Dona de faculdades como IBMR, Anhembi Morumbi e Inspirali, a Ânima enxerga as novas regras do Ministério da Educação (MEC) para o ensino superior como uma “oportunidade de crescimento”, sustenta a CEO Paula Harraca. Menos exposto ao segmento de EaD — ensino à distância, alvo das principais mudanças — do que rivais como Ser, Cogna (Kroton) e Yduqs (Estácio), o grupo diz que terá que fazer apenas “ajustes finos” para se adaptar às novas regras. Segundo Harraca, com o decreto, a Ânima vai robustecer a oferta de cursos semipresenciais, que acabam de ser regulamentados e que a executiva classifica de “avenida de crescimento”.
O novo marco regulatório foi assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva há duas semanas. Entre várias mudanças, o decreto proíbe cursos de graduação 100% à distância — pelo menos 20% da carga horária deverá ser realizada presencialmente — e determina que cursos de Medicina, Direito, Odontologia, Enfermagem e Psicologia sejam oferecidos exclusivamente no formato presencial.
Os demais cursos das áreas de saúde (como Farmácia e Fisioterapia) e as licenciaturas deverão ser presenciais ou semipresenciais, desde que a carga horária à distância não ultrapasse 50% do total. O marco também regulamentou pela primeira vez a modalidade semipresencial, que já vinha sendo oferecida pelos grupos de ensino privado, mas não tinha regras definidas. As instituições terão até dois anos para se adaptar.
— Não teremos que fazer grandes adaptações porque já vínhamos trabalhando em uma reengenharia da nossa oferta. Já no próximo semestre, 80% da nossa base terá o currículo totalmente adaptado ao novo marco, porque já vínhamos implementando mudanças na direção do que foi decidido pelo MEC. Acompanhávamos as discussões, sabíamos para onde iam os ventos. E, sobretudo, as novas regras coincidem com nossa visão de educação — disse a executiva à coluna.
Paula classifica o novo marco de “passo importante na direção certa”.
— O marco é oportunidade, não é um problema. Ele traz a educação para uma experiência de maior qualidade, que torna o aluno protagonista, em vez de oferecer apenas ganhos de escala. Ele não é um divisor de águas entre o presencial e o ensino à distância. É um divisor de águas entre o que fazia sentido e o que não fazia. Muitas vezes, o ensino à distância oferecido se resume a um PDF e a um vídeo pronto. Defendemos que a experiência acadêmica se dá com a ‘presencialidade’. Isso nos dá uma vantagem — acrescentou a executiva, argentina de Rosário que fez carreira na siderúrgica ArcelorMittal antes de assumir a Ânima no ano passado.
Entre as mudanças feitas antes das novas regras está o enxugamento da grade de cursos EaD. O curso de gestão à distância da Anhembi Morumbi, por exemplo, foi encerrado, disse a executiva. A Ânima também vem aumentando a tal “presencialidade” de sua base de alunos desde 2024, afirmou.
— Hoje, entre os calouros, 70% já estão no presencial. Já enxergávamos que o setor caminhava para o modelo híbrido. Vemos uma avenida de crescimento no semipresencial, que foi regulamentado pela primeira vez neste marco do MEC. Estamos olhando marca a marca, território a território, para saber como explorar essa oportunidade. Outra rota de crescimento está no “core”, que é o presencial.
Relatório do Itaú BBA distribuído a clientes nesta quinta-feira mostrou que, entre seis grupos de educação analisados, a Ânima é o que tem, com folga, a menor exposição ao segmento de EaD.
A modalidade responde por 34,3% da base de alunos de graduação e por apenas 7,9% das receitas líquidas do grupo. No extremo oposto está a Vitru Educação, dona da Uniasselvi, com 97,5% da base no ensino a distância, representando quase 71% das receitas. Na Cogna, os percentuais são, respectivamente, 83,4% (da base de alunos) e 52,8% (das receitas); na Cruzeiro do Sul, 68,1% e 32,1%; na Yduqs, 61,7% e 30,9%; e na Ser (dona de marcas como a Uninassau), os percentuais são de 46,5% e 18,1%.
(Não à toa, o CEO da Ser, Jânyo Diniz, também vem dando entrevistas nos últimos dias nas quais elogia o novo marco e o classifica como uma “oportunidade”.)
O banco analisou qual seria o impacto no Ebitda (geração de caixa) dos grupos de educação na adaptação às novas regras. Caso não repassasse nenhum dos custos aos alunos, a Ânima teria que absorver um ajuste de 6%; na Cogna, o impacto seria de até 13%; na Yduqs, de 9%; e na Vitru, de 29%.
“A empresa mais impactada seria, naturalmente, a Vitru, por ter a maior exposição a cursos de ensino à distância. Por outro lado, a Ânima, com a menor exposição a cursos digitais entre as empresas listadas, seria a menos afetada pelas novas regras”, escreveram os analistas do Itaú BBA.
Até poucos anos atrás, a Ânima não oferecia cursos 100% EaD — e, inclusive, lamentava esse vazio, enquanto concorrentes faziam a modalidade explodir. (Nos últimos oito anos, o número de matrículas quase triplicou, para 4,9 milhões de alunos.) A chave virou quando a companhia comprou os ativos da Laureate por R$ 4,4 bilhões, em 2021, absorvendo marcas como a Anhembi Morumbi e IBMR. A Laureate tinha cerca de 70 mil estudantes em cursos à distância.
Mas, segundo Paula Harraca, o novo marco para o setor sacramenta uma “volta às origens” para o grupo, que surgiu em 2003 a partir da compra do Centro Universitário Una, em Belo Horizonte.
— A Ânima voltou, depois das crises simultâneas dos últimos anos, com mudanças no Fies, pandemia e cenário macroeconômico. Os números confirmam a recuperação, e o novo marco dá força a essa pauta. Os elementos de qualidade reforçados pelo marco fizeram parte da Ânima desde sua origem, mas as crises e a absorção da Laureate vinham concentrando grande parte dos nossos esforços. Agora, essa fase passou — sustentou a executiva.
A Ânima vale R$ 1,6 bilhão na Bolsa. No último mês, acumula alta de 31%; no ano, a alta é de 156%. Mas a ação ainda está mais de 70% abaixo do pico de preço, registrado em meados de 2021.

