Um ano depois de uma seca sem precedentes, a bacia do Rio Amazonas registra uma enchente extrema que já afeta cerca de 534 mil pessoas. No último fim de semana, o Rio Negro, na altura de Manaus, atingiu a cota de 29,05 metros, alcançando a classificação de inundação severa, a pior dos três níveis de cheia. Pontos de medição dos rios Amazonas, Solimões e Purus também encontram-se no mesmo patamar de gravidade. Em comunidades indígenas e ribeirinhas, a água ficou contaminada, e plantações inteiras foram perdidas. Nos centros urbanos, o lixo tomou as ruas, e casas ficaram alagadas.
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A cheia nesses parâmetros foi causada pelas fortes chuvas concentradas no norte da bacia do Amazonas — o que inclui a região do Rio Negro — e nos Andes, onde fica a cabeceira do Rio Solimões, cujos níveis estiveram acima do normal entre maio e junho, explica o Serviço Geológico Brasileiro (SGB). No momento, a situação é de estabilidade, e nos próximos dias a tendência é de redução da água do Rio Negro. Por isso, o recorde de 2021, quando o nível da água superou os 30 metros e levou caos a toda a região, não deve ser alcançado.
A inundação está sendo sentida em praticamente todo o Amazonas. São 40 cidades em situação de emergência, incluindo a capital, além de 18 em estado de alerta — somente quatro dos 62 municípios amazonenses, portanto, têm passado incólumes pelos efeitos da cheia.
Imagens captadas por drones nos últimos dois dias reforçam o impacto das enchentes. Em Manaus, as áreas mais afetadas foram as zonas Sul e Oeste da capital, com destaque para os bairros Educandos, São Jorge, Aparecida, Presidente Vargas, Glória, Raiz, Colônia Oliveira Machado, Cachoeirinha e Centro, onde a água atingiu ruas e residências próximas à margem.
Jussara Cury, pesquisadora em geociências e superintendente regional do SGB, explica que o Rio Negro vinha subindo 1 centímetro por dia, mas parece ter chegado ao pico, com pequenas oscilações.
— É uma fase de estabilidade. Como as regiões de cabeceira, como o Alto Solimões, já apresentam tendência de vazante, esse comportamento também deve se refletir no Rio Negro — detalha Cury, sem deixar de ressaltar a gravidade da situação atual. — A cota de inundação severa é justamente aquela que gera grande impacto na cidade.
De acordo com a série histórica, em Manaus, 73% dos picos de cheia ocorrem em junho, 24% em julho e apenas 3% em maio. Os anos mais recentes em que o Rio Negro demorou mais a iniciar a vazante, como agora, foram em 2014 e 2009.
O cacique Jonas Moura, da Aldeia Gavião Real 1, no município de Silves, norte do Amazonas, conta que nunca havia visto o curso d’água com tanto volume. Lá, o pico foi há duas semanas. A sua aldeia, onde vivem 125 famílias, é banhada por rios que deságuam no Amazonas, como o Urubu, o Anebá e o Utarumã.
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— Todos eles encheram demais, ultrapassou os últimos anos, eu nunca tinha visto tão cheio. E não foi daquelas enchentes que vêm devagar. Veio com força, quase que numa devastação, da noite para o dia — narra o líder indígena.
Os prejuízos principais, segundo Moura, foram a perda de plantações de bananeira, macaxeira, maxixe e jerimum (abóbora). Houve também pessoas que tiveram suas casas tomadas pela água e, por isso, precisaram se mudar para terrenos mais altos.
Outro impacto tem a ver com a recente seca. O cacique conta que, como os rios ficaram excessivamente vazios no ano passado, muitas árvores, capim e cipós começaram a nascer no próprio leito do rio. Agora, com a cheia, a água levou essas plantas, incluindo espécies venenosas, em especial para peixes, como o cipó-ambé.
— Quando o curso começou a subir e derrubar as árvores, a água ficou poluída. Fez mal para peixes, animais e também para nós. Eu mesmo estou com diarreia — diz Moura, temendo novos efeitos do ciclo hídrico. — Esperamos que não seque demais, porque se não acontece tudo de novo.
Já Cleocimara Reis Gomes, membro do povo Piratapuya e coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro, lamenta principalmente a perda de plantações de mandioca, base da culinária indígena e uma das principais fontes de renda local. Ela cita as dificuldades na Comunidade do Rio Içana, no Alto Rio Negro, próximo a São Gabriel da Cacoheira, onde muitos moradores perderam roçados e as próprias casas.
— Nós, indígenas, não tiramos toda a safra de uma vez só. Vamos fazendo aos poucos: a farinha, o beiju, a tapioca. Aí, quando acontece isso, a gente perde tudo, né? — lastima Cleocimara, que projeta inclusive impacto nos preços dos produtos. — Eu acho que ano que vem o preço da farinha vai aumentar.
O fato de que a inudação severa surge um ano depois de uma seca histórica não passa despercebido por especialistas. O urbanista Rodrigo Capelato, coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Amazonas, destaca que a cheia atípica na sequência do que foi registrado em 2024 eleva a atenção ao chamado risco climático.
— É um tema que demanda esforços sistêmicos, sociais, ambientais, fiscais e urbanos, de adaptação e mitigação. O discurso tem aparecido nas falas dos gestores, mas sem uma ação efetiva. Seguimos acompanhando tragédias diante de slogans promissores — critica.
Procurada, a prefeitura de Manaus respondeu que construiu mais de 800 metros de pontes provisórias que garantem o acesso da população a escolas, igrejas e serviços essenciais. Além disso, a administração municipal anunciou a distribuição de cestas básicas, kits de higiene e água potável ainda nesta semana. Não houve necessidade de remoções por conta das cheias, mas a Defesa Civil prevê a entrega de mais de 15 mil moradias nos próximos quatro anos para famílias que vivem em áreas de risco.
Já o governo estadual do Amazonas informou que está realizando ações humanitárias nas áreas mais atingidas, como nas cidades de Humaitá, Manicoré, Apuí, Boca do Acre, Novo Aripuanã, Borba e Anamã. Já foram distribuídas 580 toneladas de cestas básicas, 2.450 caixas d’água de 500 litros, 57 mil copos de água potável,72 kits de medicamentos, dez kits purificadores de água e uma Estação de Tratamento Móvel (Etam).
*Estagiário sob supervisão de Alfredo Mergulhão