À primeira vista, o nome Zaho de Sagazan sugere uma personagem de histórias cabalísticas, repletas de feitos mágicos e sobrenaturais. Mas, na realidade, nada tem a ver com a literatura fantástica, e sim com a cantora e compositora francesa que tem cativado plateias pelo mundo com sua espontaneidade cênica e voz grave. Zaho, no entanto, contabiliza proezas dignas de uma maga de outros tempos. Aos 25 anos, coleciona os principais prêmios da música francesa com seu álbum de estreia, “La symphonie des éclairs” (A sinfonia dos relâmpagos), lançado em 2023. Em sua turnê mundial que já avizinha os 400 shows, o público canta e dança em uníssono ao ritmo de seus hits. Agora, em dezembro, o fenômeno Zaho de Sagazan prepara-se para conquistar o Brasil — onde nunca pisou —, derradeira etapa dessa aventura musical, com apresentações únicas no Rio, em São Paulo e no Recife. “Encerrar a turnê no Brasil é algo extraordinário. Muitas pessoas têm me falado sobre o público: ‘Você vai ver, é alucinante, eles dançam e se abraçam durante o show’. É o que procuro nos meus concertos, conectar as pessoas, dizer: ‘Venham, vamos suar, rir e chorar juntos’. É menos comum na França. E acredito que os brasileiros estejam um passo à frente”, diz.
Aqueles que ainda não foram apresentados ao seu trabalho autoral, é provável que já tenham ouvido sua interpretação da canção “Modern love”, do britânico David Bowie. Seja na trilha do remake de “Vale tudo” ou na abertura do Festival de Cannes de 2024, em uma homenagem à presidenta do júri, a atriz e diretora americana Greta Gerwig. No filme “Frances Ha” (2012), o momento em que a personagem de Gerwig dança correndo pelas ruas de Nova York ao som da música de Bowie se tornou uma cena cult. Zaho fez do seu jeito: adentrou cantando pelo corredor da imensa e lotada sala, tirou os sapatos antes de subir ao palco, e emocionou a audiência.
Hoje, ela desfruta da possibilidade de fazer o que aprecia, cercada das pessoas de que gosta. A notoriedade não parece ter alterado sua essência nem ambições íntimas. Uma coerência que se manifesta no lado profissional: fundou seu próprio selo musical, para manter sua independência, e formou uma equipe de trabalho composta por quem chama de “melhores amigos”.
Alguns anos atrás, esse caminho não parecia tão evidente. Zaho usa a alcunha de “Pequena tempestade” para autodefinir-se em seu período adolescente, como uma alma sensível ao extremo. Chorava todo o tempo, sem razão aparente, e se irritava pelas mínimas coisas. “Era mais tristeza do que raiva”, esclarece. “Meu maior drama era pensar que não conseguia me fazer entender. Isso me frustrava muito. A música me salvou.” Ela começou a escrever canções. Depois, ao piano, a cantá-las. E a sensação foi a de abrir uma torneira, diz. Em vez de soluçar ou gritar, cantar. “Penso que no poder das palavras e, ao mesmo tempo, do canto, há essa ideia física de soltar algo, mas também mental, de explicar o que sentimos. E, ao procurar as palavras, é como quando se faz terapia, você se questiona. Quanto mais escrevia, mais me compreendia, e vice-versa. Era virtuoso.”
Nesse processo libertador, iniciado em 2015 pela postagem de algumas canções em seu perfil no Instagram, a dança, uma marca de suas performances, também exerceu um papel importante. Ao curar-se de uma hiperacusia (sensibilidade exacerbada a certos sons) e recuperar a audição normal, conscientizou-se de quanto o corpo é fundamental. “É o nosso maior aliado”, sustenta. “Muitas vezes, vemos o corpo como um quadro feito para ser admirado de fora, quando o mais importante está dentro. Comecei a considerá-lo mais como uma máquina extraordinária do que como uma pintura imperfeita. Procuro suar, dançar, dar toda energia e me soltar, ser bonita não me interessa mais.” Assumidamente melancólica e nostálgica, diz termos a tendência de odiar a tristeza e mandá-la embora, mas defende que, quando é ouvida e abraçada, tem muito a oferecer: “O importante é conseguir transformá-la em algo bonito. Sou a prova disso, porque se não tivesse ficado triste e passado por essa ‘pequena tempestade’ interior, não estaria fazendo tudo o que faço agora. Um dos sentimentos que adoro é o consolar. Não existe consolo sem tristeza”.
