A menina L. gostava de assistir ao programa da Angélica na TV, de brincar com um ursinho de pelúcia, que ganhara numa máquina diversão eletrônica, e de pular amarelinha na rua. Mas estava triste porque os garotos do bairro onde ela morava, na periferia de Manaus, haviam descoberto como era sua vida quando ela deixava a vizinhança. Aos 13 anos, L. saía todo dia de casa, por volta das 13h, para cumprir a rotina que odiava, obrigada pela própria mãe. Usando shortinho curto, sempre com o primeiro botão aberto, barriga de fora e sapatos de salto alto, ela se juntava a dezenas de menores que se prostituíam nos “bares-cassino” da capital do Amazonas ou na Praça Dom Pedro II, em frente à prefeitura.
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Chamados perversamente pelos frequentadores de “Disneylândias do sexo”, devido à quantidade de crianças exploradas sexualmente, esses locais foram o tema de uma série de reportagens do GLOBO em março de 1997. Publicado a partir do dia 23 daquele mês, o trabalho gerou comoção. Os antros da prostituição infantil em Manaus eram visitados por advogados, corretores e até delegados. Além de abusar das meninas, os policiais cobravam propina dos donos dos bares-cassino, para permitir que funcionassem. Desde então, alguns desses “homens de bem” foram processados, mas a prostituição de crianças e adolescentes no Norte do país continua sendo um problema grave.
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Seis entre os dez estados do país com os mais alarmantes índices de violência sexual contra crianças e adolescentes estão na Amazônia Legal, segundo um relatório divulgado recentemente pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Na região, foram registrados mais de 38 mil casos de estupro com vítimas de até 19 anos de 2021 a 2023, além de quase 3 mil mortes violentas intencionais da mesma faixa etária, no mesmo período. A região apresenta taxas de violência sexual maiores do que o resto do País, com 141,3 casos registrados a cada 100 mil crianças e adolescentes em 2023, 21,4% acima da média nacional, que foi de 116,4.
Em 1997, o repórter Amaury Ribeiro Jr. chegou às “disneylândias do sexo” com o fotógrafo Luís Carlos Santos. Os dois se fingiram de turistas para ver de perto a dinâmica dos bares-cassino, repletos de homens na casa de seus 50 anos de idade. Em um estabelecimento, eles conheceram um corretor de seguros de 56 anos que morava com mulher e filhos numa residência de classe média próxima do Centro. Ele usava uma nota de R$ 10 para atrair meninas. Gostava, principalmente, de garotas de 12 a 16 anos. “Mulher velha já tenho em casa. Meu negócio é franguinha. Quanto mais nova, mais fico arrepiado”, disse o criminoso à equipe, sem aparentar nenhum pudor.
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A dupla do jornal se aproximou o bastante para ver quando a menina L., de 13 anos, foi abordada pelo corretor. Ele a chamou para se sentar à mesa e foi direto ao assunto. “Tu é tão novinha, minha bichinha, que me deixa louco. Por isso vou inflacionar o mercado. Vou te pagar R$ 15”. Depois, Benício abraçou a criança e a pôs no colo. A cena foi fotografada por Luís Carlos Santos usando uma câmera pequena, do tipo usado por turistas. Em seguida, o aliciador saiu com a menor para o Tititi, um dos vários motéis de Manaus onde, por R$ 5, era possível passar uma hora com uma menina sem empecilhos. Ninguém na recepção exigia qualquer tipo de documento antes de entregar ao cliente a chave de um quarto.
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Os jornalistas estavam no bar Holanda quando viram estacionar um carro modelo Opala, que chamava atenção por ter nos vidros das janelas adesivos com a inscrição “Federação dos Delegados de Carreira do 3º Distrito, Amigo da Polícia”. Segundo um segurança do bar Natureza que também fazia bicos no Holanda, o automóvel era de um delegado da Polícia Civil do Amazonas. O Natureza, aliás, era ainda mais movimentado que o Holanda. Decorado com quadros de yaporangas, deusas amazonenses engolidas por serpentes, o bar tinha banheiros que cheiravam mal. Próximo a um deles, estava o artista plástico Carlos Mendes, que pintou as yaporangas, desenhando a lápis os rostos da “clientela”.
Sentadas a uma mesa perto da roleta, três menores, de 13 a 17 anos, tinham um passado em comum: elas conheceram a fome no interior do estado, mudaram-se para Manaus por imposição dos pais, que as introduziram na prostituição para ganhar dinheiro explorando as filhas. Todas carregavam cicatrizes provocadas por navalhadas de abusadores, algo encontrado pela equipe em diversos locais. “No mês passado, um turista me levou para o barco, me bateu e, depois de fazer todo tipo de violência, me deu o calote, ameaçando me matar”, contou uma menina no bar Jacutinga, que tinha máquinas eletrônicas com bichinhos de pelúcia para distrair as crianças que viviam da prostituição.
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A irmã Roselandy de Souza, umas das cordenadoras da Casa Mamãe Margarida, que abrigava 150 meninas vítimas de violência sexual, disse que os problemas começavam em casa. Muitas delas já haviam sido abusadas por pais, tios ou padrastos antes de se prostituírem. Era o caso de uma criança de 12 anos que conversou com o GLOBO na ocasião. Ela havia sido encaminhada à instituição depois de ser violentada pelo pai e o irmão mais velho. “Lá em casa, todo mundo gosta de me maltratar”.
A Praça Dom Pedro II não apenas ficava diante da Prefeitura de Manaus, mas também tinha a seu redor a Secretaria de Justiça, a Assembleia Legislativa do Amazonas e a Câmara dos Vereadores. Uma quadra abaixo fica a Avenida Tamandaré, à época também tomada por “disneylândias do sexo”. Mas foi só depois da reportagem do GLOBO que as autoridades tomaram uma atitude. Em questão de dias, a Secretaria de Segurança começou a realizar batidas contra exploração sexual de crianças, proibindo roletas e a entrada de menores nos bares-cassino. O delegado flagrado pelo jornal foi preso e processado. Anos mais tarde, porém, tornou-se chefe da Polícia Civil do Amazonas.
Policiais infiltrados descobriram que agentes de segurança cobravam cerca de R$ 200 por mês de propina das casas de exploração. Atitudes como essa ajudaram a reduzir o problema, mas o crime continuava. Menores de idade usavam carteiras de identidade falsas ou ficavam escondidas em quartos de motéis e eram oferecidas apenas aos “clientes especiais”. Outras foram levadas a bares em municípios próximos, como Presidente Figueiredo, a cem quilômetros de Manaus. Ciente de que a polícia não seria a única soluçao, o governo federal lançou um programa de combate à prostituição infantil. Mas, seis meses após as reportagens do GLOBO, ninguém ainda havia sido condenado.
A série de reportagens marcou o início da jornada do repórter Amaury Ribeiro Jr. na investigação da prostituição infantil. O trabalho culminou no livro “Poderosos pedófilos: Cidadãos de bem que roubam e exploram a infância no Brasil” (Matrix Editora), lançado em 2000, que reúne histórias de cidades da Amazônia e expõe empresários, policiais e procuradores envolvidos com abuso de menores. Segundo a obra, enquanto parte desses homens virou réu em ações criminais, uma parcela segue intocada. Em artigo para a “Folha de S. Paulo”, em 2021, Ribeiro Jr. lamentou que a prostituição infantil ainda seja um problema grave no país. Apenas mudou de cenário, saindo dos bares para a internet.