- Contexto: Divergências com o Exército e protestos marcam debate sobre ocupação total de Gaza, que avança pela madrugada em Israel
- Repercussão: Alemanha suspende envio de armas para Israel que possam ser usadas em Gaza após governo israelense aprovar nova ofensiva
Segundo comunicado do Gabinete de Netanyahu, o Exército se prepara para conquistar a Cidade de Gaza, cercada por áreas já controladas por Israel ou sob ordens de retirada. A ofensiva será gradual e acompanhada, segundo o governo, da distribuição de ajuda humanitária à população civil fora das zonas de combate. Apesar de o anúncio limitar-se à Cidade de Gaza, há a perspectiva de que também foram aprovadas, ainda que não anunciadas, operações subsequentes para além dessa área, já que a declaração pontua que o objetivo é “destruir [o grupo terrorista] Hamas”.
Na declaração alcançada após 10 horas de deliberações, o Gabinete de Segurança não usa o verbo “ocupar”, referindo-se, em vez disso, a “tomar o controle” da Cidade de Gaza. Segundo o portal israelense Ynet, a nomenclatura se deve a razões legais relativas à responsabilidade de Israel com relação aos civis em Gaza. Mas, ainda de acordo uma autoridade israelense ouvida pelo portal sob condição de anonimato, a distinção é um subterfúgio, já que a decisão de fato se refere a um controle militar total — ou seja, uma ocupação.
O Gabinete israelense decidiu que os palestinos têm até 7 de outubro para sair da cidade — um prazo de aproximadamente dois meses e que coincide com o segundo aniversário do ataque de 7 de outubro de 2023. O plano prevê que, findo esse prazo, as Forças Armadas de Israel (IDF, na sigla em inglês) lançarão a ofensiva terrestre na cidade. Após a tomada completa de controle, em uma operação que deve durar três meses, os militares devem se direcionar para os campos de refugiados ainda não conquistados da região central do território palestino. No total, de acordo com o diário Israel Hayom, estima-se que levará sete meses para a finalização completa do plano.
Quais são os objetivos declarados?
O plano estabelece cinco princípios para encerrar a guerra: desarmamento do Hamas; devolução de todos os reféns, vivos ou mortos; desmilitarização de Gaza; manutenção de controle de segurança israelense sobre o território; e criação de uma administração civil alternativa que não envolva o Hamas, nem a Autoridade Nacional Palestina, o órgão rival apoiado pelo Ocidente que exerce controle limitado em partes da Cisjordânia ocupada.
Por que a Cidade de Gaza é o alvo principal?
Principal centro urbano do enclave, a Cidade de Gaza tem cerca de 800 mil habitantes e concentra infraestrutura política, econômica e social da Faixa. Controlar a Cidade de Gaza também é visto pelo governo israelense como essencial para degradar a capacidade operacional e a liderança do Hamas. A cidade é cercada por áreas já controladas por Israel, mas foi, até agora, evitada pelas operações terrestres de grande escala por abrigar zonas densamente povoadas.
Israel pretende governar Gaza?
Netanyahu afirma que não. Em entrevista à rede Fox News, o premier disse que não quer manter o enclave sob administração direta de Israel, mas entregá-lo a “forças árabes” que governem “corretamente” e sem ameaçar o país. Segundo ele, a tomada de controle garantiria a segurança israelense e removeria o Hamas do poder.
Quais áreas de Gaza estão atualmente sob controle israelense?
O Exército afirma controlar 75% do território, sobretudo posições ao longo da fronteira. A ONU estima que cerca de 86% da Faixa esteja militarizada ou sob ordens de retirada. A principal área fora do controle de Israel se estende da Cidade de Gaza até Khan Younis, incluindo campos de refugiados.
Quanto tempo levaria para Israel controlar toda a Faixa de Gaza?
Na reunião, o chefe do Estado-Maior Conjunto de Israel, general Eyal Zamir, explicou que uma ocupação completa levaria um ou dois anos para ser concluída, com a fase inicial de combates intensivos provavelmente durando cinco meses. No entanto, estabelecer um sistema de controle semelhante ao da Cisjordânia ocupada exigiria até cinco anos de operações contínuas, segundo fontes de segurança israelenses.
Por que há resistência interna ao plano?
Zamir, que apresentou um plano alternativo que foi rejeitado, manifestou preocupação com o desgaste das tropas, a necessidade de mobilizar 200 mil reservistas e o risco de Israel assumir responsabilidades sobre milhões de palestinos. Famílias de reféns e líderes da oposição alertam que a expansão dos combates pode provocar a morte de cativos e mais perdas entre civis e soldados, além de custar bilhões de dólares e agravar o isolamento diplomático do país.
Há possibilidade de a ofensiva ser interrompida em caso de acordo?
Sim. O governo israelense disse que a operação na Cidade de Gaza poderia ser parada caso o Hamas aceitasse as exigências e um acordo de reféns seja fechado — mas membros da ala de extrema direita pressionaram para que a operação prossiga até o fim, sem deixar portas abertas a novas negociações.
Qual foi a reação do Hamas e da comunidade internacional?
O Hamas classificou o plano como “novo crime de guerra” e disse que a expansão da ofensiva significa sacrificar os reféns. China, Turquia, Reino Unido e o Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos criticaram a medida. Em movimento inédito, a Alemanha suspendeu exportações militares que possam ser usadas em Gaza. A pressão externa também é alimentada pelo alerta da ONU sobre “fome generalizada” no enclave.
Quais foram as reações internas em Israel?
O líder da oposição, Yair Lapid, classificou o plano como “uma catástrofe” que acarretará graves consequências humanas, financeiras e diplomáticas. Famílias de reféns protestaram veementemente, acusando o Gabinete de “abandonar” os cativos. Por outro lado, parcela da população e integrantes da coalizão governista apoiam a medida, considerando-a necessária para derrotar o Hamas.
Qual é a situação dos reféns?
Durante o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, 251 pessoas foram sequestradas. Hoje, 49 seguem em Gaza, segundo Israel — 27 estariam mortas. Autoridades israelenses acreditam que cerca de 20 estejam vivas. Famílias acusam o governo de “abandonar” os reféns e temem que a nova ofensiva leve à execução dos cativos.
Quais podem ser as consequências para a população de Gaza?
A ONU estima que o território precisa de pelo menos 600 caminhões de ajuda por dia para atender às necessidades básicas — atualmente, entram entre 70 e 80, após inspeções demoradas e com carga restrita. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, mais de 61 mil palestinos morreram desde o início da guerra, em sua maioria civis. Moradores temem que a ampliação das operações terrestres aumente o número de mortos e agrave as condições já críticas, com milhares vivendo em tendas, abrigos improvisados ou prédios destruídos.