O Brasil bateu uma marca importante no segmento de ônibus elétricos: chegou a 1.883 unidades circulando pelo país, no primeiro semestre, superando a Colômbia (que tem 1.737 unidades) e ficando apenas atrás do Chile (onde rodam 4.808 veículos), países precursores na eletrificação da frota pública na América Latina. Especialistas afirmam que este é um ponto de virada para esse mercado no país, que vem ganhando tração e atraindo cada vez mais a atenção dos fabricantes: pelo menos 12 empresas estão de olho no potencial brasileiro, sendo que oito já fabricam ônibus elétricos por aqui.
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— O crescimento da produção e das vendas, nos últimos dois anos, vem sendo forte. Nos últimos meses, mais ainda. Já temos oito empresas fabricando no Brasil e mais chinesas têm intenção de produzir aqui, aproveitando as regras do Mercosul para exportar para a região — diz Carlos Eduardo de Souza, diretor-conselheiro da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) e CEO da Tevx, companhia focada em eletromobilidade e infraestrutura de transporte sustentável no Brasil.
Transição em curso
Os números mais recentes refletem o aumento da procura: foram emplacadas 932 unidades entre janeiro e agosto de 2026, um crescimento de 82,03% em relação ao mesmo período de 2025 (quando foram emplacados 512 veículos). Apenas em agosto, o volume de emplacamentos de ônibus elétricos saltou de 89 (julho) para 254 unidades.
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São Paulo vem puxando a transição da frota a diesel para os veículos elétricos, com cerca de 80% do total em circulação, porque conta com um modelo de financiamento junto a instituições como o BNDES, que inclui as operadoras, além de ter implementado metas rígidas de descarbonização, que preveem zerar as emissões de gases do transporte público até 2038.
A Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte (SMT) determinou, em 2022, que seria aceita apenas a inclusão de ônibus movidos a energia limpa na frota, medida fundamental para a renovação dos veículos com modelos elétricos. O programa de metas 2025-2028 determina a substituição de 2.200 ônibus por veículos de matriz energética mais limpa. As concessionárias do transporte paulistano são responsáveis pela contratação da empresa que fará a instalação dos carregadores e pela garantia de abastecimento dos modelos. Atualmente, a infraestrutura de carregamento conta com 455 pontos instalados, diz a SMT.
Na sexta-feira, o BNDES aprovou financiamento de R$ 329 milhões para a cidade do Rio eletrificar a frota por meio de parceria público-privada. O projeto prevê a aquisição de 175 ônibus elétricos.
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Outras cidades têm iniciado um movimento de transição da frota, entre elas Belo Horizonte, Aracaju, Salvador, Porto Alegre e São José dos Campos. Souza, da ABVE, explica que as cidades brasileiras passaram por uma mudança importante de estratégia para esses projetos, migrando da simples compra de ônibus elétricos para a estruturação de projetos integrados de eletromobilidade, o que ajuda a eliminar gargalos como falta de infraestrutura de carregamento nas garagens, por exemplo.
Atualmente, os municípios que buscam renovar suas frotas mapeiam os terrenos e negociam antecipadamente com as distribuidoras de energia a disponibilidade de carga e a instalação de eletroterminais, como foi o caso de Porto Alegre. Curitiba estruturou uma nova licitação de concessão incluindo a eletromobilidade e a infraestrutura desde o início do contrato.
Para garantir a operação imediata, sem depender de obras demoradas de ampliação da rede elétrica, os novos projetos começam a integrar bancos de baterias de armazenamento (BESS) nas garagens, inclusive combinados com energia solar, explica o especialista.
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Carmélio Dias/Agência O Globo
Concorrência chinesa
No Brasil, as chinesas BYD, Higer e CRRC competem com a brasileira Eletra, além, de Mercedes-Benz, Volkswagen, Marcopolo, Volvo e Scania. Os fabricantes de chassis elétricos podem se associar aos encarroçadores, uma diversidade positiva, segundo especialistas. E começam a ganhar corpo novas tecnologias como os ônibus híbridos (elétricos e a combustão), além dos movidos a biometano ou hidrogênio. Outra tendência é a fabricação de baterias mais compactas, o que reduz o preço final do produto, que ainda equivale a três vezes o valor do veículo a diesel. Com essas baterias mais eficientes (que rodam até 250 km apenas com uma carga), fabricantes começam a ampliar a garantia dos ônibus de dez para 15 anos.
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A fábrica de chassis de ônibus elétricos da BYD está em Campinas há uma década e atingiu a marca de mil chassis produzidos enquanto a brasileira Eletra, que tem a maior fatia de mercado de veículos, amplia sua unidade no ABC Paulista com investimento de R$ 270 milhões, depois de ter apresentado seu primeiro ônibus elétrico em 2013.
— Desse total de investimentos, 60% vão para a ampliação da fábrica e 40% para o desenvolvimento de produtos, incluindo a nova geração de chassis, novos modelos e tecnologias. A expansão está projetada para ser concluída no prazo de um ano e permitirá elevar a capacidade de produção da empresa de 1,8 mil a 2,2 mil veículos por ano para 4 mil por ano— disse ao GLOBO Milena Braga, CEO da Eletra.
Com o aumento da estrutura fabril, o número de funcionários diretos na unidade deve subir dos atuais 260 para cerca de 500 colaboradores, mas contando toda a cadeia de fornecedores da Eletra (mais de 90% são nacionais) o total de empregos diretos e indiretos chega a 30 mil, diz a CEO. Ela avalia que o segmento de ônibus elétricos deixou de ser experimental e ingressou em uma fase de operações consolidadas, com demandas crescentes e resultados. A empresa já tem veículos rodando em mais de 12 estados e 17 cidades brasileiras.
Menos ruído
Alexandre Baldy, vice-presidente da BYD Brasil e chefe comercial e de marketing, avalia que o movimento com os ônibus é um fenômeno que a BYD ajudou a construir. Ele diz que quando uma tecnologia deixa de ocupar um nicho e começa a ganhar escala, a própria competição muda de patamar. A BYD já tem cerca de 700 ônibus elétricos em circulação no Brasil. Baldy observa que linhas de financiamento de longo prazo são fundamentais para que municípios e operadores consigam avaliar o projeto pelo ciclo completo, e não apenas pelo desembolso na compra. Há um universo de 130 mil ônibus urbanos a diesel que poderá ser renovado ao longo dos próximos anos, afirma o executivo.
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— A eletrificação ganha escala, muda a dinâmica do mercado e abre espaço para novos protagonistas. Nos ônibus elétricos, começamos essa trajetória no Brasil há mais de uma década, quando a demanda ainda era muito pequena. Nesse período, adaptamos nossos produtos às características da operação brasileira, implantamos em Campinas a fábrica de chassis elétricos, que já produz 30 chassis por semana, e ampliamos o portfólio para atender diferentes necessidades das cidades e dos operadores locais — explicou.
Baldy lembra que ônibus elétricos reduzem o ruído nas cidades e a substituição de um ônibus a diesel evita, em média, o consumo de cerca de 35 mil litros de diesel e a emissão de 87 toneladas de CO₂ por ano.
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Ônibus elétrico avança nas cidades brasileiras: ao menos 12 fabricantes estão de olho nesse mercado
