Na esquina da Avenida Atlântica com a Rua Xavier da Silveira, em Copacabana, o som de um reggaeton, estilo musical com raízes latina e caribenhas, se sobressai. Ao lado do carrinho de bebidas que toca a música, uma bandeira do Chile se destaca. A brasileiríssima caipirinha, favorita no gosto dos turistas, parece estar perdendo seu trono para uma novidade: a michelada, mistura de cerveja com limão e especiarias. O que era exceção virou regra, em uma nova dinâmica que está mudando o cenário da praia mais famosa do Brasil, para deleite de uns e fúria de outros, além de desafiar a ordem pública.
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A novidade na orla da Zona Sul, que começou há cerca de quatro meses, é impulsionada pelo aumento de turistas chilenos na cidade. O crescimento foi de 30,97%, entre janeiro e agosto deste ano, em relação ao mesmo período de 2024, segundo a Embratur. Essa onda de visitantes se soma ao boom que já havia sido registrado nos anos anteriores. Em 2024, o estado recebeu 299.467 chilenos, um salto de 39,02% em relação a 2023.
A busca massiva dos visitantes latinos pode ser resultado de ações da Embratur, como o aumento dos voos do Chile para o Brasil, de 260% desde 2022. No entanto, o sucesso da promoção turística tem o seu lado negativo: a informalidade desenfreada que se instalou na orla.
A agitação começa às 22h, quando o som dos quiosques é obrigado a ser desligado, por decreto municipal. É nesse momento que ambulantes, equipados com caixas de som e bandeiras do Chile, migram para as ruas próximas aos prédios até madrugada adentro.
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No trecho entre os postos 4 e 5, onde atuam vendedores com cerca de 20 carrinhos, o cenário é de informalidade. Os ambulantes — alguns chilenos, mas tem também os brasileiros — aproveitam para faturar com bebidas que se tornaram ícones da nova onda. A estrela é a michelada chilena, feita com cerveja, suco de limão e um ingrediente especial — o merkén, uma pimenta chilena— vendida por R$ 20 e até R$30.
Outra estrela é o pisco, destilado de uva que serve de base para o piscola (mistura com refrigerante de cola). Apesar de caro — a garrafa custa R$ 250 —, é vendido em copos de 500ml e 700ml, por R$ 30 e R$ 60.
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Numa tarde da semana passada, por volta das 15h30, já era possível observar a chegada dos primeiros carrinhos. Havia três vendedores perto do Hotel Rio Othon Palace, com caixas de som e oferecendo uma variedade de drinks como micheladas, piña colada, caipirinha, caipifruta, cerveja, mojito, cuba libre e gim tônica, além de sucos, refrigerantes e água.
Um dos carrinhos, o “Drinks”, estava na esquina da Avenida Atlântica com a Rua Xavier da Silveira. O responsável, o cearense Márcio Santos, relatou que costuma circular entre a orla e as ruas laterais devido à fiscalização. Ele utilizava uma caixa de som tocando reggaeton e aceitava pagamentos por Pix e cartão.
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Outro carrinho de bebida, o “El weon de las micheladas”, estava na esquina da Atlântica com a Rua Miguel Lemos. Tinha uma bandeira do Chile e, segundo o perfil do vendedor no Instagram, os chilenos são o público-alvo. O ambulante fala bem o português e interage com os clientes também em espanhol.
Já o “Drinks do Donatello” estava na altura da Rua Djalma Ulrich, no lado da praia. O vendedor, aparentemente brasileiro, oferecia opções semelhantes às dos demais e também usava equipamento de som.
A concorrência desleal é a principal reclamação de vendedores formais como Mário Norberto, dono de quiosque no Posto 4 há quase 20 anos:
— Pagamos impostos, funcionários, aluguel, luz e água. Esses ambulantes ficam vendendo a michelada próximo dos quiosques. A fiscalização passa e eles saem correndo. A fila de turistas os acompanha. Nada acontece. Fica essa eterna briga de gato e rato.
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Do seu apartamento na Avenida Atlântica, Marieta Dornellas, de 54 anos, 30 deles morando em Copacabana, vê a cena com indignação:
— A prefeitura deveria cuidar mais do seu patrimônio. Não se pode fazer vista grossa para uma diversão que incomoda e atrapalha.
O fenômeno, que divide opiniões, traz à tona a figura do “turista-empreendedor”, viajante que vê a oportunidade de gerar renda extra para prolongar a estadia. A estratégia é simples: na mochila, traz insumos para as bebidas típicas, aproveitando a diferença cambial. É o caso do chileno Martín Sepúlveda, de 25 anos, que vende micheladas e pisco sour na praia para custear a viagem com a namorada.
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Brasileiros também exploram a onda, atraídos pela nova demanda. O cearense Francisco Josimar Freire, de 39 anos, é um deles:
— Eu já vendia bebida na orla. Mas um amigo chileno que mora no Rio me ensinou a fazer bebidas de seu país. A receita foi um sucesso.
Isaías dos Santos, de 23 anos, que deixou o emprego formal em uma lanchonete para se aventurar no ramo, afirma que o lucro pode chegar a R$ 10 mil por mês.
— Engana-se quem pensa que o nosso público são apenas os chilenos. Eles são a maioria. Mas, muitos turistas de outros lugares chegam aqui procurando as bebidas.
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O turista chileno Josué Vásques, no Rio pela segunda vez, conta que, no ano passado, não viu tantos ambulantes que falavam seu idioma.
— Estou surpreso de ver tantos vendedores ofertando nossa michelada — disse, enquanto o movimento seguia, embalado por músicas de artistas como Lunay, Cris Mj e Paloma Mami.
Em nota, a Secretaria de Ordem Pública (Seop) e a Guarda Municipal afirmam que realizam fiscalizações. Questionados sobre o aumento dos ambulantes de bebidas na praia, os dois órgãos e o Instituto Municipal de Vigilância Sanitária (Ivisa-Rio) informaram que vão realizar operações para identificar os vendedores e tomar providências.
*Estagiária sob a supervisão de Leila Youssef