Ney Matogrosso nadava de braçadas na aclamação da música “Homem com H” quando se sentou para conversar com a repórter Ana Maria Bahiana, em 1982. Lançado no ano anterior, o hit havia sido um ponto de inflexão para o cantor, que alcançou o status de fenômeno de público. Já em agosto de 1982 , o artista se preparava para iniciar a turnê do disco “Mato Grosso”, outro sucesso de vendas. Mas aquela entrevista iria bem mais longe do que um papo sobre o então novo LP.
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Uma das jornalistas mais respeitadas no showbiz, Bahiana sempre conduziu as entrevistas de forma a motivar reflexões profundas, muitas vezes filosóficas, dos maiores artistas da MPB. Isso fica claro em suas reportagens no site do Acervo O GLOBO. São registros pra eternidade.
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Ney lotava casas de shows no Brasil inteiro e vendia centenas de milhares de cópias dos seus discos. Durante aquela conversa, publicada no dia 29 de agosto de 1982, o cantor, que está completando 85 anos neste sábado, analisou o legado de seu antigo grupo, o Secos & Molhados, do qual ele tinha saído em 1974 (“mudou o modo como as pessoas se apresentam no palco”), falou sobre o que a imagem dele representava para o público nos anos 1980 (“vou continuar representando um desvio”) e revelou planos de abandonar a carreira (“com certeza, não vou ficar nessa vida pra sempre”).
Ney Matogrosso durante show do Secos & Molhados em Osasco, 1974
Arquivo/Divulgação
“O Secos & Molhados, e meu trabalho dentro do grupo, serviram pra mudar o modo como as pessoas se apresentam num palco. Caetano já tinha dado o toque, e por isso sofreu tanto — ele mexeu com as pessoas a nível de comportamento, propôs liberdade, fantasia. Eu levei isso adiante nos Secos & Molhados”, disse o artista. “Começando com minha voz fina — me lembro do espanto causava. As pessoas não sabiam se eu era um homem ou mulher, chegaram a dizer que era castrado. Hoje, quanta gente de voz fina existe por aí, cantando. Depois, o movimento em cena — todo mundo era muito duro, dava recital e não show, e eu sempre achei Isso muito chato. Hoje, está todo mundo solto por ai”.
Ainda segundo Ney, a curiosidade das pessoas naquela época sobre “o que eu sou” era “problema da sociedade”, das pessoas “presas, duras”. “Vou continuar representando um desvio do normal”, afirmou. “Tem gente que só compra meu LP junto com outro, pra esconder a capa e evitar comentários”.
O artista afirmou que não subia no palco atrás de aplausos. “Eu penso sempre que estou no palco com uma finalidade, para mexer com a cabeça das pessoas, fazer algum bem a elas, servir para expressar alguma coisa que elas têm dentro de si e, muitas vezes, não sabem. Ser aplaudido, ou não,’ não me interessa. Fazer esse trabalho é que é bom. E eu creio que já fiz minha parte. Depois de mim, mais gente virá, eu acredito nisso, para tornar os outros mais felizes, mais soltos, sei lá”.
Ana perguntou se ele, mesmo com todo sucesso, teria coragem de largar tudo. “Teria”, respondeu. “Eu sei que não vou cantar a vida toda. Por isso, não tenho medo de ficar velho e perder a voz — quando eu estiver velho, não vou precisar mais da minha voz para viver. Mais cedo do que multa gente pensa, eu largo essa vida doida de cantor. Agora, nesse minuto, estou consciente de que as somas de dinheiro envolvidas no meu trabalho são grandes, e não vou ser irresponsável e largar tudo no meio, porque outros dependem de mim. Mas, com certeza, não vou ficar nessa vida para sempre”.

