— Quando comecei a curtir as minhas paradas, a entender o que era música boa, o grupo Fundo de Quintal veio de primeira. E ali, quando escutei a voz do Cleber Augusto, entendi o quanto ele tem de contribuição para esse pagode que a gente faz hoje. É aquela voz de bar carregada de sentimento, carregada de emoção. Isso aí é o diferencial dele — comenta o artista, por Teams, no meio de uma de suas turnês, enquanto vai de van para o aeroporto.
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Só que, quando enfim conheceu Cleber pessoalmente, em um dos pagodes da vida, o ídolo já não tinha absolutamente nenhuma voz — um câncer, diagnosticado em 2024, o levara a uma cirurgia de remoção da laringe (“Eu cheguei na frente dele e chorei, me emocionei muito. E aí a reação do cara foi chorar também, se emocionar muito e me abraçar”, recorda-se Ferrugem.)
E qual a emoção então quando, no ano passado, o cantor foi convidado — ao lado de estrelas do samba como Zeca Pagodinho, Péricles, Seu Jorge, Xande de Pilares e Diogo Nogueira — para participar de “Minhas andanças”, álbum de duetos no qual a voz de Cleber Augusto foi recriada, numa operação tecnológica inédita no Brasil, por meio de inteligência artificial.
— Eu fiquei pensando: “Cara, pô, bem que podiam me chamar para cantar ‘Falso herói’, porque é um dos sambas que eu mais gosto!” E aí, quando me mandaram a música, era justamente essa! Foi a faca e o queijo na mão para eu fazer aquilo que tinha em mente — diz Ferrugem, que regravou às lágrimas (suas e do ídolo) o samba do CD do Fundo de Quintal de 1996, composto por Cleber, Djalma Falcão e Bicudo. — Com o avanço da tecnologia, salvaram um sonho meu de garoto. E não só meu, mas do Bruno (Cardoso, do Sorriso Maroto, que também participa do disco). A gente queria ter tido a possibilidade de gravar com o Cleber, mas não deu tempo!
Um dia antes do depoimento emocionado de Ferrugem, Cleber Augusto ouvia pela primeira vez, num dos estúdios da gravadora Warner, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, a masterização definitiva de cinco faixas de “Minhas andanças” — uma primeira versão do álbum chega ao streaming na quarta-feira, dia 30.
— É você, ou não é? — perguntava ao ex-Fundo de Quintal Tony Vieira, de 44 anos, diretor artístico da Warner Music Brasil, idealizador do projeto, amigo e grande admirador de Cleber desde os tempos em que era músico nos pagodes de Niterói.
— Pior é que ainda tem mais 13 faixas, o que é que eu vou fazer? — respondia Cleber, por meio de uma traqueia eletrônica (que lhe proporciona uma voz metálica e cheia de zumbido, mas vibrante), com um encharcado lenço de papel na mão, ao lado de Rosângela Rocha, de 51, fã paulistana que há dez anos se tornou sua companheira.
“Minhas andanças” surgiu da ideia de Tony Vieira de usar a inteligência artificial para dar a Cleber um disco com os clássicos que ele compôs e cantou nos 20 anos que passou no Fundo de Quintal, músicas suas que nunca gravou cantando (como “Fera no cio”, “Amor não é por aí”) e uma inédita, “Ímã”. A produção, ele entregou ao amigo Alexandre Cardozo, cavaquinista de Zeca Pagodinho, que por sinal o apresentou ao sambista do Fundo lá se vão mais de 20 anos.
O processo do disco, que se estendeu por oito meses, começou, como diz Alessandro, com a busca por “um doador da voz”. E aí entrou o cantor Alexandre Marmita (que assinou documento cedendo os direito de sua voz para a nova tecnologia).
— Marmita é tradição, canta no Samba do Trabalhador (roda de samba de Moacyr Luz, toda segunda-feira, no Renascença Clube, na Zona Norte do Rio) há muitos anos, tem essa voz grave, na mesma região que o Cleber usa, e também é muito fã dele — diz Tony. — E Cleber esteve no estúdio todo o tempo. A cada interpretação do Marmita, a gente perguntava: “Isso aí, você faria?” Tipo, essa nuança, essa ida da melodia em tal lugar… e aí ele dizia: “Olha, acho que isso não, acho que eu faria por outro caminho…” Ele guiou a gente, ajudou na produção musical em si.
A parte de inteligência artificial em si foi entregue à firma britânica Myvox, que já havia trabalhado com a Warner em Nashville (EUA) num projeto envolvendo Randy Travis, astro da música country que perdera a voz em 2013 após sofrer um derrame. A gravadora usou os serviços da Myvox para recriar o canto de Travis na música “Where that came from”, lançada no ano passado.
Para “Minhas andanças”, o time trabalhou em cima das vozes de Marmita alimentando o sistema de IA com uma gravação ao vivo de Cleber Augusto da fase solo, feita em São Paulo.
— Era o que a gente poderia utilizar juridicamente. Não se poderia pegar um fonograma do Fundo de Quintal para alimentar a inteligência artificial — explica Tony Vieira. — Mas essa interpretação ao vivo acabou que funcionou melhor (por causa das imperfeições). Quando você separava uma voz do Cleber muito limpinha e entregava para a IA, o resultado saía muito próximo da voz do Marmita. Aí a gente teve que achar um meio-termo. As vozes iam e voltavam até que a gente chegou em uma e falou: “Pô, é essa!”
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Os arranjos foram feitos pelo próprio Alessandro Cardozo, mais Rildo Hora, Paulão Sete Cordas, Jota Moraes e Raphael dos Anjos e Nelio Junior.
