O anúncio passou batido em meio à enormidadede atos dos 100 primeiros dias, a serem completos hoje, da segunda temporada de Donald Trump na Casa Branca. Não deveria. Semanas após ser empossado vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance quebrou tradição de 171 anos ao acumular, de forma inédita, o cargo para o qual foi eleito em novembro do ano passado com o de tesoureiro do Partido Republicano. Passa a controlar o cofre da sigla e a ter papel central na escolha dos candidatos da direita nas próximas eleições. Demonstração inequívoca de poder para quem, até três anos atrás, sequer disputara um cargo eletivo.
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Ao mesmo tempo em que se posiciona internamente de forma estratégica para moldar o futuro do trumpismo, o ex-senador de 40 anos buscou sem descanso, e nem sempre com êxito, os holofotes no trimestre inicial do governo. Foi ora cão de guarda e ora o elefante na sala do Trump 2.0, nas palavras do professor Michael Montgomery, catedrático da Universidade de Michigan-Dearborn e funcionário do Departamento de Estado no governo de Ronald Reagan.
—Vance já está em campanha para 2028 e se apresenta como mais trumpista do que o próprio Trump. Crê ser este o caminho para unir o partido em torno dele. Resta saber se a estratégia é mesmo a melhor ou se não estamos testemunhando uma senhora queimada de largada — afirmou o acadêmico ao GLOBO.
Coube ao vice, na Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro, oficializar a mudança radical da política externa americana. A aliados de olhos arregalados anunciou que Washington não considerava mais a Rússia, que invadira a Ucrânia três anos antes, a maior ameaça à segurança do Velho Continente, e sim o que percebia ser um câncer interno, “o ataque à liberdade de expressão dos europeus”.
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Em sintonia com a extrema direita europeia, um dos exemplos do perigo seria a regulamentação das redes sociais. Repetiu a crítica em reunião na Casa Branca com o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer. Explicitou sua condição de porta-voz dos interesses das big tech no governo Trump, linha auxiliar do bilionário Elon Musk, de quem é próximo. O homem mais rico do planeta foi um entusiasmado defensor da escolha de Vance, que sofria resistência de Wall Street, para companheiro de chapa do então ex-presidente.
— Violações de liberdade de expressão no Reino Unido afetam empresas de tecnologia americanas e, por extensão, cidadãos do meu país – afirmou Vance, ao lado de Starmer.
Levou do trabalhista um passa-fora elegante, mas com um alerta cifrado:
— Nos orgulhamos da tradição da liberdade de expressão no Reino Unido, que existe há muitos anos e é duradoura, sem prazo para terminar.
Outro embate público no mesmo endereço, com a presença de Trump e das câmeras, terminou com a saída às pressas do convidado, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, após Vance o acusar de ingratidão e desrespeito durante as conversas mediadas por Washington em torno de um cessar-fogo com a Rússia que incluíam cessões a Moscou e o controle americano de terras raras ucranianas.
O episódio foi considerado por veteranos do Departamento de Estado, entre eles o professor Montgomery, o momento mais embaraçoso da diplomacia americana moderna. Vance, no entanto, repetiu que apenas saíra em defesa de seu país.
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Outro exemplo do que adversários apontam como arrogância de Vance alimentada por um nativismo rasteiro resultou em puxão de orelha público do Papa Francisco. Se deu após o político, convertido ao catolicismo em 2019, usar conceito teológico medieval para justificar, em entrevista, a política migratória do governo Trump, alvo de críticas de organizações de direitos humanos por ações violentas e desrespeito de decisões judiciais.
Em carta aos bispos americanos, que tornou pública, enviada após a interrupção dos contratos de Washington com a Igreja para a assistência a refugiados, Francisco repreendeu o novo comando dos EUA pelo tratamento cruel dado aos imigrantes. Desmontou a argumentação de Vance, que citara Santo Agostinho, de que os católicos deveriam “amar primeiro sua família, depois os vizinhos, a comunidade, os compatriotas e só então o restante do planeta”.
