Oito anos atrás, o diretor Renato Terra, conhecido pelos documentários “Uma noite em 67” (de 2010, sobre o festival da canção que revelou nomes como os de Caetano Veloso e Chico Buarque) e “Narciso em férias” (2020, sobre a prisão de Caetano, em 1968, por ordem do regime militar), recebeu uma ligação do amigo Marcos Caetano, que lhe disse, a seco: “Cara, você tem que fazer um documentário sobre o ‘Alucinação’!”
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Era o LP de 1976 com o qual o cantor e compositor cearense Belchior (que havia morrido pouco antes, em 2017) encontrou o seu lugar na música popular brasileira, com um brilhante retrato do Brasil, em canções como “Apenas um rapaz latino-americano”, “Como nossos pais”, “Velha roupa colorida” e “Sujeito de sorte” (que seria relida com sucesso, em 2019, pelo rapper Emicida).
Por estes dias, quando o disco completou 50 anos, e Belchior estaria à beira de chegar aos 80 (no próximo dia 26), Renato, Marcos e Leonardo Caetano chegam com “Alucinação” — filme cuja primeira sessão acontece este sábad, às 17h, no Estação Claro Gávea, dentro do Festival do Rio.
É a primeira de uma série de homenagens ao artista, que ainda será lembrado com shows, livros e pelo menos mais um filme: “Viver é melhor que sonhar”, road movie de Eduardo Albergaria, que estreia em 3 de dezembro e fala dos últimos anos do cearense, nos quais ele se retirou da vida artística e saiu por aí, de paradeiro desconhecido, levando seus fãs até mesmo a criar o movimento Volta Belchior.
Cena do documentário “Alucinação”, sobre disco do cantor Belchior, de Renato Terra, Marcos Caetano e Leonardo Caetano
Reprodução
Renato Terra conta que, desde o começo, não queria fazer “um documentário que parecesse um extra de DVD, que falasse das faixas e tocasse as músicas”.
— Mas eu não sabia muito bem o que fazer. Então, comecei a ouvir “Alucinação” obsessivamente. Fiquei mais de um ano assim ouvindo o disco, todo dia — conta. — E aí me deu um estalo de que o disco é um roteiro pronto. Que começa ali com “Apenas um rapaz latino-americano”, que é o Belchior se apresentando. Depois, vem o “Velha roupa colorida”, em que ele apresenta a utopia dele. E aí chega “Como nossos pais”, em que ele diz como é que essa utopia não deu certo. Belchior vai jogando com o desejo dos jovens contra a opressão da ditadura e do conservadorismo. Tem uma estrutura ali, as músicas se encadeiam, os arranjos são parecidos, tem um conceito.
Do estalo, seguiu-se um trabalho, de mais de sete anos, com a montadora Jordana Berg, em cima de imagens de arquivo, a fim de reconstruir o ambiente vivido por aquela geração para quem, como dizia Belchior, a realidade era “uma verdadeira alucinação”.
— A gente testou uma ordem cronológica, começando por janeiro de 76, indo até dezembro de 76, e foi sentindo o que cada música pedia. O disco foi dando o roteiro, de como adequar essa questão da imigração com as novas ideias do jovem que estavam surgindo — conta Renato Terra. — Foi um trabalho muito grande, ver 40 edições do Globo Repórter da década de 70, muito documentário, fazer uma pesquisa muito grande. Para cada imagem que a gente selecionou, foram vistos oito, dez filmes até chegar naquela cena. Foi um trabalho de formiguinha, de encaixar todas essas coisas.
Capa de “Alucinação” (1976), LP do cantor e compositor Belchior
Reprodução
Renato observa que, 50 anos após o LP “Alucinação”, muitas coisas no país continuam iguais e outras mudaram, mas existe “uma ideia de Brasil que se perdeu no meio do caminho.”
— Adoraria que as pessoas saíssem do cinema com essa pergunta: onde é que a gente perdeu essa ideia de país que olhava para o futuro, que imaginava uma nova maneira de viver em sociedade? — propõe. — Esse filme é muito oportuno para este momento em que a gente, independentemente do espectro político, está muitas vezes olhando para o passado e esquecendo de criar um novo imaginário. Mas muita coisa se renovou. Quando Emicida regrava o “Sujeito de sorte”, ele ressignifica a música, leva a esperança contida ali para a periferia, para um outro tipo de sonho que não havia na primeira leitura do disco.
A conexão do jovem de 2026 com as ideias do artista — seja via Emicida, com o “Volta, Belchior” (que virou bloco de carnaval), seja com os memes feitos com frases de suas músicas — mostra, para Renato Terra, a razão de o documentário “Alucinação” ter sido feito.
— O filme entra em cartaz num momento em que as suas ideias estão muito em carne viva, com a necessidade de renovar o debate político, de trazer novas ideias, de decantar uma certa melancolia política, uma certa frustração, uma certa raiva — conta ele, que também lança, pela editora Cobogó, um livro sobre o disco. — Ele é também uma decorrência desses oito anos de pesquisa, escrevi junto com o Rodrigo Salgado, que é um músico. Nele, a gente faz uma análise mais profunda, assim, de cada uma das músicas, que têm muitas referências dentro delas.