— A escolha foi feita para tentar ser o mais abrangente possível em relação às épocas. Entendi que precisávamos ter o Rildo, uma referência do samba, que foi quem arranjou e produziu a maior parte dos álbuns do Fundo de Quintal. Já Paulão viveu toda essa geração do Cacique e tem um jeito de produzir e arranjar que a gente não encontra mais — diz Alessandro. — E, para tocar no disco, a gente chamou músicos de uma geração posterior até da minha.
“Minhas andanças” é uma justa homenagem a Cleber, esse carioca de 74 anos, nascido em Ramos e cheio de histórias que não hesita em contar, animado, mesmo que isso signifique esgotar seguidas baterias de sua traqueia artificial. O violão que ele começou a tocar era do irmão, que tinha aulas de música e que, com ciúme, não lhe emprestava o instrumento. Fascinado pelos Beatles (“Eles revolucionaram o mundo, né?”) e muito tinhoso, Cleber aprendeu a tocar vendo os chorões da vizinhança e pegando o violão escondido. Logo tinha mais intimidade com as cordas que o irmão.
Depois, com o dinheiro da mesada, ele comprou uma guitarra Phelpa, improvisou amplificador com um rádio velho e foi tocar nos bailes. Um dia, alguém o viu solando a guarânia “Índia” e o indicou para a banda de Leno (da dupla da jovem guarda Leno & Lilian) — e lá foi Cleber tocar na televisão quando deveria estar no colégio. Mas os estudos acabaram vencendo: ele largou a guitarra, formou-se em Arquitetura e trabalhava na Bahia quando os sons de Milton Nascimento o fisgaram novamente para a música. De volta ao Rio com uma hepatite (das muitas cachacinhas que tomou por lá), acabou ganhando dispensa do trabalho e se enfurnou nos sambas do Cacique de Ramos. E aí descobriu, no violão, sua vocação.
Cleber já tocava com o Fundo de Quintal em discos, quando, depois de cobrir o violonista que abandonou o posto a minutos de um show em Madureira, foi chamado para fazer parte do grupo. Uma ou outra canção sempre acabava entrando no repertório e nos LPs do grupo. O talento musical, bem como o gosto pelo álcool, pelas amizades e pela boemia acabariam por transformá-lo em parceiro de nomes como Luiz Carlos da Vila (“Romance dos astros”, que fizeram juntando ideias loucas que tiveram numa tarde de chapação na casa de Luiz Carlos), Nei Lopes e Aldir Blanc (“Três horas da manhã, o Aldir dizia: ‘Vamos trabalhar!’ E aí era só uísque!”, recorda-se).
A vida seguiu como de costume e em 2004, um ano após ter deixado o Fundo de Quintal, começou a sofrer de rouquidão constante. Um médico deu o diagnóstico: câncer nas cordas vocais. Ele passou por uma laringectomia e por sessões de radioterapia. Daí em diante, sem a voz, foram “dez anos só perdendo” — ele deu adeus a dinheiro, carro, casa de praia, moto… Mas, aos poucos, começou a voltar, em shows nos quais tocava violão e alguns amigos — e mesmo o público — faziam um mutirão, cantando as músicas que ele não podia mais cantar.
Na hora de gravar “Minhas andanças”, um novo mutirão aconteceu. Seu Jorge se prontificou a fazer o dueto na faixa-título (uma das parcerias de Cleber com Jorge Aragão, assim como “Lucidez”, que ficou com o grupo Menos é Mais). Já Xande de Pilares pôs a voz em “Amor não é por aí”, uma rara parceria do ex-Fundo de Quintal com seus companheiros de grupo Arlindo Cruz e Sombrinha (eles eram, por sinal, conhecidos como o Trio Maldição). Ainda boêmio, como nos bons tempos (“Ele é inimigo do fim”, entrega a mulher, Rosângela), Cleber curtiu cada um dos momentos no estúdio, como uma grande festa.
Segundo Tony Vieira, os feats do disco foram escolhidos pelo entusiasmo que cada artista demonstrou pelo projeto. Muitos dos cantores choraram ao gravar. Um deles foi Yan, nova estrela do pagode, da Zona Oeste do Rio, e o mais novo da turma, com 27 anos, que ficou com “A amizade”, música de Cleber Augusto, Djalma Falcão e Bicudo, que o compositor escolheu gravar como foi registrada pela primeira vez, em 1991, com o Fundo de Quintal.
— Entendi até que a música foi muito modificada ao longo do tempo em questão de melodia. Lá eu falei: “Pô, mestre, eu quero gravar exatamente assim, vamos embora, tenha a paciência, mas eu vou fazer idêntico!” — conta Yan.
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Em “Minhas andanças”, Tony acredita “estar usando a IA para o bem” (inclusive nos clipes, mas “de forma mais lúdica” e não tanto para criar imagens de Cleber mais jovem).
— A gente está trazendo uma voz para uma pessoa que está viva, e que não imaginava ouvir uma música inédita em sua voz. Mas é preciso ter cuidado, porque é um tema delicado e novo para todo mundo. Cleber é aquele caso de alguém que perdeu a voz e está vivo, que pode acompanhar o processo — diz Tony, que pretende montar um show de lançamento do disco com Marmita cantando e Cleber tocando violão com a banda.
Presidente da Warner, Leila Oliveira diz que “não há começo melhor para a gente em uma nova tecnologia” do que um projeto com um propósito tão bacana como o de “Minhas andanças”:
— A IA está aí e a gente tem que ver como oportunidade. Neste caso, o artista está aqui, tendo o cuidado de fazer isso tudo com a gente. A gente tem um time global focado em saber para onde se vai e como é que se garante que a IA seja usada da forma mais justa para todo mundo.

