A terceira temporada de “A Era Dourada” chegou à Max. É a volta dos vestidos farfalhantes e dos cenários suntuosos à luz de velas (e com esse escurinho agravado por pesadas cortinas de brocado nas janelas). Trata-se também de uma oportunidade de apreciar o desempenho de Carrie Coon (Bertha Russell), suntuosa, no domínio absoluto de uma personagem bem diferente da que foi vista recentemente em “The White Lotus”. Era uma estreia aguardada — e que não decepcionou.
A série é criação de Julian Fellowes, autor de “Downton Abbey”. Como na produção britânica, esse enredo mistura um painel histórico a deliciosos conflitos privados. A narrativa nos leva a um período de formação dos Estados Unidos. A ação se desenrola no final do século XIX, numa Nova York cujo desenho cartográfico começava a se parecer com o de hoje. É um período marcado pela industrialização, pela sedimentação de grandes fortunas, pelo estabelecimento dos sindicatos e pelas relações de trabalho se organizando.
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Na esfera dos dramas sociais estão o racismo e o machismo. Fala-se muito em casamentos arranjados. A discussão sobre a submissão feminina a um destino que equivale a uma condenação está no centro da história. E há uma jovem escritora que sofre preconceitos na sua jornada profissional por ser negra, Peggy (Denée Benton). Sua melhor amiga é a protagonista, Marian (Louisa Jacobson, filha de Meryl Streep).
No final da temporada passada, Agnes (Christine Baranski), que era rica e poderosa, perdeu tudo. A família escapou da miséria no último minuto, salva por uma herança inesperada recebida por Ada (Cynthya Nixon) ao ficar viúva. Com isso, a dinâmica familiar se reconfigura. Com isso, Agnes deixa de mandar na casa e em Ada, sua irmã, que agora é quem dá as ordens. Essa virada de jogo é um dos pontos mais saborosos da reestreia. Com essa trama, o roteiro mergulha com gosto no melodrama. É a revanche e o triunfo de uma personagem que antes era mais frágil e maltratada.
A série também é carregada de frases de efeito. “A felicidade é um subproduto pobre e serve só para quem leva uma vida sem ambição”, diz a mãe que quer arranjar um “bom casamento” para a filha. Ou “Na América você não precisa viver da mesma maneira que seus pais”, lembra um rapaz que deseja ascender socialmente. “A Era Dourada” toca em temas sensíveis, aborda questões históricas e tem maldades e armações. Mas lembra muito “Downton Abbey” na maneira “amaciada” como retrata os conflitos: ela não tem a intenção de incomodar o público com sofrimentos ou questionamentos. Seu principal propósito é encantar — e isso, convenhamos, não é demérito algum.
P.S.: Recomendo também “Guerreiros do Sol”. A novela é assinada por George Moura e Sergio Goldenberg e tem direção artística de Rogério Gomes, um trio de talentos que dispensa apresentações. E o elenco é todo brilhante. Está no Globoplay.
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