Eram 10h12 de terça-feira (22) quando os funcionários de uma empresa de mudanças subiram na casa número 15 do “setor 2”, uma viela da Favela do Moinho, no Centro de São Paulo. Uma escada íngreme e estreita foi a única saída possível para geladeira, colchão e outros móveis da casa de Bárbara Santos, de 28 anos, que deixava a comunidade onde morou por 14 anos.
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Ela, o marido Claudevan e as duas filhas foram a primeira família a se mudar do local como resultado do plano de reassentamento do governo estadual, que visa acabar com a maior favela ainda restante na região central da cidade para construir ali um parque e uma estação de trem. Dez famílias se mudaram na terça, e outras devem deixar a comunidade nos próximos dias, totalizando cerca de 80 até o fim da semana, segundo o governo.
— É uma explosão de sentimentos: felicidade, tristeza e medo. Tristeza por sair do nosso lar, que a gente construiu. Meu esposo trouxe cada telha dessa casa. Mas a gente fica feliz porque vamos para o nosso lar. Espero que seja cumprido o que eles estão prometendo, de entregar a casa em outubro de 2026 — disse Bárbara ao GLOBO em meio ao vai-e-vem de homens com caixas e móveis na saída de sua casa.
No acordo com o governo, a família optou por um imóvel oferecido pela CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de SP), em um empreendimento na Vila Nova Cachoeirinha, Zona Norte, com previsão de entrega de 18 meses. Quando ficar pronto, eles terão de pagar uma prestação mensal correspondente a 20% da renda do comprador, além de condomínio, água e luz (hoje, os moradores do Moinho só pagam conta de luz).
Até a entrega do imóvel, eles receberão um auxílio-aluguel de R$ 800 por mês, que não será suficiente para o aluguel de R$ 1.500 no Bom Retiro, onde a família vai morar provisoriamente. O custo de vida vai aumentar, admite Bárbara, mas ela diz que não tinha alternativa. A decisão de permanecer no Centro ao menos por agora é motivada pela saúde da filha, que faz um tratamento na Santa Casa.
— A gente já gasta muito em medicamentos. Só a bombinha de asma dela é R$ 190, são duas crianças, só meu marido trabalha como motorista. Mas espero que o apartamento seja bom e se Deus quiser a gente vai conseguir pagar — ela diz.
O processo de remoção do Moinho tem sido marcado por conflitos. Na semana passada, moradores protestaram e o ato terminou com repressão policial. Parte deles reclama das opções dadas pelo governo estadual, sobretudo porque todas as modalidades envolvem custos custos. A maneira mais rápida de conseguir um imóvel é optar por uma carta de crédito, cujo valor varia de R$ 200 mil a R$ 250 mil, a depender da região da cidade. Se o imóvel custar mais do que isso, depende de cada família pagar o resto.
A outra alternativa é escolher um imóvel feito pela própria CDHU ou por parcerias público-privadas. Neste caso, o comprador contribui mensalmente com 20% da renda. Essa opção, apesar de mais viável financeiramente, gera mais espera. Enquanto a moradia definitiva não vem, será oferecido um auxílio-moradia de R$ 800, custeado metade pelo estado, metade pela prefeitura de São Paulo. A principal reivindicação dos moradores é o “chave a chave”, que garantiria que a pessoa deixaria a favela já com a chave de seu imóvel definitivo em mãos, sem passar pelo aluguel.
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O cunhado de Bárbara, José Carlos da Silva, 34 anos, também decidiu deixar a comunidade. Ele conta que não queria sair, mas aceitou uma das alternativas do governo após ouvir que haveria remoções forçadas. Alagoano, José chegou a São Paulo há 15 anos e sempre morou no Moinho, onde vive com a esposa Aline e as filhas Arielle, de três anos, e Melissa, de dez. A mudança está marcada para o sábado. Ele lamenta a “guerra” que existe no Moinho e as incursões policiais frequentes na favela, inclusive com a entrada forçada na casa de moradores.
– Vieram aqui dizendo que, se não assinássemos, iríamos sair com uma mão na frente e outra atrás. Na verdade, a gente queria ficar aqui. Porque aqui não é um lugar ruim, é onde criei minhas filhas. Mas a polícia invade, quantas vezes eu não consegui levar as crianças para a escola por causa da guerra que tem aqui. Tudo que se diz é que tem o tráfico, o tráfico… Mas aqui não tem só traficante, existe muita gente de bem — ele conta.
A opção de José foi a carta de crédito no valor de R$ 200 mil, em um apartamento em São Mateus, que deve ficar pronto em três meses. Até lá, ele vai morar de aluguel na região da Raposo Tavares, na Zona Oeste, porque a família de sua esposa mora lá, e contará com o auxílio-aluguel de R$ 800 para parte dos gastos. A renda da família hoje vem de seus trabalhos como pedreiro e com um bar de sua esposa que fica na favela, mas com a mudança, essa renda será perdida.
