O modelo tem a eficácia questionada por pedagogos. E se tornou tema de julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), por uma ação do PSOL. Mas para pais de alunos e professores da Escola Estadual Professora Anilza Pizoli, em Brasilândia, uma das cem que se tornarão cívico-militares a partir do segundo semestre no estado de São Paulo, a mudança é considerada uma chance de resolver problemas dentro e fora das salas de aula ao custo de uma disciplina mais rígida
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A escola na periferia da Zona Norte é uma das duas da capital paulista que entraram na lista divulgada no início desta semana das unidades públicas onde o modelo será implementado. Pais e professores contaram ao GLOBO que mais de 80% da comunidade votou a favor da adesão.
A escola fica em uma rua estreita da Brasilândia e funciona em regime integral. Nela estudam cerca de 200 alunos entre 11 e 14 anos, matriculados no ensino fundamental. Há uma quadra esportiva, laboratórios de informática e 13 salas de aula.
Vizinhos, alunos e famílias citam que a escola estadual tem “má fama” na região e já enfrentou problemas com estudantes que usam drogas no entorno da unidade. O desrespeito aos professores por parte dos alunos é recorrente, contam. Motorista de aplicativo, Ricardo Duarte Mendes, de 45 anos, esperava a saída da filha no fim da tarde da quarta-feira quando explicou por que é a favor da mudança para o modelo cívico-militar.
— A escola está bagunçada. Espero que agora melhore. Alguns alunos usam drogas, até fumavam dentro (da unidade). Vamos ter que aprender um pouco de disciplina, algo que hoje aqui não há — defendeu Mendes.
Filha do motorista de aplicativo, Bárbara, de 13 anos, confirma o relato do pai:
— Tem briga, o pessoal xinga o professor. Não é uma escola muito boa, não.
A empregada doméstica Jussara Moreira Silva, de 36 anos, matriculou há poucas semanas a filha de 13 anos na Anilza Pizoli. Jussara conta que a primeira impressão da adolescente não foi das melhores.
— Ela está aqui só há 15 dias, mas achou a escola bagunçada. Os alunos não respeitam (os professores), minha filha me pediu até para mudar de unidade. Espero que a presença (de policiais militares) deixe os alunos com mais receio de fazer bagunça — diz a doméstica.
No ano passado, diretores de 302 escolas manifestaram interesse em aderir ao modelo. Em seguida, a comunidade escolar pôde votar. Pais ou responsáveis por alunos menores de 16 anos de idade, estudantes a partir de 16 ou familiares destes alunos, em caso de abstenção, além de professores e membros da equipe escolar, participaram das votações. Segundo a Secretaria Estadual de Educação, 87% dos votos na Anilza Pizoli foram favoráveis à transformação em cívico-militar. Mãe de Maria Luísa Fernandes, de 11 anos, a gerente de projetos na área de tecnologia Patricia Fernandes, de 44 anos, foi minoria nessa votação.
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— Meu primeiro ano escolar foi durante o regime militar — lembra Patrícia. — Entendo o ponto de vista de se ter mais segurança e disciplina. Mas, ao mesmo tempo, você perde o livre arbítrio. Sabe aquela sensação de que o lugar parece um quartel? Isso me incomoda. Se um aluno negro quiser usar um cabelo black power, por exemplo: vai poder?
Não vai. As regras das escolas cívico-militares incluem orientações específicas para cortes de cabelo, além de normas para o uso de acessórios. No caso dos penteados masculinos, deve-se evitar desenhos, letras, símbolos, pinturas coloridas ou cortes moicanos. Riscos nas sobrancelhas são vetados. Para as meninas, o uso de coque, tranças ou rabo de cavalo é recomendado, assim como o uso de tons “discretos”, em caso de coloração artificial. Anéis e pulseiras são permitidos — desde que também sejam “discretos”.
Não é apenas a lembrança da ditadura que motivou a resistência da gerente de tecnologia. Ela reconhece que há obstáculos no ensino da Anilza Pizoli. Mas também identifica melhorias e qualidades que teme estarem ameaçadas pela mudança.
— Claro que ainda tem pontos negativos, como todo colégio. Mas considero o trabalho aqui hoje bem feito. Até o ano passado, a fama não era boa, com o uso de drogas dentro do colégio — reconhece. — Neste ano, houve uma evasão. Muitos pais não queriam os filhos aqui, fecharam duas salas. Mas hoje minha filha participa de atividades. Vejo o encanto dela — conta.
A Secretaria de Educação não autorizou que O GLOBO entrevistasse os professores e a diretoria da unidade ou entrasse na escola. Reservadamente, no entanto, docentes contaram que não foram contra o modelo, diante da ampla adesão dos pais. E disseram esperar que a presença dos policiais militares ajude a melhorar a convivência com os alunos.
Os policiais não atuarão em sala de aula. Eles controlarão a disciplina escolar na entrada, na saída e nos intervalos dos alunos. O objetivo é que também participem de projetos educativos extraclasses e na busca ativa de alunos que estejam em risco de abandonar as aulas. A Secretaria da Educação do estado será responsável pelo processo de seleção dos PMs, que deve ocorrer até o fim de maio.

