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setembro 24, 2026
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O mistério das balas com cocaína à venda na porta de escolas no Brasil

Por · setembro 24, 2026
O mistério das balas com cocaína à venda na porta de escolas no Brasil


A professora Maria Alice Natividade Pereira, diretora adjunta do Colégio Coelho de Almeida, procurou a 19ª DP (Tijuca) para denunciar que diversos alunos passaram mal depois de comer balas ou chicletes vendidos por um camelô em frente à escola. Ao registrar a queixa, Maria Alice contou que uma aluna lhe entregara um pacote de balas com pequenos furos e embalagens claramente adulteradas.
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Em resposta, policiais militares realizaram uma operação no local. Eles não localizaram o ambulante, mas apreenderam pequena quantidade de balas da marca Van Melle, então encaminhadas para o Instituto de Criminalística. Os exames não detectaram nos produtos venenos como cianeto, arsênio ou estricnina, mas os peritos ficaram surpresos quando identificaram traços de cocaína nos doces.
Noticiado pelo Jornal O GLOBO no dia 27 de setembro de 1991, há 35 anos, o caso gerou alarde entre os leitores do Rio, mas, nos dias seguintes, o pânico se espalhou. Autoridades de diferentes estados informaram que o mesmo problema vinha ocorrendo em cidades como São Paulo, Santos e Porto Alegre. Milhares de caixas das balas Van Melle foram recolhidas em Juiz de Fora, Manaus, Salvador e outros municípios. “Balas com cocaína viram pesadelo nacional no país”, informou O GLOBO.
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A crise continuou ganhando volume até que o governo federal mandou fechar a fábrica onde eram feitas as balas. A produção ficou parada por duas semanas, mas nada de errado foi constatado ali.
Caixas de balas Van Melle sendo recolhidas em depósito no Rio, em 1991
Fernando Maia/Agência O GLOBO
Ao analisar os doces recolhidos com o Colégio Coelho Almeida, o Instituto de Criminalística do Rio percebeu que a droga havia sido injetada nas balas e chicletes com seringas. Os furos deixados pelas agulhas eram visíveis a olho nu. Ainda segundo os especialistas, a quantidade de cocaína achada não era o bastante para colocar a vida das crianças em risco. Mas, na opinião de um médico ouvido pelo GLOBO na época, os envolvidos planejavam criar dependência química nas crianças.
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“O traficante estava querendo ampliar o mercado para suas vendas de entorpecentes. A criança não sentiria os efeitos imediatamente, mas se tornaria um dependente cada vez mais, até se ver entregue nas mãos do traficante”, analisou o clínico geral, obstetra e pediatra Eunides Ennes Filho.
No dia 28 de setembro, o jornal noticiou que a polícia havia localizado o camelô que vendeu a bala para os alunos da escola na Tijuca. Aos 63 anos, com nove filhos e sete netos, o morador de Realengo garantiu que não sabia de nada. “Sou vendedor de balas há 20 anos e nunca pensei que um dia ia ser acusado de traficante”, disse ele à imprensa. Ele foi indiciado, mas liberado em seguida, depois de contar aos policiais onde havia comprado os produtos adulterados para revender na escola.
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Dias depois, o então secretário de Justiça e Polícia Civil do Rio, Nilo Batista, acionou o diretor-geral da Polícia Federal, Romeu Tuma, e pediu intervenção da União no caso. Segundo Batista, ele tinha sido procurado por delegados de Santos, em São Paulo, e Juiz de Fora, em Minas Gerais, dizendo que doces contaminados com cocaína haviam sido apreendidos em suas cidades. Tuma, por sua vez, solicitou um dossiê sobre o caso e acionou a Superintendência da PF no Rio.
Perito do Instituto de Criminalística examina bala apreendida
Marco Antonio Teixeira/Agência O GLOBO
A partir de então, a crise ganhou escala nacional. A medida que cada nova informação era publicada, aumentava a tensão entre famílias com crianças em idade escolar. Pais proibiam filhos de comprar qualquer coisa na rua. Baleiros se queixavam dizendo que estavam sendo tratados como traficantes. Colégios tiraram até mesmo das cantinas produtos que podiam ser considerados suspeitos. Muitas lojas e depósitos foram obrigados a entregar caixas de balas e chicletes para que a análise da perícia.
No dia 7 de outubro de 1991, o Ministério da Saúde determinou, como medida preventiva, a interdição da Melbrás Indústria de Toffes e Caramelos, que produzia as balas Van Melle. Na fábrica em Jundiaí, no interior de São Paulo, os 350 funcionários começaram a temer uma demissão em massa. Enquanto isso, os advogados da empresa acionavam a Justiça alegando que não havia nenhum indício de que as balas haviam sido adulteradas com cocaína dentro da fábrica.
Paralelamente, o governo federal deu início a uma apreensão nacional dos produtos nos pontos de venda. Segundo a empresa na época, os prejuízos diários com essas medidas eram milionários.
A situação perdurou por algo em torno de duas semanas, mas, ao fim do mês de outubro daquele ano, ficou esclarecido que as balas não saíram da fábrica contaminadas com cocaína. A polícia chegou a investigar a possibilidade de sabotagem industrial, com o objetivo de prejudicar a empresa, mas isso não foi comprovado. A principal suspeita era de que as balas haviam sido adulteradas por traficantes na “ponta”, antes de os produtos serem vendidos para crianças. Mas ninguém preso.

O mistério das balas com cocaína à venda na porta de escolas no Brasil