Entra a batida do tambor, aquela que as pessoas acham que conhecem. Boom. Acontece bem antes de Whitney Houston cantar o refrão final do single mais vendido de todos os tempos por uma artista solo feminina, com a música pausando logo antes. “And I…”, ela canta com toda a sua potência vocal, “will always love you”.
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Nas redes sociais, as pessoas tentam recriar o momento inesquecível e estrondoso da música de sucesso que fez parte da trilha sonora do filme “O guarda-costas” (1992), uma versão da balada de 1974 composta por Dolly Parton.
É um teste de reflexos. Atores de Hollywood, atletas profissionais e pessoas comuns descobriram o quão difícil é acertar o ritmo da bateria, participando do que ficou conhecido nas redes sociais como o “desafio da bateria de Whitney Houston”. O objetivo? Tocar no tambor — uma panela ou palmas servem — no mesmo instante da música.
Milhões de pessoas assistiram a vídeos sobre as dificuldades desses percussionistas amadores, incluindo Scarlett Johansson, jogadores do Tottenham, tenistas, professores e alunos. Muitos começam em falso e em algumas situações quase deu certo. Todos parecem concordar em uma coisa: é mais difícil do que parece.
“Sempre tentei colocar um grande momento em uma música, mas nada, é claro, funcionou tão bem quanto essa”, disse David Foster, que produziu e arranjou a música para a Houston, em uma entrevista na última quinta-feira (20).
O fenômeno diverte Foster, de 76 anos, que já ganhou 16 prêmios Grammy e também colaborou em canções de sucesso com outras superestrelas da música, incluindo Celine Dion, Barbra Streisand e Andrea Bocelli.
“Acho divertido”, disse ele. “Meio que me fez repensar a duração da pausa”.
O final da música, que ilustra a extensão vocal de Houston, falecida em 2012 aos 48 anos, surge um nome. Nita Whitaker, que cantou a demo original do single de sucesso, o apelidou de “boom and I”, segundo Foster.
Na Griswold Middle School, no leste de Connecticut (Estados Unidos), professores e alunos, um após o outro, se apresentaram ao som de um grande tambor no ginásio, no dia 24 de outubro, para testar sua coragem. A competição foi o destaque do evento “Red Ribbon Spirit Rally”, uma ação de conscientização sobre os perigos das drogas e do álcool.
Até o mascote da escola e um policial entraram na brincadeira, com o refrão dramático tocando repetidamente como se estivesse em loop enquanto cada participante errava o alvo. Então, Erin Shea, de 45 anos, professora de matemática do quinto ano, deu um passo à frente, batendo o pé direito no ritmo da música.
“Tem algo na batida”, disse Shea em uma entrevista. “Pelo que ouvi, é uma questão de semínima ou colcheia que confunde todo mundo. Comecei a contar mentalmente para ver se minha contagem estava certa”. Com a mão direita, empunhando a baqueta, ela tocou o tambor no momento perfeito, levando o ginásio lotado — e as redes sociais — ao delírio.
Um vídeo publicado pelo distrito escolar no Instagram acumulou mais de seis milhões de visualizações. Milhões de outras pessoas assistiram à façanha da Shea no YouTube, com seu filho de 12 anos reproduzindo o vídeo para ela na smart TV de casa.
“Ele disse: ‘Mãe, você viralizou'”, contou a Shea. “Foi uma loucura”.
Então, o que torna o ritmo da música tão difícil de perceber para o ouvido destreinado? Parte disso se deve ao longo espaço entre os compassos. “Isso acrescenta uma boa dose de drama a essa música já belíssima”, disse David Cowan, professor associado do Berklee College of Music em Boston, baterista e compositor.
“É uma música realmente emocionante, e então você tem essa pequena desaceleração, e depois esse espaço vazio onde nada acontece, e de repente, bum! E isso nos prepara para o clímax da música”. Depois, há a variação do ritmo na música. “O mistério é que as pessoas não sabem por onde começar a contar”, disse o professor Cowan.
Finalmente, no que Foster descreveu como uma peculiaridade, o som estrondoso do tambor surge entre as batidas. “É tão aleatório”, disse ele. “Teria sido tão lógico da minha parte manter tudo no ritmo certo”.
Outra curiosidade? A acústica. “Acho que gravamos a batida da bateria no banheiro do estúdio para conseguir esse efeito de reverberação”, disse o Foster.
Durante a promoção do filme “Jurassic world: rebirth”, no final de junho, três de seus astros, Jonathan Bailey, Mahershala Ali e Angelina Jolie, caíram na gargalhada ao tentarem o desafio, como mostrou um vídeo publicado nas redes sociais.
“Você tem que adivinhar quando a bateria entra”, disse Johansson, batendo palmas antes da hora, e depois caindo na gargalhada enquanto exclamava: “Não!”. Em seguida, foi a vez de Bailey, que levou as mãos à cabeça em profunda concentração e caiu da cadeira em meio a uma crise de riso histérico ao acertar.
Em outubro, mais de 20 jogadores do Tottenham Hotspur participaram da brincadeira, mas apenas quatro acertaram o momento certo em um vídeo que o clube compartilhou no TikTok. “Se essa música ficar na sua cabeça, a culpa é sua”, dizia a publicação.
Algumas pessoas adicionaram humor ao desafio, incluindo Maria Ferrer, uma personalidade das redes sociais, que se filmou comendo um pacote de Cheetos e tirando as migalhas da camisa durante a longa pausa da música, antes de tocar um tambor de forma brincalhona e ir embora.
Os fãs podem ficar surpresos ao saber que o momento culminante quase não aconteceu, como lembrou Foster. “Eu era amigo da Dolly Parton e liguei para ela”, explicou ele. “Eu disse: ‘Você nunca vai adivinhar o que acabamos de gravar com a Whitney — sua música, ‘I will always love you’. E ela disse: ‘Ah, que ótimo. Mal posso esperar para ouvir o que você fez com o terceiro verso”.
Foster ficou confuso: “Eu disse: ‘Qual é a terceira estrofe?'”.
Descobriu-se que os produtores estavam usando como modelo o arranjo da versão da música de Linda Ronstadt, de 1975, que tinha apenas duas estrofes, disse ele. Parton afirmou em entrevistas que insistiu para que Houston cantasse a terceira estrofe.
Segundo Foster, se alguém ouvir atentamente a versão final, o som de um teclado preenche sutilmente o vazio antes da famosa batida de bateria. “Talvez isso ajude as pessoas”, disse ele. “Sabe de uma coisa? Eu deveria aceitar o desafio”.
Desafio aceito, mas, mesmo para o vencedor do Grammy, não foi uma tarefa fácil.