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Zaho é conhecida por seu apreço em compor seu guarda-roupa em brechós, movida por um gesto cidadão em relação ao consumo, mas também pela originalidade. “É mais ecológico, econômico, e você tem certeza de que ninguém se vestirá como você”, diz ela, que costuma se abastecer nas estantes do Emmaüs, movimento solidário de auxílio a pessoas vítimas de exclusão social. Ao mesmo tempo, admite que Nicolas Ghesquière, diretor artístico da marca Louis Vuitton, fez com que visse a moda de outra forma. “Nicolas me permitiu descobrir o poder de uma peça de roupa e como podemos brincar com ela. Se você está de calça, de vestido, de tênis ou de salto, não fará a mesma coisa. E as quatro opções são interessantes. Ainda não cheguei na fase do salto alto, talvez um dia. E sei que, em Cannes, o fato de ter tirado os sapatos foi uma das coisas que mais marcaram as pessoas. Ao fazer isso e rodopiar com o vestido aberto, transmiti desejo de liberdade, de voar. Se estivesse de calças, não teria tido o mesmo efeito”, reconhece.
Nascida em Saint-Nazaire, cidade de pouco mais de 70 mil habitantes, Zaho trabalhou como cuidadora em um retiro para aposentados e quis ser enfermeira antes de se lançar na música. Ela assume seu privilégio por ser o “resultado do feminismo”, produto de toda uma geração de mulheres que lutaram por seus direitos e abriram o caminho para que ela seja o que é hoje. Criada com mais quatro irmãs por uma mãe “extraordinária” e um pai “sensível”, afirma que a questão de gênero nunca foi um tema. “Muitas vezes me perguntam como é ser uma ‘artista mulher’. Não sei. No limite, posso entender como é ser uma artista. Não me ocorria que ser mulher fosse um problema”, diz. “Sou feminista porque é uma evidência. Mulheres são verdadeiras vítimas do patriarcado e do machismo. Sou vítima de qualquer maneira, porque continuo sendo uma mulher nesse meio. Sonho com um mundo no qual essa questão não será colocada.”
Ciente de sua atual popularidade, ela não hesita em usá-la em defesa de causas que acredita válidas. Escreveu duas cartas abertas ao presidente Emmanuel Macron, alertando para os perigos do aquecimento global e a situação da população de Gaza. “Não vejo sentido em cantar apenas para me divertir, ganhar dinheiro e receber aplausos no final. Os artistas que me marcaram são aqueles que se engajaram. Acho que isso faz parte da própria noção de arte em geral, ela é política. A ascensão do fascismo no mundo é algo que afeta a todos. Quando Taylor Swift faz um Stories e coloca um link, causa impacto. Mas não devemos nos contentar com isso”, defende.
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O maior problema contemporâneo, para ela, é a “falta de amor”. Um diagnóstico que soa como um clichê, mas saindo de sua boca adota um outro tom, condizente com seu próprio jeito de ser, e também com sua leitura recente do livro “Tudo sobre o amor”, de bell hooks. “Acho muito bonito pensar que é preciso aprender a amar. Isso dá muito sentido ao meu trabalho. Mas onde falta amor especialmente é lá em cima, nas pessoas que detêm o poder, e isso se reflete na sociedade. Justiça é amor. Igualdade é amor. Liberdade é amor. Amar um riso como amar um livro, amar palavras ou o céu azul”, resume.
Ela acaba de descobrir uma outra forma de amar. Em setembro, ao final de um show no tradicional Olympia, em Paris, chamou o companheiro ao palco para cantarem juntos “Unintended”, do grupo Muse, selando a apresentação com um beijo e revelando ao público o primeiro amor de sua vida, aos 25 anos: “O amor, pelo menos para mim, me trouxe o retorno ao presente. Há o encanto de uma carícia, de apenas olhar um para o outro, de sorrir bobamente. Acho que reencontrei a lentidão na minha vida, algo que tinha perdido ultimamente nesse turbilhão de coisas maravilhosas. Acredito que a lentidão e o encantamento são muito importantes para a felicidade”.
Recentemente, Zaho criou uma versão sinfônica de seu concerto, em quatro atos, onde aparece em um estilo mais burlesco. No Brasil, será apresentada a versão original, sem orquestra e mais eletrônica. O show no Rio ocorrerá no Circo Voador, no próximo dia 9. “Quem acompanha Zaho de Sagazan sabe que ela vem conquistando público e crítica com uma intensidade rara”, diz Felipe Continentino, diretor do Queremos!. “Tê-la tão perto, em um palco como o Circo é uma experiência que dificilmente se repetirá dessa forma. Para nós, é especial oferecer ao público carioca a chance de acompanhar esse encontro no início da curva ascendente de sua carreira.”
Zaho tem dificuldade em explicar a razão do repentino sucesso, mas arrisca uma resposta. Segundo ela, as palavras que mais aparecem nas mensagens e cartas recebidas são “autenticidade” e “sensibilidade”. “Acho que as pessoas se identificam comigo porque sou bastante normal. Gostam desse lado ‘ela é uma garota legal, que se sente à vontade consigo mesma, que dança como eu dançaria em uma festa, loucamente’. Não tenho um lado misterioso. Depois, certamente, há também o fato de que gostam da minha voz. Mas, de qualquer forma, acho que talvez, no mundo em que vivemos, precisamos de pessoas normais que tragam de volta a sensibilidade e essa necessidade de amor que todos nós temos. E voilà”.

