A nova esperança para pessoas com uso abusivo de álcool pode estar em uma erva que cresce espontaneamente em terrenos. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, obtiveram bons resultados na redução dos episódios de compulsão por bebida alcoólica usando uma trepadeira chamada kudzu.
A planta, que é usada na medicina tradicional há mais de 2 mil anos, é originária do Leste Asiático e costuma ser considerada espécie invasora nos quintais do sul dos EUA.
No novo estudo, foram incluídos 120 adultos com transtorno por uso de álcool que apresentavam episódios de consumo excessivo pelo menos uma vez por semana. No caso das mulheres, esse padrão foi definido como a ingestão de quatro ou mais doses em uma única ocasião. Para os homens, o critério foi de cinco ou mais doses. (A diferença é explicada por fatores biológicos associados aos dois sexos).
Metade dos participantes recebeu extrato de kudzu, enquanto a outra metade recebeu placebo. Os produtos foram administrados durante 12 semanas, cerca de duas horas e meia antes dos momentos em que os participantes esperavam consumir grandes quantidades de álcool.
Ao final do tratamento — que também incluiu sessões semanais curtas de atendimento psicológico —, o número de dias de consumo excessivo de álcool caiu de 2,15 para 1,42 por semana entre os participantes que tomaram kudzu. No grupo que recebeu placebo, a mudança foi insignificante: a média passou de 2,15 para 2,06 dias.
Também houve redução semelhante na proporção de semanas em que os participantes relataram episódios de consumo excessivo. A queda foi de 30% no grupo que recebeu kudzu, contra apenas 7% entre aqueles que tomaram placebo. Essas diferenças persistiram mesmo depois do encerramento do tratamento.
Segundo os pesquisadores, os resultados podem abrir caminho para uma nova abordagem terapêutica contra o consumo excessivo de álcool. Nos Estados Unidos, problemas relacionados a essa condição provocam 178 mil mortes por ano.
Embora mudanças de comportamento sejam comumente recomendadas para tratar o abuso de álcool, existem medicamentos que costumam ser receitados para diminuir o desejo pela substância, como naltrexona, acamprosato e dissulfiram. Alguns provocam sintomas desagradáveis quando a pessoa bebe, enquanto outros bloqueiam os receptores responsáveis pela sensação de prazer associada ao consumo.
Na pesquisa, não foram associados efeitos colaterais graves ao uso de kudzu. Porém, a ingestão de suplementos com seus princípios ativos já foi relacionada a questões como retardo na coagulação sanguínea, problemas renais, lesões hepáticas e interações com anticoncepcionais, segundo o Memorial Sloan Kettering Cancer Center.
Trepadeira kudzu crescendo espontaneamente nas árvores em Atlanta, nos EUA
Wikimedia Commons
A planta é conhecida pelo nome científico Pueraria lobata. Na China, é chamada de gegen, denominação que se refere principalmente à raiz, a parte mais utilizada medicinalmente. As flores também têm uma longa tradição de uso, sobretudo para aliviar os efeitos do consumo de álcool.
Na medicina tradicional, a erva também é empregada para aplacar febre, problemas digestivos, resfriados e dores musculares.
Em relação ao alcoolismo, há registros desse uso desde pelo menos o século VII. Mais tarde, a recomendação da raiz e das flores da planta para esse fim passou a ser adotada por médicos chineses.
Uma revisão científica publicada em 1998 na revista Phytochemistry documentou o emprego de preparações de raiz e flores de kudzu contra problemas associados ao álcool havia mais de mil anos.
Planta invasora é a nova aposta da ciência para tratar abuso de álcool; veja o que diz estudo
