A urgência da crise climática conquistou a atenção dos investidores. Deixando de ser apenas uma pauta de governos, a transição para uma economia de baixo carbono vem ganhando força no mercado de capitais. De investidores-anjo a gestoras, passando por fundos de venture capital (capital de risco) e bancos de fomento, agentes econômicos começam a direcionar recursos a soluções tecnológicas de alto impacto socioambiental.
Embora não existam estatísticas consolidadas sobre investimentos privados em startups ligadas ao clima no país, há indício de aquecimento desses negócios. Pesquisa da Impacta Finanças Sustentáveis e KPTL, com patrocínio do Fundo Vale, mapeou 49 gestoras de venture capital e 1.829 startups de impacto socioambiental, sendo 1.466 focadas em floresta e clima.
Também foram mapeadas 1.971 rodadas de investimento de gestoras de venture capital, sendo 121 voltadas para climatechs, e 28 fundos de investimentos em participação (FIPs) de venture capital com potencial de aporte em floresta e clima.
Ao mesmo tempo, o equity (participação acionária) tem ganhado espaço no montante de ativos sob custódia dos atores de impacto, e bancos públicos têm ampliado o desembolso para projetos verdes. O estudo ainda identificou R$ 245 milhões parados em fundos de risco aguardando destino, voltados a soluções de floresta e clima.
A startup MeteoIA chamou a atenção da Bossa Invest ao criar o primeiro sistema nacional de previsão climática de longo prazo. Batizado de MIA, o modelo reduz custos de acesso a informações sobre o clima e amplia a precisão das análises. Segundo Farley Ramos, analista sênior da Bossa, o diferencial da MeteoIA está em prever não só eventos extremos, mas também as mudanças na média do clima anual, capazes de gerar impactos bilionários em diferentes setores.
— Os investidores perceberam que o clima é uma variável que tem bastante impacto econômico. E climatechs ou startups verdes são uma vantagem natural do Brasil. É um setor que a gente olha com bastante esmero aqui com o nosso time de investimento.
Fundada em 2018 por Gabriel Perez e Thomas Martin, a startup nasceu de pesquisas na Universidade de São Paulo (USP) e recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para desenvolver aplicações voltadas à geração de energia. A partir de 2022, expandiu o uso da plataforma para setores como seguros, rodovias, agro e construção civil. Com o novo aporte, quer acelerar a comercialização da MIA Risk, que fornece indicadores de risco climático a empresas de diferentes setores.
— O aporte impulsionará nosso setor comercial, ampliando a penetração da plataforma nos mercados de agro, energia e seguros — diz Perez.
Primeira rede de investidores-anjo do país dedicada a startups de clima, a Climate Angels realizou recentemente seu primeiro aporte, na Infinito Mare, que desenvolveu a solução Caravela, baseada no uso de algas para despoluição de rios e lagos.
A tecnologia já está em operação na Baía de Guanabara, no Rio, e na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, e deve chegar a Porto Alegre e São Paulo. Criada este ano, a Climate Angels assinou cinco acordos para estruturação de rodadas de capital e tem como meta mobilizar R$ 30 milhões até 2030 para montar um portfólio de 20 a 25 startups verdes. Entre as áreas de interesse estão agricultura sustentável, monitoramento e verificação de carbono, bioeconomia e eletromobilidade.
— O Brasil tem uma oportunidade única de protagonismo, possui os recursos naturais para criar, testar e escalar soluções inovadoras. O desafio é destravar o capital necessário para que essas soluções consigam atingir escala global — resume Michel Porcino, fundador da Climate Angels.
Em fase de captação, o fundo Biomas, criado pela Rise, o segundo veículo da gestora, é voltado a empresas brasileiras com soluções de impacto climático em energia renovável, agricultura sustentável, gestão hídrica e economia circular.
O primeiro aporte foi neste mês na Solinftec — empresa de tecnologia agrícola cujos robôs são usados em lavouras, como as de soja — , em uma rodada de investimentos junto com a Yvy. A gestora entrou com R$ 260 milhões e a Rise com os outros R$ 40 milhões. O fundo mira até R$ 500 milhões em aportes, com tickets entre R$ 25 milhões e R$ 75 milhões, e já mapeia novas oportunidades em energia renovável e soluções baseadas na natureza.
— O Brasil tem a chance única de ser protagonista global da transição climática. O fundo Biomas é mais do que um veículo financeiro, é um convite para investidores nacionais se tornarem parte de uma transformação histórica, alocando capital em soluções que regeneram a natureza, geram impacto positivo e criam valor econômico em larga escala — afirma Pedro Vilela, cofundador e CEO da Rise.
Na visão de quem acompanha o setor, o interesse por startups de soluções baseadas na natureza tem crescido, mas há barreiras de capital. Os ciclos de retorno são longos, e há tanto incertezas ligadas aos processos naturais como riscos territoriais, como é o caso do crime organizado na Amazônia, diz Daniel Contrucci, diretor executivo e cofundador da Climate Ventures.
— Estamos tentando padronizar modelos de financiamento para agricultura regenerativa e restauração ambiental, combinando fontes filantrópicas e capital privado, de empréstimo e dívida, para conseguir oferecer seguros e mecanismos de garantia que ajudem a destravar investimentos — afirma.
Porcino, da Climate Angels, acredita que o Brasil tem potencial para se tornar um polo global de inovação verde, mas alerta que é preciso destravar capital local e internacional. Ele observa que o interesse de investidores brasileiros tem crescido, puxado por compromissos corporativos, avanços do setor público e surgimento de novos modelos de financiamento, mas o capital estrangeiro ainda é o que prevalece.
— É preciso destravar capital na fase inicial e em formatos diversificados. Se tivermos fundos garantidores, liberamos grande volume de financiamento verde já disponível. E, com recursos de governos, bancos de desenvolvimento e fundações, alavancamos operações de maior risco.