O relógio acabara de cravar meia-noite do dia 31 de agosto de 1997 quando um carro Mercedes-Benz entrou em alta velocidade no Túnel d’Alma, em Paris, perdeu o controle e se chocou violentamente contra um pilar. Somente seis horas depois o governo francês anunciou que, entre os três mortos, estava a princesa de Gales, Diana Spencer. Aos 36 anos, ela vivia separada do hoje rei Charles e estava acompanhada do namorado, o produtor egípcio de cinema Dodi Al-Fayed, também morto no veículo que tentava fugir de fotógrafos.
Uma das mulheres mais reconhecidas e fotografadas do mundo e defensora de causas humanitárias tinha um carisma que a tornou admirada não apenas pelos britânicos. “Ela era a princesa do povo”, disse o então primeiro-ministro Tony Blair, ao lamentar a perda.
— Um símbolo de nobreza, de humanidade, de amor, de afeto, de caridade — completa hoje Tadeu Aguiar, que vai dirigir “Diana, a princesa do povo”, musical que estreia em 27 de fevereiro de 2026 no Teatro Multiplan, no Rio, e cujo anúncio oficial acontece hoje, quando se completam 28 anos da morte da princesa.
Com música e letras de David Bryan (tecladista do Bon Jovi) e Joe DiPietro, também autor do libreto, o espetáculo que estreou na Broadway em 2021 acompanha Diana a partir de 1980, quando conheceu Charles. Período que traz a mistura perfeita de estrelato, tragédia e perguntas sem respostas.
— No início, há uma cena emblemática em que o príncipe leva a então namorada para o concerto de um violoncelista que, na cabeça dela, ganha uma versão punk-rock, mais alinhada aos seus interesses — afirma o produtor Eduardo Bakr. — Diana era Elton John, Fred Mercury. Músicos que ela gostava e dão o tom pop ao espetáculo.
É nesse concerto que Diana conhece Camilla Parker Bowles, amante cada vez menos secreta de Charles e que vai pairar como uma sombra durante todo o seu casamento.
— Ela era uma menina quando se apaixonou e viveu à espera desse amor até finalmente acontecer. Com a morte da Diana, passou por momentos difíceis, sofrendo acusações, mas resistiu com um humor autodepreciativo para enfrentar a rejeição que sofreu quando a princesa ainda estava viva e também depois da morte dela — conta a atriz Giselle de Prattes, intérprete de Camilla, hoje rainha consorte do Reino Unido.
Tadeu Aguiar assistiu às primeiras exibições de “Diana” na Broadway e, embora empolgado com a história, fez restrições à montagem, que considerou exagerada.
— Havia muito dourado, cenários com móveis pesados, o que desviava a atenção da profundidade dos personagens — conta o diretor que, em sua versão brasileira, acrescentou “uma certa sujeirinha”, como define. — Uma vaga lembrança das brigas públicas entre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, por exemplo. Mesmo mantendo toda a fleuma, as pessoas não brigam com tanta elegância.
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O encenador pretende evitar um dualismo entre as duas protagonistas, entendendo que Camilla não é propriamente uma vilã e tampouco Diana pode ser santificada.
— São duas mulheres que enfrentaram muitos obstáculos para conquistar o que desejavam. Enquanto Camila sofreu anos para ter o homem que amava, Diana se frustrou ao realizar o desejo de se casar com o príncipe — considera.
É com a imagem dessa mulher com olhar erguido, uma tristeza desconhecida e uma simpatia perfeita que a atriz Sara Sarres pretende encenar o papel de Diana. Com larga experiência no teatro musical (participou de montagens como “O fantasma da ópera”, “West Side story” e “O homem da La Mancha”, entre outras), ela observa a princesa como a figura que soube romper o protocolo real de uma forma astuta e até carinhosa.
— Seu grande diferencial foi ser um membro da realeza que tocava o povo e permitia ser tocada. Diana também abraçava causas sociais em uma época em que era difícil para uma mulher ter a própria voz — explica a atriz.
Seu trunfo é a voz de soprano — no linguajar dos musicais, Sarres é classificada como “crossover”, ou seja, apresenta-se bem como “belter”, o tom característico dos musicais, e como “legit”, mais leve e específico da ópera.
— Diana tinha uma voz muito doce. Assim, penso em costurar essa docilidade da fala com os momentos em que a emoção exige mais força na expressão vocal — conta.
Os olhos da plateia também estarão focados em Simone Centurione, que viverá a mulher que fecha o triângulo em torno de Charles: sua mãe, a rainha Elizabeth II. Inicialmente favorável ao casamento do filho com Diana, a monarca logo percebeu que a nora rompia as tradições seculares do Palácio de Buckingham, tornando gélida a relação entre elas.
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A morte inesperada de Diana, porém, e a consequente comoção mundial colocaram em xeque a família real, especialmente Elizabeth, criticada pela falta de empatia e por dar uma resposta lenta à tragédia.
— Como rainha, ela precisava seguir protocolos, aparentar a dureza de uma rocha — defende Centurione. — O que não significa que essa mulher não tivesse sentimentos, mas o silêncio dela é o que mais me impressiona, ali morava sua força e é a característica que vai marcar minha atuação.
Mais habituada a papéis humorísticos, Centurione pretende usar o olhar e a postura para trazer algum alívio cômico a uma personagem tão austera. Para ela, o momento mais difícil enfrentado por Elizabeth aconteceu no início de seu reinado, em 1952, quando percebeu que teria de abrir mão da rotina de uma pessoa normal para se tornar monarca.
— De repente, um turbilhão de obrigações caiu sobre suas costas, tornando-a uma mulher que precisava se manter sempre dura e não se render ao pedido dos outros — diz ela.
Uma das falas da personagem, aliás, que vai ajudar a atriz a praticar seu humor, traz um desabafo de Elizabeth diante da profusão de escândalos envolvendo a família real e divulgados pela imprensa sensacionalista: “Que saudade daquele tempo em que a gente mandava cortar a cabeça dessas pessoas.”
Em meio ao atrito entre essas três mulheres em disputa destaca-se Charles, atual rei do Reino Unido.
— Sempre me pareceu ser um homem fragilizado, cercado por mulheres muito fortes e com dificuldade de tomar decisões sozinho — observa seu intérprete, o ator Cláudio Lins. — Charles não foi sensível às questões relacionadas a Diana, mas não devemos cravar a vilania nesse personagem. Ao contrário, temos de encontrar a humanidade, até porque todo vilão é humano.