que inauguram um novo perfil nas missões da agência, no comando da tripulação está o americano Reid Wiseman. Selecionado como astronauta da Nasa em 2009, Gregory Reid Wiseman foi convidado para a missão Artemis II há três anos.
Natural de Baltimore, no estado de Maryland, ele é formado em Engenharia de Computação e tem mestrado em Engenharia de Sistemas. Wiseman serviu como engenheiro de voo a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS) para a Expedição 41, de maio a novembro de 2014. Ele também atuou como chefe do Escritório de Astronautas da Nasa entre 2020 e 2022.
O voo também marcará a estreia tripulada do foguete SLS (Space Launch System), peça central da estratégia americana para futuras explorações lunares. O objetivo de longo prazo é estabelecer uma base permanente na Lua, que serviria como ponto de partida para missões mais distantes, incluindo Marte.
— Estamos voltando à Lua porque é o próximo passo em nossa jornada rumo a Marte — afirmou o comandante da missão, Reid Wiseman.
Batizado em referência à deusa Artemis, irmã gêmea de Apolo na mitologia grega, o programa busca testar tecnologias necessárias para viagens humanas mais longas e complexas. A Lua é tratada como etapa intermediária antes de uma eventual missão ao planeta vermelho.
A iniciativa ocorre em meio a novos movimentos internacionais. A China pretende enviar humanos à Lua até 2030, com foco no polo sul lunar, região considerada promissora em recursos naturais. Ainda assim, especialistas relativizam a comparação com a corrida espacial da Guerra Fria.
Para Matthew Hersch, da Universidade de Harvard, aquela rivalidade foi “única” e “não se repetirá por muito tempo”. Segundo ele, os chineses não estão “de fato competindo com ninguém, mas consigo mesmos”.
Apesar dos avanços tecnológicos, os riscos permanecem elevados. A nave ainda não foi testada com humanos, e a distância até a Lua — mais de 384 mil quilômetros — é cerca de mil vezes maior do que a da Estação Espacial Internacional. A própria Nasa reconhece os desafios da operação.
Ex-chefe de astronautas da agência, Peggy Whitson diz que “nada que não seja perfeito” é aceito.
— Caso contrário, estamos aceitando um risco maior — afirmou: — Esse é um processo importante que todos devem adotar para que possamos realmente ter sucesso, porque precisamos conviver com a consciência, por nossa história em voos espaciais, de que, quando ocorrem acidentes, pessoas morrerão.
Cronograma prevê sobrevoo lunar e futuras missões com pouso
Antes de seguir rumo à Lua, a missão realizará verificações e manobras próximas à Terra para reduzir riscos. Em seguida, a nave seguirá até o satélite, incluindo um sobrevoo do lado oculto, quando haverá interrupção das comunicações com a Terra.
A expectativa é que a tripulação ultrapasse a marca da Apollo 13 e se torne a que mais se afastou do planeta. O principal objetivo técnico é validar o desempenho do foguete e da nave para permitir, no futuro, uma missão com pouso lunar — prevista para 2028.
O cronograma, no entanto, depende de avanços ainda em desenvolvimento, como o módulo de pouso que será fornecido por empresas privadas ligadas a Elon Musk e Jeff Bezos. O programa Artemis já enfrenta atrasos e aumento de custos.
A nova missão também carrega peso simbólico. Em 1968, a Apollo 8 levou três astronautas à órbita lunar na véspera de Natal, em uma transmissão assistida por cerca de um bilhão de pessoas. A tripulação ficou associada à imagem “Earthrise” e recebeu crédito por ter “salvado 1968”.
Em um cenário atual descrito como de divisão e incerteza, a Artemis II surge com a ambição de repetir, ao menos em parte, esse impacto.
