O último solo de Luis Fernando Verissimo
Na entrevista, Luis Fernando também tocou piano e, com seu jeito lacônico de sempre, falou sobre o casamento de décadas com Lucia e sobre a vida do casal na histórica casa que herdou do pai, o escritor Erico Verissimo.
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Verissimo não confiava em nenhum jazzista morto há menos de 25 anos. A frase foi tirada do livro “Conversa sobre o tempo”, de 2010. Mas a convicção era séria, e ia além da boutade. Ele a levava para a vida, apesar de alguns nomes da sua discoteca (como Miles Davis, Chet Baker e Dizzy Gillespie) terem morrido há pouco menos de 30 anos. Ainda assim, só o cativam as fases clássicas:
— Quando Miles Davis começou a usar sandálias, acabou para mim — explicou, referindo-se à fase fusion do trompetista.
Verissimo tocou sax durante anos na banda Jazz 6 — que, por ser um quinteto, nunca fez jus ao nome. Viajar com o grupo e tocar clássicos pelo país eram as atividades preferidas do autor. Porém, sucessivos problemas de saúde, como uma infecção generalizada e a implantação de um marcapasso, foram pouco a pouco afastando Verissimo dos palcos. A última apresentação do grupo foi em 2015.
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Verissimo e sua esposa, Lucia, brincaram sobre a sua nova rotina conjugal. O casal enfrentava pela primeira vez a síndrome do ninho vazio. O filho mais novo, Pedro, estava morandi no Rio; Fernanda, a do meio, em São Paulo; e Mariana, a mais velha, continuava em Porto Alegre, mas em outra casa.
— Agora, você é obrigado a falar comigo — disse Lucia ao marido, rindo.
— A Lucia tem que acompanhar minhas palestras para saber o que eu penso. Porque, aqui em casa, não consegue…
A ampla casa da família é hoje uma ilha em meio a um mar de concreto. O escritor lembrou que, quando se mudou para lá com os pais (o escritor Erico Verissimo e sua mulher, Mafalda), aos 10 anos, só havia terrenos baldios em volta. O pequeno Luis Fernando jogava bola na rua — algo que nos dias atuais seria praticamente impossível.
— Hoje tem a tal da especulação imobiliária, se constrói onde quer — lamentou o escritor. — Mas Porto Alegre ainda é uma cidade muito arborizada. Temos ipê roxo, ipê amarelo, depois vem a época dos jacarandás. O verde permaneceu, apesar de tudo.
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A mudança em Porto Alegre que mais o afetava na época, no entanto, era outra:
— Antigamente, havia um Centro que era o ponto de reunião das pessoas, a gente ia paquerar as meninas etc. Chamávamos de “fazer o footing”. O Centro hoje são vários shoppings.
Verissimo não escolheu ser filho de um dos maiores romancistas do país, mas também nunca renegou a influência do pai. Chegou a dizer, inclusive, que a “informalidade” da literatura de Erico (1905-1975) foi referência desde cedo. Acompanhou de perto o processo de escrita da saga “O tempo e o vento”. Após a morte do pai, manteve intacto o escritório onde costumava vê-lo corrigir rascunhos de seus livros.
— Ele escrevia em outro cômodo, lá embaixo — recordou. — Batia à máquina rapidamente, não sei se fez algum curso de datilografia. Depois trazia o trabalho aqui para cima e ficava corrigindo. Eu lia o papel assim que era tirado da máquina, quentinho do forno.
O tal cômodo ao qual Verissimo se referiu é uma toca no subsolo, que ainda existe. Ele a transformou em seu próprio espaço de trabalho, onde desenhava, escrevia e guardava livros, discos e lembranças. Como o totó (em Porto Alegre se diz “fla-flu”) no qual enfrentou Elias Figueroa — lendário zagueiro do Inter nos anos 1970, que costumava frequentar sua casa para partidas noturnas.
Após a reportagem, Verissimo teve mais problemas de saúde. Em 2020, retirou um câncer na mandíbula, e no ano seguinte teve um AVC isquêmico que lhe trouxe sequelas e o afastou do ofício de escritor. Ele também convivia com o o mal de Parkinson e tinha problemas cardíacos. Em entrevistas, a mulher do escritor, Lucia Verissimo, afirmou que ele quase já não falava e se comunicava somente com poucas palavras em inglês.
O escritor estava internado desde o dia 11 de agosto no no Centro de Terapia Intensiva do Hospital Moinhos de Vento, devido a uma pneumonia, quadro que se agravou nos dias seguintes, e faleceu às 0h40 deste sábado.