Todo dia a estudante Júlia Couto, de 21 anos, sai de casa, em Vargem Grande, às 5h. Antes do sol nascer, caminha sozinha até o ponto de ônibus por 20 minutos, para iniciar uma viagem, que inclui um coletivo e o metrô, para atravessar a cidade até o campus da Uerj, no Maracanã, onde cursa o 4º período de Pedagogia. Já na volta para a Zona Oeste, o trajeto tem ainda um ônibus, além de dois BRTs, com destino aos empregos — é atendente numa cafeteria e dá aulas de dança — que antecedem seu retorno para casa por volta das 21h. Em meio a essa rotina corrida, a jovem se viu “desesperada”: beneficiária de gratuidade (é universitária e se encaixa nos critérios de renda), ela relatou ter enfrentado a demora para conseguir ter seu cadastro aprovado para usar o Jaé, que, neste sábado, passa a ser o único bilhete aceito nos modais municipais do Rio (ônibus, BRT, VLT, vans e “cabritinhos”).
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2 de agosto, JAÉ?
Suas queixas chegaram até Eduardo Paes, alvo de seus vídeos — gravados sem roteiro, a partir de uma ventosa que prende na parede, publicados no TikTok e no Instagram (@julicacouto) —, que colecionaram centenas de milhares de visualizações. Após alguns palavrões, palmas para chamar atenção, assim como críticas ao “nome brega” escolhido para o substituto do Riocard e ao “berro” de “gratuidade liberada” emitido pelos novos validadores, ela foi ouvida pessoalmente pelo prefeito no início de julho, quando ele entregou em mãos o novo Jaé de Júlia.
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O convite veio da equipe de comunicação de Paes, que entrou em contato com a jovem através do chat do Instagram, rede social em que acaba recebendo outras reclamações sobre a cidade, como se fosse “porta-voz do prefeito”.
—Toda a conversa que tive com ele foi no meio das câmeras. Conversei bastante, fiz cobranças, até sobre as condições dos ônibus, e ele conversou comigo sobre a reforma da frota (com a nova licitação, marcada para novembro). Também perguntou sobre mim, onde eu morava, e falei sobre as condições daqui — conta Júlia, que foi recebida entre uma reunião e outra do prefeito. — Quando terminou a gravação, falei “Olha, acho que estou fazendo o trabalho de alguém daqui” — brincou.
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A publicação original, nos perfis de Paes, teve 2,1 milhões de visualizações (somados X e Instagram), excelente para a influencer que, além de ter seu problema resolvido, ganhou visibilidade. Inicialmente, ela, focava no TikTok, onde coleciona 45,6 mil seguidores, com conteúdos sobre a vida universitária e que, após as queixas sobre o Jaé — ela se apresenta como “a rainha da reclamação” — viu a necessidade de migrar também para o Instagram, que até então era de uso pessoal, rede com 3,2 mil seguidores atualmente.
O burburinho rendeu e ela também foi convidada a gravar um vídeo semelhante com o pessoal da Riocard, empresa que havia sido criticada pelo prefeito, que definiu as pessoas que controlam a empresa como “mafiosos”. Mas o que seria uma mediação rendeu críticas a Júlia na internet após a publicação do novo vídeo. Algumas pessoas disseram que ela teria se vendido.
— Não é bem dessa forma que as coisas funcionaram. Eu quis ir porque fui responsável por reivindicar. Fui nessa posição, de olhar no olho deles e cobrar o que tem que ser cobrado. — desabafa Júlia, que não recebeu valores em troca para os vídeos. — Essas pessoas que vão diretamente às autoridades, como tive a oportunidade de fazer, têm que levar isso de uma forma mais clara para a população. Estou passando para pessoas pobres, que precisam e que passam da mesma situação que eu.
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Chateada com as críticas, Júlia diz que chega a “bater boca” com alguns internautas, porque acha ser “injusto”. Com uma “realidade tão complicada”, a estudante afirma que tem “dificuldade de lidar com inverdades” sobre ela. Nascida em Nova Iguaçu, é na cidade de Mesquita, ambas na Baixada Fluminense, que a influenciadora identifica suas raízes. Além de ter morado num barraco no município, é lá onde vive a sua avó numa casa sem pia, de quem quer mudar a realidade. A jovem usuária do Jaé ouviu do prefeito que “tem que se lançar na política, tem que virar vereadora”, o que nunca passou pela sua cabeça, tampouco ser jornalista.
Júlia Couto tem esperança de conseguir mudar sua realidade e a da avó a partir da internet, ganhando dinheiro com os seus vídeos, no futuro. Há quase três anos, a estudante de Pedagogia mora de favor na casa da sua melhor amiga, decisão tomada após um homem que havia abusado dela na infância ter retornado para a família, o que causou impactos profundos psicológicos na jovem.
— Fui uma criança muito introspectiva, sempre tive cicatrizes em relação a isso, e até hoje faço um sacrifício para poder pagar minha terapia para cuidar disso, uma ferida que ficou aberta por muito tempo. Gravando meus vídeos, podendo gritar como nunca pude, podendo falar mais alto sem ser coagida, tira um peso muito forte de dentro de mim — afirma Júlia.