A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) investiga 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (Noia), uma doença rara que pode levar à perda de visão, entre indivíduos que fazem uso dos análogos de GLP-1, classe de medicamentos para diabetes e obesidade que ficou popularmente conhecida como canetas emagrecedoras, segundo informações do g1.
Esse monitoramento ativo por parte da agência sanitária é feito para identificar possíveis efeitos raros de medicamentos, que somente aparecem quando são utilizados por um amplo número de pessoas na vida real, acima dos poucos milhares que compõem os estudos clínicos. Ele é chamado de farmacovigilância e é um processo essencial para garantir a segurança dos remédios aprovados para uso no país e reavaliar a relação de custo-benefício do tratamento.
A Noia é uma doença ocular causada por uma inadequação ou interrupção no fluxo sanguíneo que abastece o nervo óptico, resultando em perda súbita da visão em um ou ambos os olhos. Ela é um desses possíveis efeitos coletarias identificados depois que os medicamentos passaram a ser utilizados por milhões de pessoas pelo mundo. Como precaução, a Anvisa já determinou, em junho de 2025, a inclusão da doença como uma reação “muito rara” na bula dos fármacos no Brasil, ou seja, que pode afetar até 1 em cada 10.000 pessoas.
“A decisão foi tomada após análises do Comitê de Avaliação de Risco em Farmacovigilância (PRAC) da Agência Europeia de Medicamentos (EMA), que identificou a Noia como um possível evento adverso da semaglutida”, disse a agência na época. Na ocasião, a Anvisa relatou ainda que investigava 52 notificações de suspeitas de distúrbios oculares relacionados à semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy.
No início daquele mês, a EMA havia feito o mesmo requerimento para os remédios vendidos na União Europeia. A investigação do PRAC analisou uma série de estudos, entre eles um trabalho conduzido por pesquisadores da Universidade de Harvard que encontrou um risco até 7 vezes maior entre pacientes em uso dos medicamentos atendidos num hospital oftalmológico.
“Resultados de diversos estudos epidemiológicos de grande porte sugerem que a exposição à semaglutida em adultos com diabetes tipo 2 está associada a um aumento de aproximadamente duas vezes no risco de desenvolver Noia em comparação com pessoas que não utilizam o medicamento”, disse a EMA, em nota.
O Comitê Consultivo da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a Segurança de Medicamentos (ACSoMP) também avaliou as evidências e concluiu que a Noia deveria ser incluída como um risco potencial nos documentos que acompanham os remédios. Isso não quer dizer, porém, que os fármacos sejam contraindicados ou deixem de ter um perfil de segurança favorável para a grande maioria dos pacientes.
“A OMS está emitindo este alerta de segurança devido ao uso global generalizado da semaglutida e à gravidade da Noia. Além disso, a OMS recebeu relatos individuais de segurança de casos de Noia após a administração de semaglutida de vários países por meio do VigiBase, o banco de dados global de eventos adversos relatados de medicamentos”, escreveu a organização em nota na época.
A Anvisa explicou que se trata de uma condição que pode ser irreversível e que exige atenção imediata: “Os profissionais devem alertar seus pacientes sobre este risco, mesmo que raro, e orientá-los sobre os sinais de alerta. Os pacientes que tiverem sintomas como perda repentina de visão, visão turva ou piora rápida da visão durante o tratamento com semaglutida devem procurar atendimento médico imediatamente. Caso a Noia seja confirmada, o tratamento deve ser interrompido”.
Ao g1, a Novo Nordisk, fabricante do Ozempic e do Wegovy, afirmou que “considerando a totalidade das evidências de ensaios clínicos, relatos pós-comercialização e estudos observacionais, juntamente com a taxa de incidência geralmente baixa de Noia, entende que o perfil de benefício-risco da semaglutida permanece favorável”.
Já a Eli Lilly, responsável pelo Mounjaro, disse manter “discussões contínuas com as autoridades regulatórias sobre possíveis temas de segurança” e que continuará “avaliando os dados, incluindo quaisquer informações relacionadas a questões oftalmológicas”. “Se alguém apresentar efeitos colaterais ao utilizar um medicamento da Lilly, deve conversar com seu médico ou outro profissional de saúde”, complementou.
Noia: o que é a doença rara que pode levar à perda de visão investigada como possível efeito raro das canetas emagrecedoras pela Anvisa?
