A música da arquibancada empurra uma seleção que não aceita perder e traz, em versos, por que os argentinos desejam a quarta estrela. A começar pelo fim: a última de Leo… será? Prefiro a cautela do Scaloni: “não serei eu a dizer que é a última do Messi.”
Aos 39 anos, Leo faz um Mundial brilhante. Apesar de apresentar cansaço nos últimos jogos, a genialidade permanece ali. Até mesmo quando usa o pé bom e não o espetacular (adorei essa frase que ouvi nesta semana, só não lembro quem a falou). Mas a memória não me deixa esquecer o que Messi viveu há 10 anos, no mesmo estádio da final.
Após a derrota para o Chile na decisão da Copa América (é muito provável que, no Brasil, não se saiba o que representa para o torcedor argentino perder um jogo para o Chile), a segunda seguida, Messi disse adeus: “A seleção terminou para mim. Foram quatro finais, e não é para mim. Tentei, era o que eu mais queria, e lamentavelmente não deu”.
Messi de joelhos no gramado, na final da Copa América de 2016, no MetLife Stadium, em Nova Jersey
AFP
Dez anos depois, Messi conseguiu o impossível. Não me refiro a vencer duas Copas Américas, uma sobre o Brasil no Maracanã, ou de conquistar a Finalíssima. Também não me refiro à Copa do Mundo de 2022. Como seria impossível repetir algo que a Argentina já tinha feito duas vezes? Pois o que soava como blasfêmia hoje é realidade: para muitos na Argentina, dentro das quatro linhas, Messi é maior que Maradona.
Messi ergue a taça da Copa do Mundo de 2022
Anne-Christine POUJOULAT / AFP
Don Diego, nunca esquecido pelos argentinos, não viu Messi ser campeão com a camisa da Argentina, pelo menos neste plano (quem sabe esteja ajudando desde o outro?!). A Argentina tem muitos defeitos, mas a falta de memória não é um deles. Diego está sempre presente, assim como as Malvinas. Em qualquer estádio de futebol a lo largo y ancho del país as Malvinas estão presentes. Em bandeiras, em faixas ou dando nome a estádios. Todo dia 2 de abril, os veteranos de guerra são homenageados nos gramados, e a vitória sobre a Inglaterra na Copa aqueceu o coração daqueles que ainda sofrem os traumas da guerra. Eram garotos sem preparo contra um dos exércitos mais poderosos do mundo. Na guerra morreram muitos Fernández, Álvarez, Martínez, sobrenomes que fazem parte da identidade argentina.
Faixa com imagens de Messi e Maradona exibida em Argentina x Holanda na Copa do Mundo de 2022
MANAN VATSYAYANA / AFP
Esqueçam aquele papinho elitista de que “somos a Europa na América do Sul”. Se você olhar bem para os rostos de Enzo, Lautaro, Molina, Otamendi, Cuti ou Lisandro, verá a cara da verdadeira Argentina — aquela que por muitas vezes não tem voz, aquela que luta incansavelmente, dia a dia, por dignidade e justiça. A Argentina que não é apenas europeia, mas também não-branca e que carrega sobretudo traços dos povos originários.
Lionel Messi em Argentina x Suíça, pela Copa do Mundo 2026
David Ramos / AFP
Claro que a Argentina também é feita por Scalonis, Messis, MacAllisters, ou Sibillas como eu. Mas essa seleção que não aceita perder, representa muito a Argentina que não desiste do cotidiano, que luta todos os dias para que os filhos não passem fome. Lisandro Martínez já disse que, quando criança, por muitas noites foi dormir sem comer.
Há um sentido de pertenencia, de pertencimento em português, nessa seleção, o que traduz uma relação especial. Os argentinos se identificam com essa equipe especialmente pela atitude em campo, por deixar tudo sem hesitar, e por honrar aquilo que eles entendem que é algo maior: não falhar com os seus!
Messi e Scaloni durante campanha da Argentina na Copa do Mundo de 2022
JUAN MABROMATA / AFP
Messi é rodeado por jogadores que não querem falhar com ele. Enquanto ele não quer falhar com aqueles que amam a seleção, que se sentem 100% representados.
Não falta caráter para a Scaloneta. Certamente, não é o futebol mais vistoso da Copa do Mundo, mas é o futebol que representa 47 milhões de pessoas, sem se esquecer do passado e que reverencia o presente!
