Tradicional porta de entrada para brasileiros na Europa, Portugal já chegou a abrigar 173 jogadores do país numa única temporada (2018/19), apenas na primeira divisão. Era pouco mais de um quarto do total de atletas em toda a competição. Desde então, esta parcela vem caindo. Agora, são 98. E o país não é uma exceção. Este movimento tem sido registrado em boa parte do Velho Continente.
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A comunidade verde e amarela está encolhendo nas principais ligas da Europa. Levantamento do GLOBO nos 12 países que tradicionalmente mais recebem os brasileiros no continente capturou este fenômeno. A temporada 2025/26, que acabou de começar, concentra 278 na Inglaterra, Espanha, Itália, França, Alemanha, Portugal, Holanda, Turquia, Rússia, Ucrânia, Grécia e Bélgica. É o número mais baixo desde 2000/01, quando havia 232. Ou seja, um recorde negativo de 25 anos.
A redução também é evidente nas cinco principais ligas europeias. Hoje, elas concentram 76 brasileiros, número mais baixo em todo este século. Na temporada 2007/08, chegaram a ser 157. Uma queda puxada por quase todos os países do quinteto, com exceção da Inglaterra.
A Alemanha hoje conta com apenas nove. França e Espanha têm, cada um, dez. Já a Itália, que chegou a ter 50 em 2013/14, registra 15.
Ao longo do século, o número de brasileiros já oscilou em cada país e no total das 12 ligas. Ele disparou no começo do século e chegou a um recorde de 458 em 2007/08. De lá para cá, caiu e voltou a crescer, ultrapassando a barreira dos 400, em alguns momentos. Mas, nos últimos anos, a redução tem sido contínua.
Isso não significa que os brasileiros deixaram de ser desejados. O último relatório da Fifa mostra que o país segue como o maior exportador de atletas em todo o mundo: foram 1.113 transferências em 2024. Levando em consideração as transações internacionais em todos o planeta, e não apenas aquelas envolvendo um clube daqui, a nacionalidade lidera também tanto em quantidade (2.350) quanto em valores gastos: 1,19 bilhão de dólares. Se continuam em alta, para onde eles estão indo então?
Na verdade, não se trata de um fluxo único. O mercado global de futebol passa por transformações, o que se reflete diretamente na movimentação dos brasileiros.
A MLS, nos EUA, se tornou um destes destinos. Hoje, são 33 brasileiros por lá. Assim como o Oriente Médio, liderado por Arábia Saudita, Emirados Árabes e Catar.
O próprio Brasil também se valorizou Que o digam contratações como as de Kaio Jorge, que em 2024, com 22 anos, foi comprado pelo Cruzeiro junto à Juventus-ITA; e de Andreas Pereira (29) e Samuel Lino (25), que recentemente trocaram Fulham-ING e Atlético de Madrid-ESP por Palmeiras e Flamengo, respectivamente.
— Acho que o mercado brasileiro tem crescido muito — afirmou Lino em sua apresentação no Flamengo. — Quando o projeto é bom e vai fazer você crescer, não tem idade.
Agentes de futebol ouvidos pelo GLOBO apontam a organização financeira de alguns clubes e a entrada das SAFs como um divisor de águas. A injeção de dinheiro ocorrida desde então elevou o poder de compra, trouxe melhorias estruturais e inflacionou salários de uma maneira geral. Numa tacada só, fez com que atletas repensassem o desejo de sair e aqueles que estavam na Europa passassem a ver o retorno com bons olhos.
— O atleta que joga num nível alto no Brasil ganha um salário alto que torna difícil a ida dele para a Europa. As opções ficam mais restritas. Antes, por exemplo, você via com mais frequência um jogador do Flamengo indo para um time de meio de tabela da Itália. Hoje ele não vai — reflete o agente Fifa Roberto Dantas, do escritório RRSports, que explica a situação de Portugal:
— Sem ser os três grandes (Benfica, Sporting e Porto), o resto hoje briga em salários com os clubes da Série B no Brasil. E o jogador da elite daqui já não quer ir para lá como antes. Prefere tentar chegar na Série A do que ir para Portugal, a não que seja para um dos grandes.
Enquanto Portugal perde poder de atração, ligas periféricas passaram a receber mais brasileiros. Neste sentido, chamam a atenção a Indonésia, que saltou de 23 há cinco anos para impressionantes 66; e a Coreia do Sul, hoje com 34.
Na própria Europa, países pouco conhecidos passaram a receber os brasileiros de forma pulverizadas. São destinos como Sérvia, Romênia, Chipre, Armênia, Letônia, entre outros. Não são ligas atraentes pela estrutura ou nível técnico. Mas por terem se tornado capazes de oferecer salários iguais ou melhores que os dos pequenos de Portugal, por exemplo, e uma esperança de ascender na carreira. Influência da chegada das redes multiclubes.
O agente Fifa Breno Chartier, do escritório Dunkirk Sports, conta que times destes países estão sendo comprados por grupos que também têm propriedades na Inglaterra ou na Espanha. E passaram a ter como atrativo a possibilidade dos atletas impressionarem os donos e ganharem uma chance nas equipes mais famosas.
— Vendemos agora um atleta do Santa Clara, de Portugal, para um time da Escócia cujo dono é o mesmo do Brighton. Então o propósito é performar e depois ir para a Premier League. Muitos projetos são assim hoje. São muitas holdings — conta, referindo-se ao meia brasileiro Eduardo Ageu, contratado pelo Hearts por 2 milhões de euros.
Só o surgimento de ligas mais atraentes não explica a saída de brasileiros do centro europeu. Ainda que continuem valorizados, eles ganharam a concorrência de outras nacionalidades, como franceses, espanhóis, marroquinos e senegaleses.
— É evidente que já é possível formar atletas aptos a atuar nas principais ligas do mundo em dezenas de países, e não mais em um grupo restrito de uma dúzia deles. Não só a audiência se globalizou, mas também, a “indústria de formação” de atletas — opina Thiago Freitas, diretor de operações da Roc Nation Sports Brasil, responsável pela carreira de atletas como Vini Jr.