Quando o deputado estadual do Queens Zohran Mamdani anunciou, no fim do ano passado, sua candidatura à prefeitura da maior metrópole americana, a reação da maioria dos eleitores foi quase tão explícita quanto a da ultra nova-yorkina revista Interview, que perguntou, na lata, ao filho da cineasta indiana-americana Mira Nair, de “Mississipi Massala”: “Mas quem diabos é você?”. Os Estados Unidos começaram a descobrir a resposta na madrugada desta quarta-feira, nas prévias com participação recorde que a mais vetusta “Time” classificou como “um terremoto no Partido Democrata”.
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Mandani teve quase 44% dos votos, contra 36% do ex-governador Andrew Cuomo, visto como favorito, líder nas pesquisas até a semana passada, apoiado pelos principais caciques da sigla e com US$ 25 milhões de dólares no bolso, doados por Wall Street e o ex-prefeito Michael Bloomberg. Não bastou.
Cuomo perdeu para o que a esquerda do partido anuncia ser um “movimento” nascente, com impressões digitais do senador Bernie Sanders e da deputada Alexandria Ocasio-Cortez, e já abraçado por parte de nomes coroados do Partido Democrata. Próxima do ex-presidente, a Procuradora-geral do estado de Nova York, Letitia James, celebrava ontem a inesperada vitória com uma comparação talvez apressada: “A última vez que vi tamanha empolgação com um jovem líder democrata foi em Chicago e ninguém sabia falar o nome de Barack Obama direito”. O resto é História. Ontem, O GLOBO escutou nas ruas em diferentes pontos da cidade a mesma comparação, feita por simpatizantes do deputado estadual, com o ex-presidente.
Entender como o desconhecido político de 33 anos, muçulmano, socialista e filho de imigrantes (seu pai é um acadêmico e comentarista político, expulso de Uganda, onde Mamdani nasceu, pelo então ditador Idi Amin) se tornou o favorito para vencer o pleito geral em novembro, e administrar o centro financeiro da maior potência global, é lição fundamental para o Partido Democrata. A sigla ainda busca a estratégia certeira para enfrentar o governo de Donald Trump, ironicamente nascido e criado no mesmo Queens. Mas as urnas de Nova York também oferecem pistas importantes para as esquerdas mundo afora.
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Mamdami fez uma campanha inovadora, calcada, no que remeteu ao ex-prefeito Bill de Blasio, na denúncia da cidade partida. Uma serve bilionários e encanta turistas enquanto outra maltrata a maioria esmagadora da população, incapaz de pagar as contas no fim do mês. Mas para além da retórica blasiana, ofereceu, em vídeos especialmente divertidos nas redes sociais, recheados por seu carisma e pose de galã, visão especialmente otimista do futuro a partir de medidas concretas, entre elas o congelamento dos aluguéis subsidiados pelo poder público, tarifa zero para ônibus e aumento de impostos municipais para os mais ricos como combustível central para justiça social. Qualquer semelhança com a pauta política abaixo do Equador não é mera coincidência.
Há pouco mais de oito meses Nova York parecia ter virado à direita quando deu um terço de seus votos a Donald Trump na disputa contra a então vice-presidente Kamala Harris. Logo após a posse do republicano, o prefeito Eric Adams, expulso do Partido Democrata por, entre outras acusações, suborno, fraude e solicitação de viagens internacionais grátis, firmou um acordo com a Casa Branca para a extinção das investigações federais desde que colaborasse com a caça aos imigrantes sem documentação legal na cidade.
A maioria dos 11 candidatos à prefeitura nas prévias democratas mirou neste eleitor moderado, se retratou por apoiar ações pró-diversidade e igualdade e tratou preferencialmente de segurança pública e a necessidade de trazer mais investimentos para a cidade. Mamdani disse não. E foi o único a fazer uma inflexão para a esquerda, defendendo inclusive, e sem meias palavras, que era hora da cidade que nunca dorme acordar para os benefícios da social-democracia, palavrão em endereços da América profunda.
Tachado de despreparado e radical pelos adversários, o duro crítico de Israel pareceu sofrer golpe decisivo no meio da corrida eleitoral ao se recusar a condenar publicamente palavras de ordem de manifestantes pró-Palestina na cidade, entre elas a miserável “vamos globalizar a intifada”. Além de não cair na armadilha, usou como antídoto, em pleito que os eleitores escolhem os candidatos em um ranking de preferência, o apoio do terceiro colocado na disputa desta terça-feira, o vereador Brad Lander, judeu de centro-esquerda.
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“Um muçulmano filho de imigrantes se tornou favorito para governar a cidade após receber o apoio dos candidatos judeu e negro (o ex-deputado estadual Michael Blake). Especialmente neste momento político dos EUA, ele protagonizou uma típica e bela história americana”, celebrou o advogado e comentarista do Guardian e do site Daily Beast Wajahat Ali.
Na campanha, Mamdani não se avexou de falar de sua fé, vez campanha em mesquitas e enquanto fazia jejum durante o Ramadã, diferenciou didaticamente a denúncia de Israel em Gaza de anti-semitismo, e dividiu com os cidadãos as ameaças de morte que recebeu nas semanas imediatamente anteriores às prévias. Citou em seu discurso de vitória Nelson Mandela e fez questão de se afastar do culto à personalidade instalado na Casa Branca: “Quero refazer essa grande cidade não em minha imagem, mas que Nova York seja um reflexo de cada um de seus moradores, especialmente dos que sofrem mais”.
O resultado por bairro revela que o jovem deputado estadual conseguiu vencer com uma coalizão formada por trabalhadores, profissionais liberais, muçulmanos, judeus, católicos e latinos. O único grupo majoritário que preferiu Cuomo, apoiado pelo ex-presidente Bill Clinton, foi o de eleitores que se identificam como negros. Mais: exatamente como Trump nas eleições presidenciais, Mamdani mirou em eleitores que raramente vão às urnas, com nariz torcido para o processo democraticamente. Sua vantagem nesse grupo, especialmente entre os mais jovens, foi de mais de 20% para a soma dos demais candidatos.
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Se aponta um caminho para recuperar para o Partido Democrata o voto dos mais jovens, de minorias étnicas e de trabalhadores, Mamdani ainda enfrentará duras batalhas até novembro e, em caso de vitória, a complicação de se tornar símbolo para uma oposição cuja liderança busca encontrar no centro político o caminho para recuperar a maioria na Câmara dos Deputados e assim estabelecer um freio ao Trump 2.0. Cuomo anda estuda disputar o pleito como independente e Adams, que o fará, repetiu o mantra de republicanos como a deputada federal por Nova York Elisa Stefanik. A trumpista afirmou que o resultado “embrulhou meu estômago” ao ver o Partido Democrata com um candidato à prefeitura da cidade mais importante do país que “simpatiza com os terroristas do Hamas”.
Aos golpes abaixo da cintura, Mamdani pretende reagir, dizem seus estrategistas, com a mesma objetividade que respondeu à pergunta da “Interview”: “Meu nome é Zohran Kwame Mandami. Nasci em Kampala, Uganda, e me mudei para Nova York aos sete anos de idade. Fui criado no bairro de Mornnside Heights, estudei na escola pública no Bronx, me formei em Estudos Africanos na Universidade Bowdoin, no Maine, e desde então tenho me dedicado a trabalhar pelos nova-yorkinos”. Grave esse nome “difícil”.