A Polícia Federal não tem dúvidas de que Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, o Dudu, é a peça-chave para unir facções criminosas. Ex-assessor parlamentar do agora ex-deputado estadual Tiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Jóias, Dudu aparece em conversas extraídas de seu celular e do de Gabriel Dias de Oliveira, o Índio ou Índio do Lixão. Segundo relatório da PF, os dois chegaram a simular identidades falsas — como a de um capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e a de um secretário de governo — para “enganar” Wallace de Brito Trindade, o Lacoste, chefe do tráfico do Morro da Serrinha, em Madureira, da facção rival Terceiro Comando Puro (TCP), e “garantir a concretização” de negociações de drogas e armas.
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Em um dos episódios, de 19 de agosto do ano passado, Dudu enviou uma mensagem a Lacoste informando que seu amigo — identificado pelos investigadores como sendo Índio — havia retomado as tratativas para a venda de um carregamento de cocaína. No mesmo dia, Dudu foi até a favela da Serrinha para conversar pessoalmente com Lacoste, de acordo com a PF.
A estratégia de Dudu foi fazer com que Índio ligasse de outro número de telefone. O contato aparece salvo como “amigo BP”, o que, para os investigadores, pode ser uma referência ao Bope. Como a reunião entre Dudu e Lacoste ocorreu presencialmente, não há registro do conteúdo da conversa. Ao final, Índio agradece Dudu pela intermediação.
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O relatório da PF conclui que Lacoste, Dudu e Índio “praticam reiteradamente o delito de tráfico de drogas”. No caso específico, os investigadores destacam que Lacoste foi enganado pelos dois, que “simularam” ser autoridades do estado para convencê-lo a pagar o valor exigido pelas “mercadorias ilícitas”.
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Diz um trecho do documento, que embasou a decisão judicial:
“Lacoste, traficante da facção TCP, foi o principal comprador das drogas fornecidas por Índio e intermediadas por Dudu. Apesar de ludibriado quanto à origem da droga, manteve relação comercial com os demais envolvidos, negociando armamentos e realizando pagamentos parciais.”
De acordo com as investigações, Índio, mesmo pertencendo ao Comando Vermelho, fazia negócios com facções rivais por meio de Dudu. O relatório prossegue:
“Índio esteve envolvido na negociação e venda de grandes quantidades de cocaína, incluindo as ‘marcas’ Jacaré e Ciroq, para diversos interessados, entre eles Wallace de Brito Trindade, o Lacoste, ligado ao Terceiro Comando Puro. Nessa transação, valeu-se de Dudu para ocultar que a droga era proveniente da facção rival, Comando Vermelho.”
As marcas Jacaré e Ciroq, de acordo com a PF, são tipos de cocaína que variam de preço conforme o grau de pureza.
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Para a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, os elementos reunidos demonstram que, embora façam parte de facções rivais, os investigados se uniam quando o objetivo era o lucro.
“Apesar de TH e Índio terem aderido à organização criminosa Comando Vermelho, sob a liderança de Pezão (Luciano Martiniano da Silva, chefe do CV), não perdiam a oportunidade de realizar ‘negócios’ e lucrar ilicitamente, ainda que para isso negociassem pontualmente com lideranças de facções rivais.”
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O relatório ainda detalha:
“(…) A investigação delineou que Pezão foi o responsável pelo planejamento e execução das seguintes ações criminosas:
a) importação de armas de fogo e drogas, além do comércio interno de drogas, armas e munições;
b) aquisição de equipamentos para derrubar drones;
c) vazamento de operações policiais;
d) transações não autorizadas de câmbio;
e) lavagem de capitais oriundos de diversos ilícitos penais.”
Além do tráfico de drogas e armas, Dudu também intermediava a venda de drones e equipamentos antidrones para as três facções, segundo a Polícia Federal.
Procuradas, as defesas dos investigados não deram retorno ou não foram localizadas.