As reuniões dos cardeais para discutir a sucessão de Francisco ganharam força essa semana em Roma. Todos eles participam nesse período das chamadas Congregações Gerais, encontros que acontecem diariamente no Salão Sinodal, dentro do Vaticano, pelas manhãs. A presença de cardeais com idade até 80 anos, portanto com direito a voto no Conclave, é obrigatória. Os mais velhos também frequentam, mas voluntariamente.
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Ao longo de cerca de duas horas, eles debatem temas da Igreja, expõem suas ideias, conhecem melhor uns aos outros, fazem possíveis alianças. É nesse período que as candidaturas ganham forma, no último momento de informalidade e falas mais calorosas antes de se fecharem na Capela Sistina, a partir de 7 de maio, para eleger o sucessor de Francisco. Os debates sobre temas da Igreja são conduzidos pelo Decano do Colégio Cardinalício, Giovanni Battista Re, o mesmo que esteve à frente do funeral de Francisco. O que é falado lá dentro é pouco ou nada divulgado pela Santa Sé.
Mas a conversa de bastidor continua para muitos deles fora dos muros do Vaticano. Existem alguns restaurantes localizados a poucos metros da Praça São Pedro, que recebem pequenos grupos para almoçar ou jantar. O preferido de bispos e cardeais é o Al Passetto di Borgo, a poucos metros da Praça São Pedro.
João Paulo II, Bento XVI e Francisco comeram lá antes de assumirem o pontificado. Mas foi Bento XVI, ainda Joseph Ratzinger, que deu fama ao restaurante, se tornando um dos clientes mais regulares. Frequentou o lugar inúmeras vezes ao longo de 25 anos, primeiro como bispo, depois como cardeal. Tinha predileção pelo macarrão à carbonara, amatriciana, vitela assada, sopa de legumes e o tiramisù do cardápio.
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Durante o pontificado de Francisco, Passetto di Borgo voltou aos holofotes por ter sido, sobretudo no jantar, um dos endereços preferidos dos cardeais que se opunham ao pontificado do Papa. O cardeal alemão Gerhard Ludwig Müller, expoente da ala conservadora do Vaticano, foi visto com frequência no restaurante, cercado de bispos. O cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral também é figura carimbada, aos almoços.
Não há mesas reservadas para os prelados e todos pagam a conta. Os garçons são alegres, mas discretos. “O que é dito nas mesas não nos convém, nossa atenção é exclusivamente servir o cliente”, diz um garçom antigo da casa que não quis se identificar. A reserva ajuda a atrair os cardeais, mas o forte é a comida, tipicamente romana, feita com ingredientes frescos.
Inaugurado em 1962 o Al Passeto di Borgo tem uma gestão familiar, passada de pai para filho. A fachada e a decoração são simples. Há mesas com capacidade para duas pessoas, até oito. O clima é informal. Alguns garçons usam guardanapo estendido no braço esquerdo. O cliente chega e encontra os talheres e os copos virados de boca para baixo. No caminho para a cozinha, que fica depois de um grande arco de alvenaria no teto, tem um aparador cheio de bebidas alcoólicas, principalmente de amaros, licor de ervas italiano popular que costuma ser tomado depois das refeições. Passando o arco, antes da cozinha, há uma profusão de queijos inteiros dependurados no teto.
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O nome do restaurante foi inspirado em uma a passarela construída no século XIII pelo Papa Nicolau III, o Passetto di Borgo, que liga o Vaticano e o Castelo de Santo Ângelo, antiga fortaleza, tribunal e prisão dos Estados Papais. Com 800 metros de comprimento, o Passetto teve várias funções ao longo da história da Igreja, entre elas ser a rota de condenados à prisão no Castelo. Mas é conhecido sobretudo por ter sido uma passagem secreta para pontífices em momentos de perigo.
Um dos casos mais célebres ocorreu com o Papa Clemente VII, no século XVI. Com um manto preto para não ser um alvo fácil, o Pontífice conseguiu se refugiar no Castelo de Santo Ângelo durante o saque de Roma provocado pelo imperador Carlos V. A passarela, que chegou a ficar um longo tempo fechada para ser restaurada e reabriu em dezembro do ano passado para visitação, em homenagem ao Jubileu de 2025, um período de especial significado espiritual para os católicos, dedicado à renovação e ao perdão.

