A Polícia Federal vai fazer uma perícia para verificar a autenticidade dos 13 relógios apreendidos no quarto de hotel onde costumava ficar o senador Jaques Wagner (PT-BA) em Brasília. Ele foi alvo da nona fase da Operação Compliance Zero, que investiga possíveis crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e fraudes financeiras envolvendo o Banco Master.
Em uma análise preliminar, os investigadores perceberam que alguns relógios são aparentemente de marcas valiosas, como Patek Philippe, Cartier e Hublot. Caso sejam originais, alguns desses modelos podem chegar a custar até cerca de R$ 500 mil. Dois especialistas consultados pelo GLOBO confirmaram que há peças dessas três grifes ao analisar a imagem das peças apreendidas.
A defesa de Wagner informou que entre os relógios há réplicas e originais, não sabendo especificar quais deles seriam de cada tipo. Os advogados também disseram que alguns já haviam sido, inclusive, apreendidos durante a Operação Cartão Vermelho, de 2018, e posteriormente devolvidos ao senador. A investigação que apurou supostas irregularidades na administração do estádio Fonte Nova, em Salvador, acabou sendo arquivada no início de 2025.
Nesta segunda-feira, a defesa do senador também entrou com uma ação para anular os mandados de busca e apreensão expedidos pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, na operação Compliance Zero.
Segundo o advogado Pablo Domingues, a medida foi calcada em “equívocos”, uma vez que o senador apresentou, segundo ele, uma emenda que contraria os interesses do Master. Na decisão, o ministro do STF escreveu que há indícios de que o petista recebeu favores “econômicos” de um ex-sócio do banco para atuar em prol do Master no Congresso Nacional, o que Wagner nega.
“A defesa confia que o Supremo Tribunal Federal (STF) corrigirá os equívocos e reafirma a tranquilidade do senador quanto à sua conduta”, diz a nota do advogado.
Os relógios devem passar nos próximos dias pela análise da chamada perícia merceológica (de mercadorias e bens) no Instituto Nacional de Criminalística (INC), que vai identificar a sua autenticidade e valor de mercado. Se for encontrada alguma pedra preciosa, a peça também pode ser avaliada por um perito de geologia.
Esta não é a primeira vez que a PF apreende uma coleção de relógios com o senador. Em 2018, os agentes apanharam 15 em seu apartamento no âmbito da Operação Cartão Vermelho. Na ocasião, o petista disse que gostava de relógios, mas que as peças eram “réplicas da China”.
Em 2017, o delator e ex-diretor de relações institucionais da Odebrecht Claudio Melo Filho chegou a contar ao Ministério Público Federal que deu a Wagner dois relógios das marcas Hublot e Corum – avaliados em US$ 20 mil dólares e US$ 4 mil ao senador. Segundo ele, os objetos eram um presente de aniversário.
“O Sr. Jaques Wagner gosta de relógio, é meio notório, todo mundo sabia disso, eu pessoalmente sabia”, disse o delator a procuradores, em 2018. “A preocupação não foi com o valor, foi com o simbolismo. Depois, ele me agradeceu, mas pessoalmente nunca o vi usando”, acrescentou.
Além da coleção de relógios, a PF apreendeu dois celulares de Wagner e cerca de R$ 479 mil em espécie. O montante foi encontrado em notas de dólar e euro no hotel em Brasília e no apartamento do senador em Salvador.
O parlamentar explicou que boa parte desse dinheiro se refere a diárias pagas pelo Senado em função de viagens ao exterior.
— Eu viajei para o exterior, mandei até levantar. E, de 2019 pra cá, eu recebi de diárias aproximadamente US$ 70 mil dólares, e outras vezes que eu fui viajar eu comprei via Banco do Brasil, onde eu tenho conta, dólares ou euro, para fazer a viagem. Então, eu não tenho nenhuma coisa para esconder — afirmou o senador, em entrevista à BandNews.
O parlamentar também afirmou que está “absolutamente tranquilo” em relação às investigações e negou qualquer irregularidade.
— Nunca recebi dinheiro de ninguém, muito menos do Master ou do Augusto Lima. Então, eu estou absolutamente à vontade — disse ele, na entrevista, referindo-se ao ex-sócio do Banco Master que também foi alvo da operação.
No despacho que autorizou as buscas, André Mendonça escreveu que a PF apontou Wagner como o “beneficiário central” de “vantagens econômicas” pagas por Lima em troca da sua atuação no Congresso Nacional em prol da instituição financeira. Entre esses benefícios, estariam pagamentos de um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador, o uso de aeronaves particulares e ingressos para um show internacional.

