Com o coração aos pulos, eu me escondi com meus amigos na parte de trás da perua decorada com painéis de madeira enquanto um adolescente do nosso grupo seguia até a bilheteria mal iluminada para comprar um único ingresso. Depois de pagar e escolher um lugar para estacionar, saímos, estendemos um cobertor e nos sentamos para aproveitar a noite quente de verão, a independência sem supervisão adulta e o brilho da tela gigante do cinema ao ar livre.
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Isso foi nos anos 1980 e minhas lembranças, é claro, ganharam os tons coloridos da nostalgia — mas será que alguma coisa mudou nos drive-ins espalhados pelos EUA?
Hoje, passadas várias décadas, visitei três cinemas desse tipo situados a poucas horas de Bozeman, em Montana, minha cidade natal. Deixando as questões políticas e a preocupação com os esportes radicais praticados por meu filho adolescente um pouco de lado, aproveitei a oportunidade para conferir a programação do American Dream Drive-In em Powell, no Wyoming; do Motor Vu Drive-In em Idaho Falls, em Idaho; e no Silver Bow Drive-In de Butte, em Montana.
Não é preciso muito para perceber que há várias diferenças entre eles: o primeiro tem alto-falantes originais da década de 1950, organiza uma noite vintage com carros antigos e serve batatas fritas com queijo; o segundo se orgulha da tela gigantesca (com quase 600 metros quadrados), do amplo estacionamento (470 vagas) e do sucesso da noite comunitária, lotada, com direito a casa inflável para as crianças; já o terceiro tem uma bela vista para as montanhas, telas duplas e é uma verdadeira instituição na comunidade (foi inaugurado em 1977).
Também não demorei para entender que o fascínio do cinema drive-in é eterno porque ao mesmo tempo tem um poder transportador — proporcionando uma breve excursão cinematográfica a um lugar novo — e é acessível. Não é preciso reserva de voo ou de itinerário. Na verdade, não é precisa nem carro; muitas vezes, dá para passar pedalando ou caminhando pelo portão de entrada.
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Dependendo de como, quando e onde você for, poderá se ver em um ambiente animado, colorido por fileiras de grandes caminhonetes e carros elétricos, cadeiras de praia, cobertores, crianças de pijama, frisbees, bolas de footbag, tabuleiros de cornhole, bolas de futebol americano e de beisebol, redes, cachorros, cachorros-quentes e pipoca fresquinha — e talvez até mesmo um pôr do sol escondido pela tela. Ou também poderá fazer parte de uma noite tranquila à luz das estrelas, com filas mais curtas nas lanchonetes e menos concorrência por uma boa vaga no estacionamento.
Entretanto, parece haver um elemento comum: todos garantem servir a melhor pipoca. E os três cinemas que visitei são de propriedade e administração familiar, atraindo uma plateia ampla e diversificada na comunidade que inclui plantadores de beterraba e feno, produtores de leite, soldadores, professores, emergencistas, pintores faciais, treinadores de cavalos, encanadores, paisagistas, mecânicos, donas de casa, cosmetologistas, esteticistas, engenheiros, enfermeiros, médicos e advogados.
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Há também um aspecto multigeracional entre os frequentadores: Kathleen Heny, conhecida como Pokey e proprietária do American Dream há 20 anos, diz que já está começando a ver os filhos e netos de antigos frequentadores.
É o caso de Sara Kindred, de 30 anos, natural de Powell, que frequenta o drive-in desde os cinco anos e passou a levar o cachorro. Como é comum nas cidades pequenas, conhece a família de Pokey, cuja mãe trabalhava na empresa de ônibus rodoviário de seu avô.
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No Silver Bow, conheci Darrion McCracken e seu companheiro, Vinny Juarez, com um suéter laranja com padrões geométricos que lembravam muito o carpete do corredor do filme “O Iluminado”. O casal frequenta o Silver Bow há 14 anos.
— Moramos aqui durante o verão — explicou.
A lealdade do casal ao Silver Bow serviu de inspiração para ajudar em sua preservação. Como há pouco tempo o drive-in se viu ameaçado por um empreendimento nas proximidades, os dois participaram das reuniões públicas na esperança de proteger o cinema e o terreno à sua volta.
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Os drive-ins modernos enfrentam vários outros obstáculos, incluindo a concorrência dos serviços de streaming, o alto custo do terreno, as despesas com a tecnologia de ponta necessária para as exibições e os custos gerais de manutenção da propriedade. De certa forma, é incrível que esses estabelecimentos ainda existam.
Richard Hollingshead foi quem abriu o primeiro, em Nova Jersey, em 1933. Segundo relatos, a inspiração para a iniciativa foi agradar a mãe, que não se sentia confortável nas poltronas dos cinemas tradicionais. A invenção — de fato, ele patenteou o conceito — ganhou popularidade com a introdução de alto-falantes nos carros e, nos anos 1950 e 1960 já havia mais de quatro mil espalhados pelo país.
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Atualmente o número caiu para cerca de 285, segundo Associação Norte-Americana dos Proprietários de Cinemas Drive-In, cujo presidente, John Vincent, também é um dos sócios da Wellfleet Drive-In & Cinemas de Cape Cod, em Massachusetts.
Jeff Ernster, especialista em cinemas ao ar livre, ganhou fama no setor quando começou a sair de Laramie, no Wyoming, onde mora, para conhecer cerca de 30 por ano. Ele conta que assiste a cerca de 150 filmes nesse período, inclusive muitas vezes indo ao mesmo cinema para ver a mesma atração porque considera o drive-in uma experiência tanto quanto o longa em si.
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Na hora do início da sessão no Silver Bow, vi as luzes se apagando gradualmente e as montanhas ganharem um brilho alpino. Enquanto apreciava esse momento de calma, lembrei o que Ernster me disse:
— Você não precisa concordar cem por cento com alguém para poder sair e apreciar um filme juntos.