Cena de “Viver é melhor que sonhar”, cinegiografia do cantor Belchior, de Eduardo Albergaria
Divulgação
Diretor de “Nosso sonho” (cinebio, de 2023, dos astros do funk Claudinho e Buchecha), Eduardo Albergaria diz que Belchior “é uma chave de leitura para quem somos”.
— Acho muito curioso que ele seja uma espécie de profeta que se calou no final da vida e, curiosamente, voltou a ser ouvido. Belchior tem uma obra que dialoga com esse seu último momento, esse momento do silêncio. Esse gesto dele, de transformar em obra no final da vida, nos convida a uma reflexão — analisa o cineasta, que volta com “Viver é melhor que sonhar”.
Estrelado por Luiz Carlos Vasconcelos e Isabela Garcia (nos papéis de Belchior e da mulher, Edna), o filme é parte de uma trilogia que começou em agosto, com a estreia no Globoplay da série “Alucinação” (sobre “o caminho do Antônio para virar o Belchior que a gente conhece, um ponto de vista do jovem Belchior”) e termina com um documentário (ainda a ser feito). Tudo, segundo ele , “fruto desses últimos dez anos estudando, tentando entender essa mitologia” do compositor.
— Fui visitar 78 pessoas que receberam Belchior no fim da vida. E, desses depoimentos, a gente acabou evoluindo para um filme e uma série. São dois pontos de vista de uma história — conta. — Eu ainda estava montando o “Nosso sonho” quando fui atravessado por um artigo escrito pelo Marcelo Bortoloti, “A Divina Tragédia de Belchior”. A gente estava num período muito duro, de pandemia e de todas as outras questões que a gente viveu no Brasil. Me parece que todos nós, em algum momento, também queríamos fugir. Isso virou uma espécie de obsessão para mim, e aí começou uma jornada que resultou nesses dois recortes.
Eduardo Albergaria promete uma “revelação” para quem for assistir a “Viver é melhor que sonhar” — título também de um livro sobre as últimas andanças de Belchior, escrito por Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti, que está sendo relançado pela Garota FM para os 80 anos do artista
— Foram 78 as casas que a gente visitou, casas que acolheram Belchior nesse final da vida, onde ele viveu um pouco da gentileza de estranhos, dos seus próprios fãs. Lembro até hoje do momento que tomei conhecimento de uma revelação que foi aquele momento de “eureka!” do filme — diz, fazendo mistério, Eduardo. — O filme é o resultado dessa jornada, desse mergulho tentando entender Belchior a partir de diversas hipóteses. Acho que ele responde algumas questões.
Vannick Belchior
Elena Hilário/Divulgação
Quem também está celebrando o aniversário redondo do compositor é a filha Vannick Belchior, de 29 anos.
— Meu pai sempre quis que eu fosse cantora, a gente sonhou isso junto. Sou a filha caçula — diz ela, que no último dia 4 pôs no streaming seu disco de estreia, com o primeiro volume de “Meu nome é Cem”, de que vem fazendo shows. — Nele, trago só composições do meu pai. Algumas, canções clássicas, mas também achei muito justo mostrar outras que são igualmente importantes, como “Notícia de terra civilizada”, uma parceria com o (guitarrista) Rick Ferreira, que inclusive produziu para mim a música. E “Monólogo das grandezas do Brasil”, em feat com Renato Teixeira, que era um grande amigo do meu pai e que, inclusive, conta muitas histórias no clipe que a gente gravou.
Este mês ainda, Vannick pretende soltar um vídeo documental, no qual grandes amigos e artistas falam sobre o pai. Estarão nele nomes como Serginho Groisman, Gilberto Gil, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho e o compositor Fausto Nilo .
— Meu pai deixou muita saudade, tinha uma legião de fãs. Ele fazia show praticamente de domingo a domingo, e eram shows lotados, as pessoas queriam Belchior. E foram dez anos de afastamento total. Sem se despedir, sem dar tchau — diz Vannick. — Lamento que meu pai não teve essa sorte de acompanhar, pelo menos nessa matéria aqui em vida, todas as homenagens. Acredito que a forma de vida a que ele escolheu nos últimos dez anos trouxe esse olhar de coragem, e isso fez muita diferença para esse pós-morte dele. Isso fez com que as pessoas enxergassem o Belchior do tamanho que ele realmente teve.
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Para ela, o pai “foi redescoberto pela mensagem, pela necessidade, pela urgência de falar sobre o Brasil”. Algo que ele mesmo nunca esperou ver.
— Eu canto há quatro anos no Volta Belchior, que reúne 150 mil pessoas. É muita gente. As pessoas cantam as músicas dele, botam o bigode, se fantasiam de Belchior. Outro dia, eu estava em São Paulo e vi um menino de 16 anos que fez uma festa de aniversário com tema de Belchior! E ontem mesmo compartilhei um vídeo de uma menina de 8 anos cantando “Como nossos pais” — conta. — Meu pai sempre falou uma coisa que levo para a minha vida: “A fama é algo muito efêmero, mas a glória é o que fica.” Ele conseguiu a glória.
Nos 80 anos do seu nascimento, e 50 do seu álbum mais clássico, Belchior revive