Na missiva, o Papa instruiu seu rebanho: “O amor cristão não é uma expansão concêntrica de interesses que pouco a pouco se estendem a outras pessoas e grupos (…) O verdadeiro amor constrói fraternidade a todos, sem exceção”. Vance se desculpou publicamente por enveredar incauto pelo bosque da teologia, mas enfatizou o “bom senso” de sua argumentação. Por um capricho da História, ele foi o derradeiro líder a se encontrar com o Papa, no domingo de Páscoa, um dia antes da morte de Francisco. A liberdade das redes lhe presenteou com memes mais vulgares do que divertidos sobre a coincidência. O vice postou que rezava diariamente pela saúde do líder da Igreja.
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Vance disputou e venceu em 2022 o Senado em seu estado natal, Ohio, após o sucesso do livro de memórias “Era uma vez um sonho”. Adaptado para o cinema,é um relato de superação econômica e social, com detalhes sobre a dependência química da mãe e sua formação em Direito na Universidade de Yale, após servir as forças armadas durante a invasão americana do Iraque. Mais tarde, fez fortuna como investidor de risco no Vale do Silício, sem perder, enfatiza, “os valores da América Profunda”. Em apenas cinco anos, se tornou voz dos excluídos da globalização em endereços penalizados pela desindustrialização e decisivos no mapa eleitoral americano, percebido como um trunfo para os republicanos.
Na Convenção Nacional Republicana no ano passado,foi escolhido por um indeciso Trump no último minuto para ser seu companheiro de chapa. Pesou o apoio decisivo do primeiro filho, Don Jr., a quem Vance chama de amigo. Reservadamente, desafetos da própria sigla contam reservadamente que o político se vê “como uma espécie de Barack Obama ou John Kennedy da direita”, símbolo de renovação em cena dominada por veteranos. E que ele dá de ombros às críticas a seus embates com o Papa, Zelensky e Starmer.
O paralelo com os ex-presidentes democratas foi revivido semana passada nos quatro dias de viagem oficial de Vance à Índia, terra de seus sogros, que incluiu passagem pelo Taj Mahal com a mulher, Usha, e os três filhos, Ewan, de 7 anos, Vivek, 4 e Mirabel, 2. Em suas redes sociais, além de tratar das relações entre as duas potências, o vice lamentou que foi difícil registrar o momento, pois os filhos reclamavam do sol no rosto quando tentava fazer fotos. “Essa foi a única que consegui”, postou, com emojis de risos. Apresentados como “americanos comuns”, “gente como a gente”, os Vance foram tratados pela imprensa indiana como realeza.
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Observadores creditam parte do protagonismo de Vance nestes 100 dias, tão distante da discrição de sua antecessora, Kamala Harris, à sua intenção de deixar claro a rivais internos quem é o sucessor natural do atual presidente americano. Perguntado diretamente sobre o tema, Trump, que namorou com a ideia de um inconstitucional terceiro mandato, se recusou a confirmar à Fox News que o martelo já está batido. Se limitou a dizer que seu vice é “muito capaz”.
A meteórica ascensão de Vance, aponta Montgomery, também se relaciona à sua compreensão, assim como Trump, de dois fenômenos centrais da política contemporânea — a crescente polarização ideológica e o ciclo eleitoral permanente, daí a postura combativa e a presença midiática full time.
Ele foi dos primeiros a defender que a campanha presidencial priorizasse, além da base, eleitores que não comparecem sempre às urnas, deixando em segundo plano moderados e independentes. Por isso, dá menos importância ao fato de contar hoje, segundo as pesquisas, com a aprovação média de apenas 1/3 dos americanos, e mais ao entusiasmo de 70% dos que se dizem republicanos com sua atuação na vice-presidência. Também enfatizou no ano passado a importância do apoio das big tech, e de suas plataformas digitiais, para a coalizão vitoriosa. Em análise publicada no começo do mês, a Economist aponta que Vance, agora dono da chave do cofre do Partido Republicano, crê estar na posição única de unir as tribos dos “tech-otimistas” e dos “populistas de direita” rumo a 2028.

