“Um trabalhava na feira; outro, na construção” é o que conta “Domingo no parque”, de Gilberto Gil, ao detalhar o que aconteceu com João e José, personagens da canção de 1968. “José, como sempre, no fim de semana guardou a barraca e sumiu. Foi fazer no domingo um passeio no parque”. O mesmo que cariocas e turistas fizeram ontem no Passeio Público, no Centro, o primeiro parque público da América Latina, que sediou um evento-teste com roda de samba e feira gastronômica e de vestuário — aos moldes do que vem acontecendo na Praça Paris, na Glória. Mas o público se decepcionou com a Fonte dos Amores, de Mestre Valentim, que estava sem as esculturas de jacarés. As pesadas peças de bronze de mais de três séculos foram retiradas no sábado pela prefeitura, após uma tentativa de furto.
Para o evento de ontem, o município encomendou melhorias na varrição e na iluminação do parque que tem muitos sinais de abandono. Trinta feirantes montaram suas barracas, enquanto os grupos Samba de Ponta e Santo Samba animaram os frequentadores em dois sets, com DJs nos intervalos e espaço recreativo para crianças.
— O samba deste domingo é um projeto conjunto, que nasce da ideia da Subprefeitura do Centro pela ocupação do espaço. Não queremos repetir 2011, quando foi feita uma reforma e, ao longo do tempo, o parque se degradou — afirma Diego Vaz, secretário municipal de Conservação e Serviços Públicos.
Acomodados em mesas do evento, cadeiras de praia próprias, cangas ou mesmo direto na grama, famílias e grupos de amigos aproveitaram o dia de sol e a temperatura amena sob as árvores centenárias do Passeio. O prefeito Eduardo Paes foi conferir de perto a novidade.
— Este é um espaço tombado, histórico, importantíssimo, mas qualquer lugar que as pessoas não ocupam fica abandonado, e não tem ninguém para reclamar do prefeito — brinca. — Queremos fazer uma sinergia com a Feira da Glória e criar um corredor de praças públicas ocupadas por aqui.
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A ideia de ocupar o Passeio agradou a moradores de bairros próximos. Da Cinelândia, o aposentado Eli Pacheco, de 67 anos, ficou feliz ao esbarrar com o show de ontem enquanto passeava com a família.
— Deve fazer mais de seis anos que eu não venho aqui. Antigamente havia alguns eventos, mas depois parou. Achei uma pena, porque isso aqui é um divertimento. Poder trazer as crianças, se distrair, é bom ter essa opção — disse, enquanto observava a neta brincar.
Além da volta de antigos frequentadores, houve os estreantes como Lourdes Barbosa, de 67, moradora do Flamengo, que foi ao Passeio pela primeira vez.
— Vimos a divulgação nas redes sociais, viemos prestigiar e estou adorando. Era um espaço ocioso, que a gente tinha até medo. Espero que a iniciativa traga mais segurança e iluminação e também ajude a revitalizar a Cinelândia.
Para o casal de professores da Tijuca Gabriel Santos, de 37, e Ivy Ortega, de 38, com mais segurança, o Passeio pode se tornar uma alternativa à superlotada Feira da Glória.
— Lá tem ficado muito cheio, então, de repente, o pessoal pode dar uma desafogada vindo para cá — pondera Gabriel. — A gente não tem muito essa cultura de aproveitar os parques, talvez porque temos a praia, mas é uma opção legal também.
Segundo a prefeitura, os eventos no Passeio Público devem se tornar recorrentes. Além de samba, estão no horizonte oficinas de ioga e tai chi chuan, além de apresentações de chorinho e jazz. Outro desejo do subprefeito do Centro, Alberto Szafran, é implementar uma feira de food trucks do lado de fora.
A Secretaria municipal de Conservação também trabalha num projeto para recuperar a infraestrutura do parque, criado em 1783 com inspiração no Passeio Público de Lisboa e no também lusitano jardim do Palácio Real de Queluz. A proposta, que deve ser apresentada no primeiro semestre de 2026, deverá prever a restauração dos monumentos, a volta de pequenos quiosques e a instalação de câmeras de vigilância, assim como ter uma equipe da divisão armada da Guarda Municipal no espaço para proteger o patrimônio.
As marcas do abandono no Passeio Público são bastante aparentes. E não é de hoje. Um giro despretensioso pelo parque possibilita notar, por exemplo, que da Fonte dos Amores, de Mestre Valentim, não jorra sequer água suja. Perto das esculturas de jacarés, retiradas no sábado, há vestígios de fogo e indícios de que a área de concreto é usada com frequência por pessoas com dependência química. Há ainda papeleiras destruídas e quiosques em que uma frágil proteção foi improvisada com correntes. Nem o tombamento de alguns monumentos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), desde 1938, os protege.
Em 2004, uma reforma custou aos cofres públicos R$ 1,8 milhão. Em 2016, perto das Olimpíadas, o parque passou por nova revitalização. Noemia Barradas, arquiteta, professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Uerj e coordenadora da Comissão de Paisagem e Patrimônio Cultural do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), lembra que as recuperações recentes foram parciais:
— Há um problema sério por falta de planejamento e gestão da prefeitura e demais órgãos responsáveis. Com isso, o parque se torna precário, os elementos ficam descaracterizados, fora o problema das ocupações irregulares.
Sem contar os jacarés, o Passeio perdeu 20 esculturas nos últimos anos, metade foi furtada. O pré-projeto de revitalização que avança na Secretaria de Conservação tem orçamento de R$ 6,2 milhões, valor que poderá ser atualizado.
— Primeiramente, vamos iniciar a reforma resgatando as referências ao século XVIII. Além disso, o parque também precisa de manutenção. Queremos proceder como fazem no Central Park, em Nova York, nos Estados Unidos. Um dos fatores que fazem dali um bem com boa administração é ter o zoológico. A renda é revertida em cuidados — diz Vaz.
Para moradores que residem em prédios do entorno, o investimento na região já tarda a chegar. O sociólogo Danilo Bresciani, de 27 anos, morador do Centro, critica a falta de policiamento:
— Até as 19h, quando há movimentação, é menos pior. Depois, o lugar fica ermo e com pouco ou nenhum policiamento.
A prefeitura estuda se inspirar no modelo de concessão dos grandes parques e acrescenta, em nota: “Tendo em vista que o Passeio tem dois quiosques, que no passado foram pontos de comercialização, a ideia é que no projeto seja avaliada a possibilidade de ter uma concessão. Isso será consultado junto à CCPar”.
Vaz enfatiza que o parque não deixará de ser público e que as áreas de comércio serão pontuais:
— Imagina um quiosque de sorvete para o verão, um café, uma livraria. Com esses atrativos, as pessoas passam a frequentar. Esses comércios privados, sim, possibilitarão contrapartidas. Mas o espaço não vai ser privatizado. O parque não deixará de ser público nem de ser administrado pela prefeitura — afirma.
O edital de licitação para revitalizar o Passeio Público será lançado no ano que vem.
A professora da Uerj Noemia Barradas avalia que é preciso cautela tanto na substituição de materiais quanto para evitar a descaracterização do parque, bem tombado e marco na paisagem pública:
— O desenvolvimento dessa proposta tem que ser cuidadoso para que não haja inversão, e isso não degrade mais o parque. A gestão de bens culturais é sempre frágil, delicada, ainda mais na área urbana. Uma fronteira não pode ser ultrapassada: o Passeio não pode ser objeto de experimento oportunista e de concessões. Boa inspiração é a Quinta da Boa Vista, na Zona Norte, onde pessoas fazem atividade física e usam o espaço de maneira funcional, e há vendedores autorizados.