A CDHU informou que 87% dos 831 famílias que vivem no Moinho já teriam aceitado sair voluntariamente, mas moradores contestam esse dado. Segundo o governo, “o plano de reassentamento foi construído com base no diálogo” e se justifica pelo “alto risco a que as pessoas estão submetidas”, já que a comunidade está entre duas linhas de trens “em uma área murada, com apenas uma entrada e baixa possibilidade de escoamento”.
Para Josefa Flor da Silva, 74 anos, a mudança não provoca medo, mas alegria — e uma ansiedade tamanha que ela pediu que a mudança, agendada para quarta, fosse feita na terça. Inicialmente ela irá para uma casa de aluguel em Itaquera, na Zona Leste da cidade. A ideia é se acostumar com o bairro, já que ela escolheu um apartamento custeado parcialmente com a carta de crédito na mesma área, que tem previsão de ficar pronto em até quatro meses.
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— Eu estou pensando que vou me perder dentro da casa que eu vou agora, é muito grande. Eu vou colocar R$ 200 do meu bolso todo mês para pagar o aluguel, que é R$ 1.000, aí ainda vai ter a luz e a água. Eu tô feliz, só ficaria melhor se já pegasse logo o apartamento para colocar minhas coisinhas lá dentro — explica a senhora, que tem renda de um salário mínimo de pensão do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) após ter trabalhado a vida inteira como carroceira.
A aposentada vai se mudar com os dois netos, Nicolas e Gustavo, um de 15 e outro de 17 anos. Ela diz temer qual seria o futuro dos jovens caso ficassem na comunidade, já que vê muita gente usando drogas perto da casa onde mora há 25 anos. A escolha pela carta de crédito foi justamente para conseguir a casa mais rápido ela contará com a ajuda de familiares para custear o financiamento do imóvel.
A filha Tainá da Silva, 29 anos, é um exemplo da espera pela moradia própria. Ela perdeu a casa onde morava no Moinho em dezembro de 2011, em um grande incêndio que atingiu a favela, e desde então passou a receber auxílio-aluguel da prefeitura. A casa definitiva só veio 13 anos depois.
— A gente ficou no aluguel, quando dava para pagar, pagava. Quando não dava, mudava — relembra. — Mas é muito bom que minha mãe vai conseguir mudar, a gente fica feliz de saber que ela vai para o lugarzinho dela, ter paz. Não é deixando de ser grata à comunidade, a gente passou por muita coisa aqui, aqui matou a fome da gente, sendo casa de madeira ou de alvenaria, a gente tem um teto.
A ida dos agentes da CDHU para efetuar a mudança das pessoas que haviam concordado em deixar o Moinho já era esperada para terça, mas a ação foi conturbada. Na sexta, a Polícia Militar fez uma operação na favela para prender um homem, e a incursão terminou com um protesto de moradores que atearam fogo nos trilhos do trem e fizeram uma barricada. O clima estava tenso há dias, com as idas diárias de policiais ao local e um protesto que terminou com bombas na semana passada. Na terça, o dia nem tinha amanhecido quando policiais começaram a cercar as redondezas da favela.
A população fez um bloqueio na entrada, com faixas críticas ao projeto da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos). Quando os agentes da CDHU enfim chegaram, por volta das 7h, o clima estava tenso, e foram necessárias horas de negociação e a garantia de que a polícia não entraria na comunidade para que a população se acalmasse.
Nos bastidores, o acordo envolveu ligações de representantes da Secretaria de Habitação para os advogados que representam a comunidade e, no front, assistentes sociais da CDHU precisaram pedir que a polícia se afastasse para que eles entrassem no local com menos hostilidade. Uma vez que as mudanças começaram, os ânimos se acalmaram e aos poucos o protesto foi dispersado.
O secretário de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Marcelo Branco, disse em coletiva nesta tarde que a presença da polícia antes da CDHU foi para evitar que protestos impedissem a saída dos moradores que queriam se mudar do local.
— A opção do comando da polícia, na minha opinião acertadamente, foi entrar lá mais cedo, não na favela, mas ficar lá fora para garantir que não houvesse barricadas, que não tacassem fogo embaixo do viaduto de novo. Foi para que a gente desse a oportunidade das pessoas saírem da comunidade, se quiserem. As pessoas fazendo barricada é para impedir quem quer sair de sair, isso é um cativeiro. A avaliação da Polícia Militar na minha opinião, foi acertada, para dar oportunidade da CDHU entrar — disse.
